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Entrevista:
Nélida Piñon
"A população brasileira está condenada ao silêncio da própria alma"
Defensora da palavra escrita como instrumento indispensável à sociedade, a
escritora Nélida Piñon fala sobre literatura, globalização e a função do
escritor
Por José Roberto
Mendes*
Foto Miralles

Como
o próprio sobrenome denota, sua ascendência é espanhola, mas Nélida Piñon
nasceu e foi criada no Rio de Janeiro, ou, mais precisamente, no bairro de
Vila Isabel. Formou-se em jornalismo pela PUC-RJ e, não tardou muito,
passou a trabalhar em revistas e jornais.
Estreou na literatura com o romance “Guia-mapa de Gabriel Arcanjo”,
publicado em 1961, que trata do tema da relação dos mortais com Deus,
através do pecado e do perdão. Empenhou-se, desde o início, pela renovação
formal da linguagem e já em “Fundador”, publicado em 1969, abandonou o
realismo que comandava a criação analógica do mundo literário. Seu
romance seguinte foi “A Casa da Paixão”, de 1972, cujo tema discorre sobre
o desejo e a iniciação sexual, tendo recebido o prêmio Mário de Andrade.
Depois, vieram “Tebas do Meu Coração” (1974), “A Força do Destino” (1977),
o auto-biográfico “A República dos Sonhos” (1984), a denúncia política em
“A Doce Canção de Caetana” (1987) e, mais recentemente, “Vozes do Deserto”
(2004). Dedicou-se também aos contos e às crônicas, publicando, entre
outros, “Tempo das Frutas” (1966) e “Até amanhã, outra vez” (1999).
Participou, no Brasil e no exterior, de muitos encontros, congressos e
seminários, proferindo palestras e conferências sobre temas ligados à
literatura e à cultura. Em 1989, foi eleita membro da Academia Brasileira
de Letras, onde, sete anos mais tarde, tornou-se a primeira mulher a
presidir a ABL, no ano do primeiro centenário da instituição. Sua obra
está traduzida e publicada em diversos países, tendo sido agraciada por
vários prêmios nacionais e internacionais, entre eles o Prêmio Príncipe de
Astúrias das Letras de 2005, concedido pela fundação de mesmo nome, da
Espanha.
***
BN - Como
aconteceu no seu caso, o estímulo à leitura deve vir desde a infância, mas
nem sempre isto é possível. De que maneira os pais devem estimular seus
filhos à leitura?
NÉLIDA PIÑON
- Eu acho que o estímulo à leitura, de certo modo, deveria estar associado
ao estímulo da vida. O que é viver? Para onde você está conduzindo o seu
filho? Que portas abrir? Eu acho que cada porta que você abre para o seu
filho, o livro passa junto. Você não pode realmente lançar essa criatura
sua, que você ama, sem fazer ver a ela que o livro é um mestre, ensina a
viver, é erótico, tem uma carnalidade, é uma aventura humana, é o portador
do saber. E o saber torna você um sedutor, ou uma sedutora. Eu garanto a
todo jovem que, como o saber se origina do livro, se ele gosta de ler, vai
ser muito bem sucedido na questão erótica, porque o livro toca realmente o
seu coração e lhe transmite galanterias. É, a meu juízo, uma das grandes
conquistas da civilização.
BN - Com as novas
tecnologias, o livro não tem perdido um pouco o seu espaço?
N.P. -
É provável que ele esteja, temporariamente, perdendo o seu espaço. Mas se
a sociedade humana decidir que assim seja, eu vejo essa sangria como um
avanço da barbárie. Eu não creio que a internet, a informática, o cinema,
ou tudo que seja, possa substituir o refinamento do pensamento, ou a
liberdade que o pensamento conquista quando está sozinho diante de um
livro. O livro é, sem dúvida, o grande patamar da liberdade humana.
BN - Com sua
intensa carreira internacional no mundo da literatura, participando de
diversos seminários, palestras, congressos e ministrando cursos, de que
forma, na sua opinião, a globalização tem influenciado a literatura?
N.P.
- Eu não vejo que a globalização tenha a ver com a criação literária; isto
é, que tenha afetado profundamente a maneira de escrever, ou de conceber o
mundo através da literatura. O que altera, a meu juízo, de uma forma muito
positiva, é que amplia os horizontes da vida. Você olha o mundo de uma
forma mais cosmopolita. E isso não vai prejudicar a visão que você tem do
seu país, da sua língua, do seu povo. Quanto mais universal você seja,
mais estará preparado para entender as idiossincrasias da sua própria
condição de brasileiro. Uma presumível identidade não é afetada quando
você atravessa o Atlântico. Eu acho que quanto mais você sabe, mais
poderá desenvolver a sua compaixão, a sua visão de mundo, o seu
entendimento humano, a sua compreensão da grande trajetória histórica.
Portanto, o que se designa como globalização não afeta a pena, ou como
você vai escrever uma frase, porque escrever é difícil, globalizado ou
não. Mas, ao mesmo tempo, é uma oportunidade extraordinária de você
entender como é a sua história pessoal, a história coletiva, como podemos
ingressar no coração do próximo, como se traçam as grandes intrigas
humanas. Porque a história do ser humano está na literatura. Se quisermos
entender, por exemplo, o que foi Roma sob o império de Nero, que foi um
homem de extraordinária crueldade, podemos ir ao Satyricon, um dos
primeiros romances que a humanidade concebeu, escrito por Petrônio. É um
livro que revela a história de uma humanidade e dos senhores do mundo
naquele momento, quando começava o seu declínio. Que filme poderia revelar
tão bem o Império Romano como um romance? Se você quer entender,
perfeitamente, o que foi o Japão dos séculos XI e XII, pode ler, por
exemplo, os grandes contos da Sra. Murasaki, que terá o retrato perfeito
de uma época e de como pensavam homens e mulheres. Então, eu acho que o
escritor é aquele que, além de fixar o painel dos sentimentos humanos, tem
toda uma sociologia por trás do que ele conta. Portanto, eu não vejo como
se deveria dispensar as grandes narrativas onde está a nossa história.
BN - Qual é,
então, a seu ver, a verdadeira função do escritor?
N.P.
- Eu acho que o escritor deve devotar-se com paixão à literatura, quase de
uma forma soberba, e devotar-se também ao saber, ao conhecimento, para que
a obra dele não deixe aflorar apenas um saber limitado, ou um texto sem
grande arrebatamento estético. Ele é alguém que julgo indispensável à
sociedade e deve ser altamente ambicioso, no sentido de fazer uma grande
obra literária, mesmo que fracasse. O fracasso, às vezes, é a sua coroa.
De espinhos, mas uma coroa. Mais vale fracassar do que não ter se
empenhado em fazer uma obra significativa para o seu país e para si mesmo,
para suas ambições pessoais. Ele é um ser que fixa os valores, a
elasticidade e a plasticidade da língua, que cada qual vai inventando na
rua, nos bordéis. A língua tem uma origem espúria. Cada palavra que se
adiciona à nossa língua, ela tremula: é uma palavra talvez suja no sentido
imediato, mas depois ganha uma eloqüência, uma grandeza, que o uso popular
consagra. É por isso que nós temos uma língua portuguesa tão suntuosa,
opulenta, poderosa. Ela se presta a qualquer serviço lingüístico. Qualquer
coisa que um escritor não conseguir dizer, a falha não é da língua; a
falha é dele. Então, eu acho que esse conjunto de desafios extraordinários
dá guarida ao escritor. Faz com ele se prepare para ser quem ele quer ser,
ou como ele vai registrar a aventura humana ao longo de toda uma vida,
quando jovem, maduro, na sua alta maturidade e até quando a vida o leve.
Mas ele deixa atrás de si um patrimônio, que é a sua obra romanesca ou
poética, ou o que seja, mesmo porque os grandes romances têm traçados
nítidos de poesia.
BN - Mas, num
país socialmente injusto e de baixa educação, como o nosso, de que forma
deve ser esse empenho do escritor?
N.P.
- Eu vou usar um exemplo que me fascinou quando eu era muito jovem. Surgiu
um debate, na França, entre dois grandes intelectuais: o Jean-Paul Sartre
e o Claude Simon, que mais tarde ganhou o Prêmio Nobel. O Sartre dizia
que, naquele momento, seria necessário que os jovens africanos, que
estavam em Paris, defendessem a sua pátria, voltando para a sua terra e
assumindo posturas políticas e ideológicas. Já o Claude Simon falava que
estava certo não renunciar às posturas políticas e ideológicas, mas o
escritor africano devia fazer a sua obra independente de países pobres e
iletrados; porque se ele deixasse de “registrar a história de seu país,
ainda que em meio à dor, quem o povo africano irá ler ao longo dos anos ou
dos séculos? Acaso, o escritor francês? Acaso, o Sr. Sartre?” Então, é
lastimável que o Brasil seja um país precário, injusto, e que a população
brasileira esteja totalmente alijada das benesses culturais. Porque essa é
que é a verdade: esse contingente está previamente condenado não só ao
silêncio da leitura, mas ao silêncio da própria alma. O escritor
brasileiro não deve deixar de defender essa carência dramática do Brasil,
mas deve sempre realizar obras, porque são elas que vão integrar o
patrimônio do país. Quando o Brasil for redimido e alcançarmos uma
plenitude social justa, será preciso que se encontre uma literatura nossa.
Portanto, temos que escrever. Não podemos renunciar à literatura,
independente da condição que estamos vivendo, ou das dificuldades nas
quais estamos imersos. Acaso o Brasil do século XIX, muito mais miserável
que o Brasil de hoje, justificava a presença de Machado de Assis? Acaso, o
Machado de Assis deveria ter rasgado sua obra, ou silenciado o seu gênio,
só porque o entorno brasileiro era injusto e não poderia absorver o seu
talento único, inenarrável? Machado de Assis fez a sua obra, a mais
importante que o Brasil já conheceu, e se tornou, a meu juízo, o
brasileiro mais ilustre de todos que o Brasil gerou.
BN - O escritor,
portanto, deve realizar. Mas ele não deve, também, estar sempre atento ao
seu tempo?
N.P. -
Eu acho que o escritor é um ser que interpreta o seu tempo, mas
independente das agruras, ou da escória moral do seu tempo, ele tem o
dever moral de escrever. Ele não pode silenciar-se, não pode rasgar a
página em branco. O dever dele é pegar da pluma, como exemplo simbólico, e
rabiscar a história da humanidade. Ele não pode integrar-se à barbárie.
Porque a barbárie quer abafar o talento, o gênio, a civilização.
BN - Em poucas
palavras, o que é o livro, na sua concepção?
N.P. -
O livro é o lar, é a cama, é o amor, é o espírito. O livro é a vida.
* Jornalista e
Diretor da Tv Educativa / RJ
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