
Webjornal - Mensal - Edição 93 - Aracaju, 17 de setembro
a 15 de outubro de 2006
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Entrevista: Ana Maria Machado Um escritor solar Popular porém vista com reservas pela crítica, a obra de Jorge Amado ganha uma releitura apaixonada Por Paulo Lima
O escritor Jorge Amado foi o homenageado da Festa Literária Internacional de Parati deste ano. Mesas redondas, leituras e até uma performance musical reviveram o romancista baiano, morto em 2001. Alguns suplementos literários deram-lhe um espaço de ocasião, como a revista EntreLivros, que produziu um dossiê sobre o escritor. Como um coroamento dessas efemérides, acaba de ser lançado o livro Romântico, sedutor e anarquista (Ed. Objetiva, 152 p., R$ 27,90), da escritora Ana Maria Machado. O livro é fruto da passagem da escritora pela universidade de Oxford, onde passou um trimestre em 2005 dando um curso graças a um acordo entre aquela instituição inglesa e a Academia Brasileira de Letras. Pelo acordo, a escritora poderia escolher entre Graciliano Ramos, Jorge Amado e Clarice Lispector como objeto de seus seminários e palestras. “Em nome do puro prazer, preferi mergulhar na Bahia de Jorge Amado, já que me dispunha a permanecer um bom tempo em sua companhia”, escreveu a autora. O reencontro com uma “prosa solar e saudável”, descoberta ainda na adolescência, reforçaram sua opção. Escrito com leveza, elegância e discreta erudição, o ensaio desmonta a visão preconceituosa que se formou em torno da obra de Jorge Amado, ainda o nosso escritor mais festejado e mais lido, no Brasil e no exterior. Um a um, os rótulos de racista, repetitivo, desleixado com a linguagem, aplicados pela crítica mais renitente, vão sendo examinados (e contestados) pela autora. Em sua releitura apaixonada, nada escapou a Ana Maria Machado, que em seu esforço se valeu de leituras inovadoras sobre Jorge Amado produzidos por argutos observadores da vida brasileira, como Roberto DaMatta e Affonso Romano de Sant´Anna. Os livros de Jorge Amado atravessaram fases. Nas décadas de 30 e 40 (e parte da de 50), como militante do Partido Comunista Brasileiro, as preocupações políticas do escritor eram o pano de fundo dos seus romances, como O Cavaleiro da Esperança e Subterrâneos da Liberdade. Foi a partir dessa primeira fase que se formou a crítica reducionista que acabaria ressoando pelas décadas afora. Mas a fé que Jorge Amado depositou no comunismo acabou com as revelações dos crimes de Stalin.
O que a releitura de Ana Maria Machado mostra, de forma irrepreensível, é que o percurso de Jorge Amado sofreu uma guinada, uma “mudança de tom”, já a partir de 1958, com a publicação de Gabriela, Cravo e Canela. Nela o baiano abandona a perspectiva única do romance proletário e se dedica ao romance de costumes, em que o mote central passa a ser questões de “gênero e etnia”. De socialista, ele assume uma postura romântico-anarquista. “Para Jorge Amado, o convívio com a cultura popular era parte integral da existência quotidiana”, escreve Ana Maria Machado. E é natural que esse convívio se reflita em sua literatura, pontilhada por uma extensa galeria de personagens iguaizinhos à gente comum, da rua, com seu falar brasileiro. “Foi uma inovação e tanto, pondo em prática o que os modernistas buscavam sem conseguir até então – retratar a língua do povo numa obra literária”, disse Ana Maria Machado nesta entrevista. Com mais de cem livros publicados, Ana Maria Machado é uma escritora super premiada. Entre os prêmios mais importantes que ela conquistou está o Hans Christian Andersen, em 2000, uma espécie de Nobel da literatura infantil mundial. Em 2001 foi a vez do Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, o maior prêmio literário nacional. Em 2003, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 1. Por e-mail, ela concedeu a entrevista que se segue, às vésperas de viajar para Salvador, onde, no Pelourinho, em “pleno território amadiano”, faria o lançamento do novo livro. *** BN – Seu primeiro contato com a obra de Jorge Amado aconteceu na adolescência, e agora a senhora fez essa releitura. O que permaneceu daquele primeiro momento e o que mudou? Ana Maria Machado - Permaneceu o prazer da leitura. Mudou meu amadurecimento, meu espírito crítico. BN - Qual foi a reação dos seus alunos de Oxford diante do universo de Jorge Amado? A.M.M. - No geral, gostaram muito. E como acompanhei o curso com uma série de filmes baseados na obra do Jorge, em sessões que incluíam debates, acabou acontecendo também que as imagens fascinaram os alunos. Alguns ficaram até com vontade de vir ao Brasil – e uma delas chegou mesmo a vir, há dois meses. BN - O sucesso editorial de Jorge Amado desmente o lugar-comum de que no Brasil se lê muito pouco? A.M.M. - De certa forma, sim, mas é preciso levar em conta que o percentual de leitores em relação no numero total de habitantes ainda é baixo. Não é apenas um lugar-comum: infelizmente, ainda é um fato. No Brasil se lê muito pouco. Basta ver as tiragens médias dos livros e seu pouco tempo de vida nas prateleiras das livrarias. BN - As adaptações dos seus romances para o cinema e para a TV ajudaram a atualizar o interesse por sua obra? A.M.M. - Sem dúvida. Não só porque nossa época vive uma cultura visual, mas também porque cada nova releitura acrescenta e dialoga com outras, e isso vivifica a obra. BN - A literatura de Jorge Amado passou por fases. Na sua opinião, qual delas foi a mais importante? Por quê? A.M.M. - Na obra de um artista, cada fase tem também um elemento de continuidade: prolonga aspectos anteriores, anuncia elementos futuros. Não se pode dizer que uma seja mais importante que a outra. Qualquer corte que se queira nítido acaba ficando um tanto artificial. Mas parece-me que o tom humorístico e a complexidade narrativa que ele desenvolve na fase dos romances de costumes (a partir de Gabriela) a tornam mais rica do que a anterior, a dos romances épicos marcados pela disciplina partidária. Mas, mesmo assim, esse primeiro momento nos deu ótimos livros, como Jubiabá, Capitães de Areia, Mar Morto ou Terras do Sem Fim. BN - Imagine que a senhora pudesse ter um contato pessoal com Jorge Amado hoje. Que dúvidas gostaria de esclarecer a respeito do seu processo criativo? Que pergunta não deixaria de fazer? A.M.M. - Nenhuma. A leitura atenta da obra dele me basta para examinar seu processo criativo. Mas se ele estivesse vivo, seríamos colegas na Academia Brasileira de Letras, e, com certeza, falaríamos de tudo e de todos – como acontece lá dentro. E eu ouviria, atenta, as histórias divertidas que ele sempre contou. BN - O sucesso de novos filões editoriais, como os livros de auto-ajuda, indica que hoje é mais difícil haver espaço para propostas como a de Jorge Amado? A.M.M. - Não sei dizer. Do ponto de vista de uma autora, a proposta de um livro não tem nada a ver com filões editoriais de sucesso, então fica difícil avaliar essa questão. Pessoalmente, eu acho que livro bom sempre encontra seu leitor e abre seu espaço. BN - Em entrevista concedida à TV Globo, em 1997, Jorge Amado afirmou que não ficaria para a História. Modéstia? A.M.M. - Sem dúvida. Já ficou. BN - A crítica a Jorge Amado feita pelos cânones literários não é também uma crítica aos personagens do Brasil real, com seus marginais e excluídos? A.M.M. - Talvez seja, também. Mas acho que foi, principalmente, uma crítica à linguagem do Brasil real. E hoje é, antes de mais nada, uma crítica à constatação de que o Brasil é um país mestiço e isso deveria ser motivo de orgulho para todos nós. BN - Seu livro chama a atenção para o fato de que escritores como Jorge Amado, Érico Veríssimo, Vinícius de Morais, Monteiro Lobato e Rubem Braga tiveram um papel fundamental na formação do leitor brasileiro e, no entanto, são tidos como menores. O que poderia ser feito, de fato, para que essa visão fosse revertida? A.M.M. - Ter uma escola pública de qualidade, para que as camadas mais amplas da população chegassem à universidade após fazer bons cursos e ler muito trazendo assim uma visão que rompesse com as leituras oficiais das igrejinhas acadêmicas. BN - Que livro de Jorge Amado a senhora indicaria a um leitor que desejasse se iniciar em sua obra? A.M.M. - Depende do leitor. Mas para os jovens, costumo indicar Capitães de Areia. Para os adultos, valeria que o primeiro contato fosse com Terras do sem Fim. BN - E no seu caso? Que romance do escritor baiano elegeria como o seu favorito? Por quê? A.M.M. - Fico entre dois títulos (na verdade três). O primeiro, Os Velhos Marinheiros, reúne duas novelas que são duas obras-primas: A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua e Capitão de Longo Curso. Muito bem narradas, e divertidíssimas, ambas tratam da duplicidade e das tensões entre o sonho e a realidade. Outro livro que adoro é Tenda dos Milagres, uma celebração da riqueza de nossa cultura mestiça. BN - Em seu livro, vemos que Jorge Amado abandonou aos poucos a visão política tradicional para se assumir como um escritor solar, de posição romântico-anarquista. Afora o fato de ter melhorado como romancista, esse não foi também um ato de coragem? A.M.M. - E muita. Sobretudo, coragem moral. Mas coragem foi algo que nunca faltou a Jorge Amado, tanto no plano existencial quanto no político. BN - Até que ponto a literatura de Jorge Amado pode ser vista como regionalista, e até onde pode ser encarada como universal? A.M.M. - Alguns romances do ciclo do cacau se aproximam bastante do regionalismo. Mas acho que as situações e personagens dele quase sempre apontam essa abertura para o universal. BN - Trabalhando com recursos variados, como o folhetim e o cordel, Jorge Amado não se mostrou um autor preocupado com a inovação da linguagem, preferindo contar uma boa história. Essa ênfase no enredo é uma perspectiva ausente na literatura brasileira atual? A.M.M. - Não necessariamente. Há vários autores com essa ênfase. E na questão da linguagem, vale a pena lembrar que sua principal inovação foi trazer para as páginas literárias o falar popular brasileiro. Hoje, isso ficou tão comum, que nem se nota o tamanho da revolução que representou quando ele o fez. Mas foi uma inovação e tanto, pondo em prática o que os modernistas buscavam sem conseguir até então – retratar a língua do povo numa obra literária. BN - Dado o seu sucesso popular, a obra de Jorge Amado é o que temos de mais próximo de uma literatura verdadeiramente nacional? A.M.M. - Não gosto muito dessas categorias, nem da mistura de sucesso com identidade nacional, nem com a competitividade expressa no termo “mais”. Acho que a literatura verdadeira nacional é uma soma e uma confluência das várias vozes que nos expressam, em nossa rica diversidade. Não creio que se possa concentrar num único autor esse papel. Mas ele é um dos autores significativos nessa constelação, ao lado de nomes que incluem Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e outros. |
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