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Entrevista: Lucas Figueiredo
Um velho mal nacional
A história do operador que abasteceu os cofres do PSDB e do PT não é a
primeira nem, infelizmente, será a última no Brasil
Por Paulo Lima
Foto Divulgação

No
início dos anos 1980, Marcos Valério Fernandes de Souza era um modesto
escriturário do Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge), porém ambição e
determinação não lhe faltavam. Tanto que em breve chegaria a gerente e
membro do seleto Conselho da instituição. Com
o know-how obtido, e depois de uma passagem pelo Banco Central até hoje
envolta em mistério, Marcos Valério se reinventaria e se transformaria no
principal vilão do “mensalão”, o escândalo que revelou o caixa dois do PT
e manchou a reputação do partido que se considerava a
reserva ética da política brasileira.
A
história de Marcos Valério e os bastidores das negociatas que conduziram à
crise é o tema do livro recém-lançado O operador (Editora Record,
252 p., R$ 42,90), de Lucas Figueiredo, repórter especial do jornal
Estado de Minas.
Este é o terceiro
livro do autor, que escreveu ainda Morcegos Negros (2000) e
Ministério do Silêncio (2005). A narrativa inicia com o cenário que levou ao
flagrante de corrupção do diretor dos Correios Maurício Marinho. A partir
daí o leitor é fisgado graças à habilidade do
autor em impor um ritmo quase que de thriller policial a um
imbróglio que tinha tudo para soar bocejante, de tão explorado pela mídia.

A
base do livro é a trajetória sinuosa de Marcos Valério, sua infância
humilde, seus dramas familiares – como a perda de um filho de 2 anos,
golpe do qual ele e a mulher Renilda jamais se recuperaram -, a
tenacidade para vencer na vida, as parcerias oportunistas, o jogo duplo, o enriquecimento meteórico e
por fim o desmascaramento. Mas, para
além do mero foco biográfico, o leitor tem em mãos o relato detalhado de
um dos momentos mais dramáticos da política contemporânea no Brasil.
No
livro Lucas Figueiredo revela, entre outras coisas, a gênese do
valerioduto, na prática uma criação do PSDB mineiro. Quando passou a
operar para o PT, Marcos Valério já conhecia o caminho das pedras.
Valendo-se da sua condição de sócio das agências de publicidade SMP&B e DNA, ele levantou
empréstimos bancários de alto risco para ajudar esses partidos a
transformar dinheiro em voto.
É
vasto o elenco de personagens suspeitosos que se move por essa história,
expondo situações já familiares ao leitor. Neste sentido, nada haveria
de novo no front, não fossem as dimensões dessa tragédia. Afinal, foi
um esquema de caixa dois, embora infinitamente menor, que provocou o
impeachment de Fernando Collor de Melo. “A história do valerioduto
é a continuação da história do esquema PC”, afirma Lucas Figueiredo.
“Enquanto o país não atacar os grandes corruptores, a corrupção será um
dos grandes males nacionais”, disse ele na entrevista que se segue,
concedida por e-mail.
***
BN - Você teve retorno
dos personagens citados no livro, após sua publicação?
Lucas Figueiredo
- Sei que o livro incomodou muita gente, recebi várias mensagens. O
engraçado é que os personagens se acusam mutuamente, achando que um deu
informações sobre o outro. Um deles me procurou para “queimar” um antigo
desafeto, também personagem do livro.
BN - Como foi o
processo de levantamento das informações sobre Marcos Valério? Você
manteve contato pessoal com ele?
L.F.
- Durante meses, tentei falar com Marcos Valério, mas ele se recusou a
falar. Ele tomou a decisão de não contar o que sabe e, assim, assumir
sozinho a posição de vilão da história. Uma pena! Mas falei com muita
gente do entorno dele, aproximadamente umas 30 pessoas, que contaram
muitos segredos.
BN - Que obstáculos
você enfrentou para realizar esse novo trabalho?
L.F.
- Fazer com que as pessoas falassem. Algumas fontes só toparam falar
depois de cinco ou seis encontros. A turma tem muito medo.
BN - A história do
valerioduto apresenta ainda pontos obscuros, entre eles o verdadeiro
papel da ex-secretária da SMP&B, Fernanda Karina Sommagio. Ela foi apenas
uma empregada astuta na questão?
L.F.
- Durante algum tempo, Marcos Valério acreditou que ela tivesse sido uma
espiã “plantada” na SMP&B ou uma informante “colhida”. A PF chegou a
investigar essa possibilidade, mas nada foi provado. Agora, que é estranho
ela saber de tantas coisas, isso é.
BN - Qual foi de fato o
papel da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) nessa crise do “mensalão”?
L.F.
- Um ex-araponga da Abin, que mantinha laços com a direção da Abin,
participou da operação que produziu o vídeo em que um funcionário dos
Correios, Maurício Marinho, aparece recebendo uma propina de R$ 3 mil. Na
mesma época, a Abin estava investigando os Correios. Coincidência demais,
não acha?
BN - Após a eclosão da
crise, uma dúvida jamais foi esclarecida, se o presidente Lula sabia ou
não de todo o imbróglio. Qual a sua opinião?
L.F.
- Ele podia não saber do varejo, mas é impossível ignorar o atacado. É
difícil imaginar que as bandas podre do PTB, do PL e do PP davam seus
votos para o governo no Congresso a troco de nada. Lula até podia não
saber como a base aliada era corrompida, mas, que sabia que ela era
corrompida, isso sabia.
BN - O fato de Marcos
Valério operar impunemente, por tanto tempo, significa mais habilidade da
parte dele, ou falta de rigidez nos controles das autoridades monetárias?
L.F.
- Há centenas de Marcos Valério operando, ele não é um ser especial. A
corrupção grassa no Brasil, e isso não nasceu com o PT nem com Marcos
Valério. O país parece estar anestesiado, pois, ano após ano, os
escândalos se repetem e nada muda.
BN - Que análise você
faz do papel da imprensa na cobertura desse escândalo?
L.F.
- Com honrosas exceções, a imprensa ignorou que o PSDB “inventou” o
valerioduto. Foram os tucanos que armaram o sistema de caixa dois de
campanha eleitoral e desvio de dinheiro por meio da SMP&B. Foram os
tucanos que “inventaram” os estranhos empréstimos do Banco Rural para
encobrir o caixa dois. Foram os tucanos que pinçaram um ex-bancário muito
criativo, chamado Marcos Valério, para gerir o esquema. Quando Marcos
Valério começou a operar para os tucanos, ele não era rico. Nos cinco anos
em que operou para o PSDB, o patrimônio visível de Valério aumentou de R$
230 mil para R$ 3,8 milhões, um acréscimo de mais de 1.500%. Isso a
imprensa nunca disse.
BN - Num dos capítulos,
você mostra que as CPIs criadas para investigar os fatos deixaram muitas
perguntas sem respostas. Você acredita que essas questões ainda possam ser
respondidas, ou irá prevalecer o jogo do poder?
L.F.
- O Brasil é um país que vive sem heróis, mas não vive sem vilões. Como
aconteceu antes com PC Farias, Marcos Valério saiu como o grande vilão da
história, a fim de que os grandes corruptores (os mesmos, aliás, da época
de PC) continuassem freqüentando as colunas sociais e sendo chamados de
doutor. Valério e PC foram meros bois de piranha.
BN - Que paralelos você
nota entre o caso de Marcos Valério e o de PC Farias, alvo do seu livro
Morcegos Negros?
L.F.
- A história do valerioduto é a continuação da história do esquema
PC: grandes corruptores dando dinheiro para os bem-posicionados no poder a
fim de conseguir benesses do Estado. A novidade é que o PT, outrora
bastião da ética na política, chafurdou com gosto na lama da corrupção.
BN - Por causa da
investigação sobre PC Farias, você foi alvo de processo movido por um juiz
de Alagoas. Que precauções tomou para evitar que a situação se repita
nessa empreitada sobre Marcos Valério?
L.F.
- Para fazer uma denúncia, sempre é preciso estar munido de provas, e isso
eu estou. No caso de Alagoas, fui vítima de um processo kafkiano movido
por um juiz, no qual não consegui me defender. Um documento protocolado
por mim no Tribunal de Justiça de Alagoas simplesmente desapareceu do
processo. E uma decisão do mesmo tribunal tomada contra mim foi publicada
de forma errada, fazendo com que eu não tomasse conhecimento da mesma.
Conclusão: enquanto nenhum dos corruptores do caso PC foi condenado, eu
fui.
BN - Por ter sido
lançado às vésperas da eleição presidencial, você teve receio de que seu
trabalho pudesse utilizado com fins partidários?
L.F.
- Meu objetivo é deixar um registro para a História. Ou seja, daqui a
cinco, dez, cinqüenta anos, alguém que ler o livro saberá o que aconteceu.
Não acho que um livro tenha força para interferir numa eleição, nem era
esse meu objetivo.
BN - Suponha que
Roberto Jefferson jamais tivesse aberto a boca, e Fernanda Karina Sommagio
não tivesse entrado na história. O projeto de permanecer 20 anos no poder
do PT poderia se viabilizar?
L.F.
- Acho que não. O PT estava tirando dinheiro da elite financeira que
sempre criticara para corromper a elite política que sempre combatera. E o
esquema que utilizava tinha sido “inventado” pelo PSDB, um adversário
mortal do PT. Óbvio que um dia a casa ia cair, só o PT não via isso.
BN - Há lições a serem
extraídas de uma crise tão grandiosa? O País pode estar mais imune ao
surgimento de novos Marcos Valério?
L.F.
- O problema não são os Marcos Valério. Eles são peixe pequeno. O
verdadeiro problema são os grandes corruptores. Enquanto o país não atacar
os grandes corruptores, a corrupção será um dos grandes males nacionais.
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