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Entrevista:
Leneide Duarte-Plon
Uma utopia a ser perseguida
Brasileiras e francesas revelam suas experiências em ensaio sobre o eterno
tema da infidelidade
Por Paulo Lima
Foto Evandro Teixeira

A
jornalista e tradutora Leneide Duarte-Plon ouviu três gerações de mulheres
acerca de seus relacionamentos amorosos. No centro da discussão, um tabu:
a infidelidade feminina. Ao todo, doze mulheres confidenciaram suas razões
que as levaram a ser mais, ou menos, fiéis aos seus pares amorosos. O
resultado está publicado no livro Por que as mulheres são (in) fiéis,
recém-lançado no Brasil (Ediouro, 116 p., R$ 29,90).
A
autora, que vive desde 2002 em Paris e já trabalhou para diversos
veículos, como Folha de São Paulo, O Globo, Veja e
Jornal do Brasil, examina na primeira parte do seu ensaio a condição
da mulher tomando como ponto de partida o célebre relacionamento de Jean
Paul-Sartre e Simone de Beauvoir, inspirador de muitas experiências
libertárias em torno do casamento. Dialogando com inteligência com fontes
da psicanálise, da literatura e da filosofia, Leneide Duarte-Plon oferece
uma boa síntese da submissão da mulher ao longo da História.
É na
segunda parte do livro, porém, que o desafio da fidelidade se materializa
nas ricas experiências de brasileiras e francesas. Conquistas e
frustrações se alternam nos caminhos perseguidos para atingir a felicidade
amorosa. E são muitas as vivências. Para a brasileira Cecília, de 54 anos,
a fidelidade é um “conceito histórico”. Para Priscilla, 49 anos, também
brasileira, a fidelidade é “uma coisa muito subjetiva”. Já para a francesa
Claude, 48 anos, existem “diversas formas de infidelidade”. Considerado o
conjunto dos depoimentos, foram “as mulheres mais jovens que mais
defenderam a fidelidade como um valor a preservar dentro de uma relação
amorosa”, disse Leneide Duarte-Plon nesta entrevista concedida por e-mail.
***
BN – As mulheres que
você ouviu pertencem a três gerações diferentes. Com relação à
infidelidade, como uma geração se diferencia da outra?
Leneide Duarte-Plon
- Ouvi mulheres que começaram a vida sexual pouco antes do lançamento da
pílula anticoncepcional. Ouvi outras que começaram a vida amorosa e sexual
pós-pílula e que, conseqüentemente, tinham uma postura mais livre e mais
desenvolta quanto ao amor e ao sexo, pois já se beneficiaram das
conquistas do movimento feminista. E, finalmente, a geração de mulheres
que começaram a vida sexual pós-Aids e tiveram que se submeter ao teste
anti-HIV a cada nova relação amorosa. Essas três gerações têm
necessariamente uma visão um pouco diferente da fidelidade. Como não ouvi
mais que 12 mulheres, não posso tirar conclusões apressadas, seria
irresponsável e pouco rigoroso do ponto de vista científico. Mas pude
constatar que as mais jovens são as que mais defenderam a fidelidade como
um valor a preservar dentro de uma relação amorosa.
BN - Em sua exploração
do tema, você percebeu alguma diferença fundamental entre brasileiras e
francesas?
L.D.P.
- Tanto as francesas quanto as brasileiras querem amar e ser amadas.
Talvez as francesas que ouvi se sentiam mais livres dentro de uma relação
durável, tinham mais liberdade de ação. Essa posição é uma realidade entre
os intelectuais, influenciados pelo ideal de casal representado por Sartre
e Simone de Beauvoir. Como ouvi mulheres que passaram pela universidade e
foram influenciadas pelas idéias libertárias do feminismo, elas não são
representativas de todas as camadas da população francesa. Não vi
diferenças fundamentais entre as brasileiras e as francesas que ouvi, pois
em ambos os grupos as mulheres pertenciam à classe média urbana, de nível
universitário, com amplo acesso à informação e às conquistas do feminismo.
BN - Qual depoimento
mais a impressionou? Por quê?
L.D.P.
- Todos os depoimentos são ricos, intensos e representam fatias de vidas,
retratos de mulheres que se confiaram em toda liberdade, graças ao recurso
do depoimento anônimo. Mas fiquei particularmente impressionada por
descobrir uma mulher que juntamente com seu companheiro atual se entrega a
jogos amorosos a três, sempre com uma outra companhia feminina. Acho esse
comportamento bastante fora do comum, um tanto perverso, e confesso que
não vejo nele um modelo a ser seguido pelos casais que querem construir
uma relação amorosa fértil e profunda.
BN - Com base em fontes
variadas, você faz uma espécie de arqueologia da submissão da mulher em
várias culturas. No século XXI, essa submissão poderá ser atenuada?
L.D.P.
- Nos países ocidentais essa submissão tende a ser
atenuada, apesar do crescimento do
fundamentalismo cristão nos Estados Unidos. Mas nos países muçulmanos,
onde os fundamentalistas vêm ganhando espaço pelo voto ou através de
regimes ditatoriais, a situação da mulher piora, elas são submetidas a
leis medievais. Na maioria dos países muçulmanos, o status das mulheres é
de um cidadão de segunda classe, tutelado pelo pai ou pelo marido. Elas
não podem sair sozinhas sem o marido, pai ou irmão, não podem nem mesmo
dirigir um automóvel, como na Arábia Saudita. E o voto ainda é um direito
masculino em alguns países muçulmanos. E quando os fundamentalistas ganham
influência, a situação das mulheres se torna catastrófica, como mostro no
livro, quando falo da situação das mulheres no Afeganistão dominado pelos
talibãs. A luta pela libertação da mulher ocidental avança na maioria dos
países. Mas não podemos nos esquecer
das que estão submetidas a preceitos religiosos retrógrados, que as
oprimem em nome do Alcorão, da Bíblia ou de outros livros sagrados,
escritos por homens, preocupados em controlar o desejo feminino, para
garantir a origem da progenitura nas sociedades patriarcais.

BN - No livro, você
cita o caso da militante francesa, filha de argelinos, Fadéla Amara, que
tem levado adiante o movimento ni putes ni soumises (nem putas nem
submissas), o qual defende a convivência de homens e mulheres. Você acha
que essa é a marca do feminismo no século XXI?
L.D.P.
- Sim, acho que o feminismo, isto é, o movimento pela igualdade entre
homens e mulheres, deve ser uma luta de ambos os sexos. Assim como
qualquer movimento de defesa dos direitos humanos, o feminismo deve
congregar todos os democratas que lutam pela igualdade de direitos e
deveres em todos os campos da atividade humana. Por que dispensar o
talento, a sensibilidade e a força criativa de metade da humanidade do
sexo feminino? Não é um desperdício e uma insanidade deixar de contar com
a força e o talento das mulheres na política e nas artes em geral ? Se o
mundo fosse dirigido por mulheres e por homens, em proporções iguais, não
poderia ser mais justo e menos violento?
BN - Com a exacerbação
da concorrência interpessoal imposta pelo mundo globalizado, a relação
entre homens e mulheres não poderá sofrer mais tensão, e não o contrário?
L.D.P.
- Isso ocorre quando a mulher é vista como uma concorrente e não como uma
cidadã de pleno direito. O mundo globalizado desperta tensões
necessariamente entre os países porque a lógica desse mundo é o lucro, num
capitalismo triunfante que esmaga valores como solidariedade, igualdade e
fraternidade. A lei do mais forte é o lema do mundo globalizado como prova
a invasão americana no Iraque e a recente invasão israelense do Líbano,
ignorando todas as resoluções da ONU e os protestos dos povos. A
“comunidade internacional”, cada vez mais enfraquecida, assiste totalmente
impotente a essa nova realidade de domínio da força sobre o Direito
internacional. Diante dessa realidade
brutal, isto é, a lei do mais forte que se impõe sobre o Direito
internacional, as relações entre os sexos tendem a se deteriorar, pois os
valores que construíram o ideal de igualdade são desprezados pela lógica
capitalista que se impõe no mundo todo como rolo compressor.
BN - As mulheres por
você ouvidas revelam inúmeras razões para serem infiéis. Cecília, por
exemplo, afirma: “Acho que a fidelidade é um conceito histórico”. Trata-se
de um conceito histórico ou plenamente subjetivo?
L.D.P.
- Acho que é um conceito subjetivo influenciado por diferentes realidades
sociais e históricas. Houve sociedades em que a infidelidade foi praticada
em classes privilegiadas, como na corte dos reis franceses, onde o
soberano e os aristocratas tinham amantes (tanto os homens como as
mulheres eram infiéis) abertamente. Em alguns casais modernos, a liberdade
de corpos e de espíritos, como queriam os existencialistas, é uma
premissa. Outros lançam as bases da relação sobre a fidelidade absoluta
dos cônjuges. Cada casal deve encontrar a ética que lhe convém e construir
uma vida em comum baseada em suas expectativas de felicidade.
BN - O filósofo
Bertrand Russel, cujas idéias sobre o casamento você examinou, acreditava
que, numa sociedade civilizada, homens e mulheres são em geral polígamos.
A fidelidade é uma utopia?
L.D.P.
- Para alguns, a fidelidade é uma utopia a ser perseguida. Para outros, é um
ideal inatingível. Cada relação é única e o casal deve construir sua
própria ética que funciona de acordo com o universo intelectual e moral
das duas pessoas que o formam.
BN - Você observa que a
emancipação da mulher tem sido um horizonte inspirador para as feministas,
porém nenhum país do mundo atingiu essa igualdade. Esse é um ideal
inalcançável?
L.D.P.
- Não acho que seja um ideal inalcançável. Os países nórdicos repousam
sobre sociedades nas quais as mulheres têm uma participação política e
social praticamente igual à dos homens. O parlamento tem deputados e
senadores de ambos os sexos em proporções quase iguais. A França, um país
do ocidente bastante avançado nas lutas feministas, ainda está longe de
atingir a participação ideal das mulheres na política. As mulheres ainda
são menos de 10% no parlamento francês, mas, a menos de dez meses das
eleições presidenciais, Ségolène Royal aparece como a preferida do
eleitorado socialista para as eleições de abril do ano que vem. Os
machistas já começaram a fazer piadas infames tentando minar sua
candidatura, mas ela cresce a cada dia. Em novembro, quando os militantes
socialistas deverão escolher seu candidato, é possível que a França tenha
a primeira mulher candidata ao posto máximo. E a vitória de Ségolène Royal
é uma possibilidade concreta, o que mostra que as mulheres francesas não
querem ver a polícia como um domínio exclusivamente masculino. Hillary
Clinton é freqüentemente citada como possível candidata dos democratas nas
próximas eleições americanas. Michèle Bachelet no Chile pode ser o começo
de uma maior participação feminina na política dos países da América
Latina. No Brasil, a senadora Heloisa Helena traduz essa participação e
sua campanha é importante para mostrar o papel positivo das mulheres na
política nacional, apesar da fraca participação feminina no Parlamento.
BN – Neste aspecto,
você cita estatísticas curiosas sobre o Brasil. As mulheres são 43% da
população economicamente ativa, mas somente 9% ocupam cargos de direção
nas empresas. Esta é uma expressão típica do nosso machismo?
L.D.P.
- A percentagem de nossa população feminina economicamente ativa, 43%, e a
percentagem de mulheres no parlamento e nos cargos de direção das
empresas, ambas abaixo de 10%, é uma prova de que temos ainda um longo
caminho a percorrer até chegarmos à igualdade entre homens e mulheres no
Brasil!
BN - Para as novíssimas
gerações, hoje prevalece o “ficar”, o estar com o máximo de namorados ou
namoradas. No futuro, essa atitude poderá contribuir para uma nova idéia
de fidelidade?
L.D.P.
- O “ficar” dessa nova geração talvez represente uma busca de novas
referências nas relações amorosas. Não sei se é uma forma de se conhecer e
de escolher o par definitivo (que seja eterno enquanto dure!) mais
indicada do que a do antigo namoro, praticado nas gerações anteriores.
Acho que o “ficar” praticado hoje talvez seja um conhecimento mútuo feito
de contato físico que substitui a antiga paquera, quando os olhares e a
tímida troca de palavras eram capazes de gerar emoções e sensações
avassaladoras. Hoje, os jovens são mais desinibidos e expressam com o
corpo a atração sexual. Talvez haja menos espaço para o romantismo e a
idealização do outro. O fato é que eles têm uma liberdade sexual
impensável nas gerações que os antecederam.
BN - Emilio Rodrigué,
psicanalista argentino por você citado no livro, acredita , como Lacan,
que a fantasia básica do homem é possuir todas as mulheres do mundo,
enquanto que a fantasia básica da mulher é ter o homem ideal para si.
Estamos eternamente condenados à guerra dos sexos?
L.D.P.
- Acho que a frase de Lacan citada por Emilio Rodrigué não expressa a
guerra dos sexos, mas uma prova de que homens e mulheres têm fantasias
diferentes em relação ao amor. Em geral, as mulheres querem o homem amado
para si e procuram mantê-lo debaixo de suas asas. Já os homens, segundo
essa assertiva de Lacan, têm a fantasia de possuir todas as mulheres do
mundo, mesmo aqueles que não cedem ao impulso de correr atrás de todas as
mulheres desejáveis que encontram. Na realidade, segundo Lacan, todo homem
tem um Don Juan adormecido dentro de si.
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