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Entrevista: Michel Laub
Futebol e afeto
Romance utiliza o Gre-Nal de 1989, a famosa final do esporte gaúcho, como
pano de fundo para falar de sentimentos
Por Paulo Lima
Foto Lucila Wroblewski

Em seu novo romance O segundo tempo (Companhia
das Letras), o escritor e jornalista gaúcho Michel Laub, 33 anos, volta a
esmiuçar o universo da infância e da adolescência. Jovens em pleno
processo de descoberta e transição ocuparam seu livro anterior, Longe
da água. No entanto, nesse novo livro os dramas familiares acontecem à
sombra de uma tragédia do futebol: o Gre-Nal de 1989. Naquele ano, Grêmio
e Internacional realizaram aquela que é considerada a decisão mais
importante do esporte no Rio Grande do Sul.
É a
partir das reminiscências desse clássico esportivo que a narrativa breve,
porém densa, se constrói. Nela, um jovem de 15 anos vive um rito de
passagem. Preso a uma rede de afetos em uma família prestes a se
desagregar, ele é levado a tomar uma decisão drástica: optar por proteger
seu irmão de 11 anos dessa terrível verdade, ou tomar o partido dos pais,
que estão se separando.
A
história se passa em Porto Alegre, cidade onde Michel Laub nasceu e é
igualmente cenário do seu romance anterior. Mas o que poderia ser
considerado como autobiográfico, não passa, na realidade, de uma técnica.
A estratégia de Michel Laub, de se apropriar das próprias lembranças e
sensações e dissolvê-las - ou transformá-las - num relato ficcional, é bem
sucedida. O segundo tempo captura facilmente o leitor, com sua
alternância entre a paixão do futebol e as convulsões de um relacionamento
familiar, um se confundindo com o outro, o clímax do Gre-Nal do Século
servindo de ante-sala à revelação final do livro, e vice-versa.
Ex-editor-chefe e ex-diretor de redação da revista Bravo!, Michel
Laub é coordenador da área de publicações e cursos do Instituto Moreira
Salles e colaborador da revista EntreLivros. Em sua dupla lide de
escritor e jornalista, ele distingue semelhanças entre uma atividade
e outra, mas acentua uma enorme diferença: "A ficção flerta com a
ambigüidade, com o incompleto, enquanto o jornalismo pretende sempre dar
respostas (e, na maioria das vezes, falha...)", disse nesta entrevista
concedida por e-mail.
***
BN - Nesse novo
romance, um fato da infância determina o destino dos personagens, tal como
aconteceu em Longe da água, seu livro anterior. Por que voltar
sempre à infância?

Michel Laub
- A infância e a adolescência são as fases em que você vive os sentimentos
de forma mais intensa, porque é a primeira vez que se está passando por
aquilo. Você ainda não tem noção de que sobreviverá, como alguém adulto
sempre tem. No caso de O segundo tempo, o drama do livro só
funcionaria com personagens desta fase etária (principalmente o irmão do
narrador, que tem 11 anos). Para alguém mais velho, aquilo tudo talvez
soasse um pouco banal.
BN - Mais uma vez Porto
Alegre é o cenário de um livro seu. São Paulo, onde você mora há algum
tempo, não o inspira, ou as origens do escritor representarão sempre a sua
geografia sentimental?
M.L.
- No caso de O segundo tempo, não havia como fugir disso, até
porque o livro é muito baseado na relação com o futebol – e futebol, para
mim, está diretamente ligado à minha experiência pessoal como torcedor do
Grêmio. Eu até poderia tentar escrever sobre um personagem palmeirense ou
coisa assim, mas seria fácil cair em algo artificial. Eu não teria aquela
memória dos detalhes e sensações de época que, mais do que os fatos
históricos sobre derrotas e vitórias, são a essência da experiência de um
torcedor.
BN - Foi mais fácil ou
mais difícil escrever esse terceiro romance? Em termos da narrativa, como
você o analisa em relação aos anteriores?
M.L.
- Mais fácil. Foi o livro mais planejado, até porque foi o único com
projeto anterior seguido de forma mais ou menos fiel – eu o escrevi com
uma bolsa da Fundação Vitae, com prazo para terminar etc. Mas também tem
algo de sorte aí: o fato de eu ter conseguido seguir este planejamento. O
Longe da água também tinha um plano inicial, mas ele englobava
outra forma, outra história, que acabou não funcionando. E aí eu tive um
trabalhão para refazer todo o livro, que virou uma coisa totalmente
diferente.
BN - O livro pode ser
lido ou como a história de um conflito familiar, ou como um rito de
passagem de um menino de 15 anos, ou como uma história de perdas ou
conquistas afetivas. Qual dessas interpretações o agrada mais?
M.L.
- As três estão corretas. Pessoalmente, gosto de pensar que o futebol não
está no livro por acaso – que, de alguma forma, também é o centro do
romance. Então o livro falaria da relação entre o futebol e os sentimentos
do “mundo real”.
BN - O narrador
principal deixa Porto Alegre e vai para São Paulo, onde estuda jornalismo.
Até que ponto você se permite mesclar a ficção com elementos
autobiográficos?
M.L.
- Há uma brincadeira aí: como o Longe da água foi considerado
autobiográfico por muita gente, achei interessante acrescentar ao
Segundo tempo alguns dados que poderiam causar alguma confusão neste
sentido. Eu novamente ponho lá uma menção à praia de Albatroz, por
exemplo, que é um lugar onde eu devo ter estado uma ou duas vezes na vida,
apenas de passagem. E o personagem morar em São Paulo na época em que
narra também era um elemento de Longe da água. Enfim, são passagens
que eu poderia ter mudado sem nenhum problema, mas achei divertido
insistir nessa ambigüidade com a vida real. Fica meio contraditório: ambos
os livros têm protagonistas com a mesma idade, morando no mesmo lugar, mas
com experiências de vida bem diversas. Se o leitor continua achando que os
dois são autobiografias, é sinal de que ambas as narrativas funcionam num
nível elementar de convencimento, o que é bom.
BN - Por que o Gre-Nal
de 1989, o futebol, como contraponto para os dramas afetivos descritos no
livro?
M.L.
- Eu queria aproveitar algum evento real do futebol, não inventar um jogo
ou algo assim, porque achei que daria um elemento a mais de interesse para
o livro (o leitor que tem familiaridade com aquele universo lembra dos
detalhes da época etc.). Nesse sentido, como a escolha teria de recair
sobre algum jogo que simbolizasse uma decepção, o Gre-Nal do século acabou
sendo um candidato natural. Na minha vida de torcedor, mais até do que a
Copa de 1982, este deve ter sido o momento mais trágico.
BN - Você também
acredita que hoje o futebol está morto, como afirma o personagem principal
no início do livro?
M.L.
- Não, até porque continuo acompanhando. Mas sem a intensidade de antes,
claro. Quando eu tinha lá os meus 12 ou 13 anos, ainda mais naquela época,
em que não havia tantas opções de lazer como hoje, o futebol ocupava um
espaço realmente central na vida. Esta frase do livro não se refere só ao
futebol, claro: o personagem está falando dos sentimentos dele também.
BN - Você utiliza como
epígrafe uma frase de Hanif Kureishi, retirada do seu romance
Intimidade, que trata do drama de uma separação. Kureishi foi uma
inspiração, ou a frase apenas justifica a decisão final do personagem
principal de O segundo tempo?
M.L.
- Esta frase eu encontrei quando já estava terminando o livro. Achei
perfeita não só pelo conteúdo, mas porque ambos os livros têm alguma
relação: ambos se passam num curto período de tempo (o dia do jogo, uma
noite no caso de Intimidade) e são narrados por personagens prestes
a abandonar sua família. E, no fim das contas, o Kureishi fala da traição
como algo que pode ser positivo, e esta visão eu acho muito interessante.
No Segundo tempo, é a traição aos pais que permite ao protagonista
ajeitar a vida do irmão e ir em frente.
BN - Você foi editor da
Bravo! por oito anos, e hoje atua no Instituto Moreira Salles. Por
que deixou a revista?
M.L.
- Meu ciclo na Bravo! se encerrou sem mágoas, tanto que até hoje
tenho boas relações com o pessoal de lá. A revista mudou de editora e
precisava se reciclar para ser viável comercialmente. Eu preferi não
participar desta nova etapa, e acho que foi bom tanto para mim quanto para
eles.
BN - Além do seu
trabalho no Instituto Moreira Salles, você escreve para a revista
Entrelivros. De que forma a atividade jornalística se reflete no seu
trabalho de escritor?
M.L.
- O jornalismo e a ficção trabalham com ferramentas semelhantes: a
linguagem, os recursos narrativos. Escrever uma matéria é contar uma
história, basicamente. Agora, isto se dá num nível mais formal. Em
essência, são coisas completamente diferentes. Na ficção eu me dou ao luxo
de ser meio obscuro, por exemplo, o que no jornalismo seria um defeito
grave. A ficção flerta com a ambigüidade, com o incompleto, enquanto o
jornalismo pretende sempre dar respostas (e, na maioria das vezes,
falha...).
BN - O título do seu
livro tanto pode se referir ao desfecho do Gre-Nal do Século, como pode
ser uma alusão à decisão do menino de 15 anos da história de partir para
uma nova etapa de vida. Podemos dizer que seu livro traz uma história de
superação, de otimismo?
M.L.
- Sim, acho que o final aponta para isso, embora o tom melancólico. A
relação dele com a família se esfacelou, mas os sentimentos em relação ao
irmão sobreviveram. Falar de sentimentos que resistiram ao tempo é uma
forma de otimismo, acho eu.
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