
Webjornal - Mensal - Edição 96 - Aracaju, 10
de dezembro de
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Entrevista: Ricardo Kotscho Vida de repórter Nas memórias de Ricardo Kotscho, reunidas em livro, o retrato das transformações do jornalismo no Brasil nos últimos 40 anos Por Paulo Lima
Numa idade
em que muitos pares da profissão já penduraram as chuteiras, o repórter
Ricardo Kotscho, 58 anos, continua perseguindo a notícia. Ele parece encarnar
à perfeição a boutade de outro
grande repórter, Joel Silveira, que um dia escreveu: “Como todo ser
perecível, o jornalista envelhece. O repórter, nunca”. Prova da incansável
atividade desse paulistano descendente de alemães é o tempo que esta
entrevista levou para ser realizada: algo em torno de dois meses. Os e-mails
encaminhados a Ricardo Kotscho sempre o encontravam
no azáfama entre a chegada e a partida para algum lugar. Como resposta, um
gentil pedido de desculpas e a promessa de que a entrevista seria concedida
mais adiante, quando ele estivesse com sua agenda um pouco mais desafogada.
Até que, por fim, uma data xis foi combinada para o envio das respostas.
Batata: o deadline foi
britanicamente cumprido. Suas
memórias reunidas no livro recém-lançado Do
golpe ao planalto – uma vida de repórter oferecem não apenas um importante
painel dos últimos 40 anos do jornalismo no Brasil e suas vertiginosas
transformações. Os ensinamentos do calejado repórter valem por uma
universidade, tamanha a dimensão da experiência de quem nasceu com o
jornalismo gravado no DNA. “Continuo fazendo o trabalho do mesmo jeito de
quando comecei - sem rotina nenhuma, sempre tentando descobrir temas novos,
personagens inéditos na imprensa, lugares onde nunca um repórter foi antes”,
disse. Apesar da
invejável trajetória, Ricardo Kotscho exibe modéstia:
“A nossa obra está sempre incompleta porque a melhor matéria é sempre a
próxima”. Como repórter, assinou reportagens antológicas, como a que revelou
a existência dos marajás do governo militar, numa época em que expor a
verdade no Brasil representava risco de vida. Mas é a busca incessante pela
próxima história que o impulsionou a apostar num novo projeto, revelado nesta
entrevista: a criação da revista “Brasileiros”, com previsão de lançamento
para o próximo ano. Essa nova
empreitada “tratará exatamente de pessoas e lugares que não estão na mídia”. Tendo
deixado seu cargo de secretário de imprensa no governo Lula antes do furacão
da crise política, havia uma expectativa de que Ricardo Kotscho
oferecesse informações inéditas sobre o assunto em suas memórias. “Quem
comprou o livro esperando encontrar bastidores, futricas, fofocas,
maledicências, essas coisas tão valorizadas na nossa imprensa hoje, claro que
ficou frustrado, e criticou o livro”. Na condição de amigo pessoal do
presidente Lula, ele sofreu com as revelações do mensalão,
mas não perdeu a fé nem na política, nem na profissão que tanto tem honrado.
“Apesar de todos os problemas que enfrentamos para ver nosso trabalho
impresso ou colocado no ar, essa é a melhor profissão do mundo”. A seguir, a
entrevista: *** BN - Em artigo recente para a
revista eletrônica NoMinimo, você reclamou das
peças que a memória lhe pregou, depois que o livro já estava publicado. Houve
algum fato que você gostaria de ter aprofundado mais e, por algum motivo, não
o fez? Ricardo Kotscho - O problema de escrever um
livro de memórias é que o autor geralmente já está numa idade meio avançada,
quando a memória não ajuda muito. Restam apenas vagas lembranças... De outro
lado, quando somos jovens, e a memória ainda é muito boa, não temos tantas
histórias para contar. É sempre um desafio de alto risco escrever esse tipo
de livro. Porque cada um de nós guarda sua própria versão dos fatos
ocorridos, geralmente diversa de pessoas que viveram no mesmo período os
mesmos episódios. Antes de começar a escrever o livro, durante um jantar com
amigos contemporâneos dos meus primeiros tempos na grande imprensa, procurei
ajuda para relembrar alguns fatos. Mas eles acabaram discutindo entre eles,
um chamando o outro de gagá porque as lembranças nunca batiam. Então, já que
não daria para colocar no livro a versão de cada um, resolvi contar a minha
própria história do jeito que a lembrava. Pelo número de pessoas citadas, as
queixas até que foram bem poucas. Dezenas de fatos eu gostaria de ter
aprofundado mais, além de só me lembrar de muitos outros depois do lançamento
do livro - histórias suficientes para escrever outro livro. Assim mesmo, tive
que cortar umas cem páginas, a pedido do editor, porque o livro estava
ficando muito grande e, portanto, custaria caro demais. BN - Escrever as memórias lhe
deu um sentimento de plenitude ou de que a sua obra pessoal ainda ficou
incompleta? R.K. - Nada que tenha sido realmente
relevante na minha vida ficou de fora do livro. Claro que algumas passagens
foram mais sofridas na hora de escrever. Tomei muito cuidado para não magoar
ninguém, não queria que o livro fosse um acerto de contas. Dentro do
humanamente possível, procurei ser fiel ao mesmo tempo aos fatos e aos seus
protagonistas. Repórter dificilmente tem um sentimento de plenitude com seu
trabalho, qualquer que seja. Sempre que a gente lê o que escreveu publicado
no dia seguinte acha que a história poderia ter sido melhor contada. A nossa
obra está sempre incompleta porque a melhor matéria é sempre a próxima. No
dia em que não for mais assim, é melhor pendurar as chuteiras. BN - Algumas resenhas do seu
livro carregaram na crítica de que você optou por preservar a amizade com
Lula. Como você responde a essas críticas? R.K. - Criou-se uma falsa expectativa
de que o livro conteria grandes revelações sobre o governo Lula. Eu sempre
falei que não se tratava de um livro sobre o governo, o presidente Lula, o
PT, mas não adiantou. Não é um depoimento de um mordomo do palácio que
resolve contar suas intimidades. Quem comprou o livro esperando encontrar
bastidores, futricas, fofocas, maledicências, essas coisas tão valorizadas na
nossa imprensa hoje, claro que ficou frustrado, e criticou o livro. Alguns
poucos resenhistas criticaram não o livro que
escrevi, mas o livro que gostariam de ter lido e, como não o encontraram,
criaram a sua própria versão. Pouco importa o que você escreve: cada um faz a
leitura que quer, de acordo com suas preferências e interesses. Mas,
definitivamente, este não é um livro político nem sobre políticos: é um livro
jornalístico, uma reportagem que conta a vida brasileira das últimas quatro
décadas a partir das redações onde trabalhei no período. BN - Seu livro é um retrato das
transformações que o jornalismo no Brasil sofreu nas últimas décadas. Você
sente saudade dos velhos tempos? R.K. - Para não sofrer à toa, a
gente só deve sentir saudades daquilo que ainda existe. Redações como aquelas
em que trabalhei simplesmente desapareceram. A grande diferença é que antes o
jornalismo era um trabalho coletivo movido por alguns ideais comuns,
trabalhava-se com prazer e paixão. Hoje é um trabalho como outro qualquer,
cada vez mais individualista, silencioso, sem qualquer resquício de idealismo
ou de compromisso com o seu país, o seu tempo e a sua gente. A ordem é
faturar, brilhar, competir, e isso vale tanto para o profissional como para a
empresa. BN - Você algum dia chegou a
imaginar que o jornalismo passaria por modificações tão drásticas? R.K. - Jamais poderia imaginar que um
dia nossos grandes jornais deixassem de cobrir o Brasil - os muitos países
que aqui coabitam - para limitar seu trabalho de cobertura praticamente ao
eixo São Paulo-Rio-Brasília, e assim mesmo quase
somente aos gabinetes. Na Amazônia, por exemplo, sempre que vou lá encontro
com mais jornalistas estrangeiros do que com brasileiros, que agora fazem a
cobertura dos conflitos de terra na região por telefone. Aliás, costumo dizer
que se cortarem os fios de telefone das redações no dia seguinte não sai
jornal. Acabaram com as redes de sucursais e correspondentes que todos os
grandes jornais e revistas tinham. Só a Rede Globo, com suas afiliadas, ainda
é capaz de fazer uma cobertura verdadeiramente nacional no dia a dia, sem ter
que mandar enviados especiais quando cai um avião ou acontece alguma outra
desgraça. Reportagem virou artigo de luxo, cada vez mais raro. Resultado: vem
caindo a circulação dos nossos principais veículos de mídia impressa. A
reboque da internet e da mídia eletrônica, jornais e revistas deixaram de ser
um artigo de primeira necessidade. Apesar de todo avanço tecnológico, parecem
cada vez mais trazer notícias velhas com gosto de pão amanhecido. BN - Para muitos escritores e jornalistas,
o ato de escrever é um sofrimento. Para você, como é que funciona? R.K. - Depende do dia. Se você tem
uma história boa para contar e está com a cabeça legal, é um prazer. Quando
você tem que escrever sob pressão duas ou três matérias por dia, sem tempo
para fazer uma apuração decente, como costuma acontecer hoje em dia, claro
que é um sofrimento. Não me lembro mais quem disse que jornalista gosta mesmo
é de ler a matéria depois de publicada porque sofre muito para escrevê-la. BN - Qual a sua receita para uma
boa reportagem? R.K. - Não tem receita - e essa é a melhor receita. Cada
reportagem tem que ter um tratamento absolutamente original. Nós temos que
partir do zero para contar uma história que nunca foi escrita antes daquele
jeito. Devemos nos livrar de qualquer idéia pré-concebida sobre o
assunto - ao contrário do que acontece
hoje, quando os repórteres geralmente já saem da redação com uma tese na
cabeça para caçar algumas aspas que a confirmem. BN - Você escreveu que no início
da profissão adorava a falta de rotina, a enorme variedade de temas. Hoje
esses fatores ainda o motivam? Surgiram outros? R.K. - Posso dizer que sou um
sujeito de sorte. Já rodei por quase todos os principais veículos da mídia
brasileira, tanto a impressa como a eletrônica, e até hoje continuo fazendo o
trabalho do mesmo jeito de quando comecei - sem rotina nenhuma, sempre
tentando descobrir temas novos, personagens inéditos na imprensa, lugares
onde nunca um repórter foi antes. Em outras palavras, fazendo a minha própria
pauta. É isso que me motiva a continuar parecendo um foca cada vez que saio
para fazer uma reportagem, 42 anos depois de ter escrito a primeira matéria. BN - Gabriel García Márquez
escreveu, num texto muito conhecido, que o jornalismo é a melhor profissão do
mundo. Você concorda com ele? R.K. - Juro que não sabia que essa
frase era do mestre Gabriel Garcia Márquez, embora sempre tenha procurado ler
tudo o que ele escreve. Em todas as palestras que faço termino dizendo
exatamente isso: apesar de todos os problemas que enfrentamos para ver nosso
trabalho impresso ou colocado no ar, essa é a melhor profissão do mundo. O
José Hamilton Ribeiro, outro mestre da minha geração, costuma citar um
jornalista italiano, cujo nome ele não lembra, que dizia mais ou menos isso:
“Ser jornalista é difícil, mas ter que trabalhar em qualquer outra coisa é
muito pior...”. BN - No livro, você escreveu que
“o sonho de todo jornalista é fazer um jornal novo”. Suponha que você teria
essa oportunidade. Como seria esse jornal? R.K. - Olha só que coincidência:
nesse exato momento, junto com dois colegas (Hélio Campos Mello e Nirlando Beirão), que têm a mesma idade e tempo de
serviço do que eu, estou trabalhando no projeto de uma revista mensal de
reportagem, inspirada na antiga “Realidade”, a melhor publicação que a
imprensa brasileira já produziu. Vai se chamar “Brasileiros” e tratará
exatamente de pessoas e lugares que não estão na mídia. Deve sair no início
do próximo ano. Em vez de ficar reclamando da vida e dos salários, carpindo a
saudade dos “velhos tempos”, resolvemos fazer como o Mino Carta: vamos criar
nossos próprios empregos. BN - Em suas memórias, você não
esconde o desapontamento com o jogo do poder. Neste sentido, a experiência de
secretário de imprensa foi mais decisiva que a de repórter? R.K. - São experiências bem
diferentes, embora ambas nos ensinem a entender melhor não só o funcionamento
do poder no país, mas também os nossos limites tanto como funcionários do
governo quanto como jornalistas. No livro falo um pouco sobre esse difícil
relacionamento do governo com a imprensa porque são duas instituições de
naturezas diferentes, com tempos e interesses diferentes. Aos que me
perguntavam como estava minha vida em Brasília costumava dizer que só tinha
dois problemas no meu trabalho: a imprensa e o governo. Como ficava no meio,
tentando conciliar as partes, acabava tomando tiros dos dois lados. Para
alguns jornalistas, esse negócio de quarto poder é pouco - eles se imaginam o
primeiro poder, primeiro e único, com direito a denunciar, julgar e condenar
qualquer membro ou ação do governo. Se alguém do governo reclama, é porque
quer acabar com a liberdade de imprensa. Espero sinceramente que no segundo
governo do presidente Lula haja um desarmamento dos espíritos - pelo menos
dos espíritos... - para acabar com esse clima de crise permanente em que
vivemos no último ano e meio, sempre a meio passo do fim do mundo. BN - Traduzindo o choque
provocado pelas notícias sobre o mensalão, você
escreveu que se sentia “como alguém que havia entrado numa montanha-russa
muito tempo atrás e, ao descer, já não soubesse onde estava”. Você consegue
manter o otimismo quanto ao futuro político do País? R.K. - Consigo. Assim como continuo
achando o jornalismo a melhor profissão do mundo, apesar de tudo, também
continuo achando o Brasil o melhor lugar do mundo para se viver e trabalhar,
apesar de tudo. Por isso, digo sempre nas palestras aos estudantes de
jornalismo que é muito bom ser repórter no Brasil porque aqui ainda está
quase tudo por se fazer e tem muita história para contar, ao contrário de
outros países mais ricos e com menos problemas, onde tudo já foi feito e
contado. Para mim, nascer no Brasil e ganhar a vida como repórter foi uma
benção que agradeço a Deus todos os dias. Não quero outra vida. BN - Se fosse definir o repórter
Ricardo Kotscho numa palavra, qual seria? R.K. - Um velho sonhador que nunca tirou os pés do chão. |
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