Webjornal - Mensal  - Edição 97 - Aracaju, 07 de janeiro a 04 de fevereiro de 2007
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Entrevista: Fernando Cárdenas

A imprensa contra a corrupção

Coragem e no ofício levaram jornalistas de sete países latino-americanos a investigar e derrubar os seus presidentes corruptos

Por Paulo Lima
Foto Divulgação

Na última década, oito presidentes latino-americanos tiveram seus mandatos interrompidos por práticas de corrupção e abuso de poder. Por trás dessa façanha está a ação destemida da imprensa que assumiu o risco de investigar e denunciar as práticas ilícitas desses governantes. Os bastidores dessas investigações estão contados no livro Los watergates latinos, dos jornalistas Fernando Cárdenas (chileno) e Jorge González (colombiano), recém-lançado na Colômbia pelas Ediciones B e ainda inédito no Brasil.

Uma antologia que pode ser lida no ritmo de um bom romance policial, a obra revive os passos percorridos pelos jornalistas e expõe as ameaças, pressões e atentados que eles sofreram. O Watergate americano forneceu a inspiração para a pesquisa. “Nos perguntávamos se não havia na América Latina casos dignos de destacar neste ofício, de olhar para nós mesmos e destacar o trabalho jornalístico que é feito em nossos países”, disse Fernando Cárdenas.

Os autores ouviram cerca de 120 pessoas, entre jornalistas, editores e donos de jornais. De um esforço de equipe saíram as reportagens que revelaram os crimes dos ex-presidentes Carlos Salinas de Gortari, no México; Arnoldo Alemán, na Nicarágua; Rafael Angel Calderón e Miguel Angel Rodríguez, na Costa Rica; Lúcio Gutiérrez, no Equador; Carlos Andrés Pérez, na Venezuela; Alberto Fujimori, no Peru; e Carlos Menem, na Argentina.

A lista disponível era bem mais ampla e incluía desaparecimentos, perseguições e mortes de opositores, mas os autores decidiram abordar os casos mais interessantes e conhecidos. Do livro ficou de fora o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo. Segundo Fernando Cárdenas, o caso brasileironão obedeceu a um exercício de jornalismo investigativo de qualidade, porém a infiltrações e a uma entrevista”.

Jornalista e professor universitáriomais de 12 anos, Fernando Cárdenas atua nos jornais El Mercúrio, de Santiago do Chile, ABC, de Madri e La Nación, da Costa Rica. Colabora com as revista Cambio e Gatopardo, do México, e Rolling Stones, dos Estados Unidos. De Bogotá ele concedeu por email a entrevista que se segue.

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BN - A contribuição da imprensa para a queda dos governos corruptos retratados no livro é uma prova de maturidade do jornalismo investigativo latino-americano?
Fernando Cárdenas -
Mais que isso, reafirma a capacidade dos governantes de plantão em saquear os cofres públicos e que, quando a imprensa se arrisca a investigar esses fatos obscuros, há resultados contundentes para o jornalismo.
Lamentavelmente, os
capítulos do livro são exceções a uma regra que impera no continente: a mídia prefere se dedicar a um jornalismo rosa, marrom e não se aprofundar em temas espinhosos, ou andar de mãos dadas com o poder político ou econômico.

BN - O Watergate americano foi uma inspiração para gerações de jornalistas. Foi o que também motivou vocês a se dedicarem ao tema dos watergates latinos?
F.C. - O
jornalismo da região sempre olhou para o norte, para copiar exemplos. Então, nos perguntávamos se não havia na América Latina casos dignos de destacar neste ofício, de olhar para nós mesmos e destacar o trabalho jornalístico que é feito em nossos países. E os encontramos? investigamos por mais de um ano e pudemos compilá-los nesta antologia de crônicas.

BN - Como o livro foi recebido nos países em que ocorreram as investigações? Houve reação de algum desses ex-presidentes?
F.C. - O
livro tem tido uma grande acolhida em quase todos os países do continente. Ao viajar nesta etapa de divulgação, vimos que se tem transformado numa obra de consulta indispensável nas faculdades de jornalismo e de assuntos latino-americanos. De todos os ex-presidentes, os dois ex-mandatários costa-riquenhos resenhados no livro acusaram recebimento e solicitaram publicamente retificações de várias partes, porém não o fizemos porque cada parágrafo do livro tem ao menos um apoio em provas.

BN - Quantos jornalistas foram ouvidos ao todo para o livro? Como reagiram ao convite para contar suas histórias?
F.C. - Nesse
périplo que emprendemos pelo continente conseguimos entrevistar mais de 120 jornalistas, editores e donos de veículos. Em geral,  eles forneceram a matéria-prima mais importante para o livro: são os protagonistas. Em alguns casos houve também temor e zelo pofissional, que temiam por suas vidas ou queriam proteger suasgargantas profundas”. Foi que batemos em portas judiciais, de analistas ou do próprio Estado.

BN - É impressionante o número de chefes de estado envolvidos em irregularidades no breve espaço de pouco mais de uma década. A corrupção é o grande mal do nosso continente? Os casos dos oito presidentes são uma regra ou uma exceção?
F.C. -
Quando nos sentamos para discutir quais presidentes seriam resenhados no livro, a lista era maior e oferecia muitos matizes que abrangiam não apenas a corrupção, mas incluíam temas como desaparecimentos, perseguições e mortes de opositores. Lamentavelmente a queda de presidentes corruptos é um mal generalizado que vai desde o Rio Bravo até a Patagônia, e do qual nenhum país está excluído.

BN - Em qual país a imprensa se mostrou mais preparada para o exercício do jornalismo investigativo, entre os casos observados? Por quê?
F.C. -
Embora, em geral, as equipes investigativas dos jornais tenham como fator comum a improvisação e a “malícia indígena”, no capítulo peruano se uma imprensa valente e destemida que desafiou um regime como o de Fujimori e Montesinos [assessor do presidenteperuano]. Embora com menos recursos e num país onde o poder funciona sob o capricho de poucos, a imprensa da Costa Rica fez um papel exemplar ao investigar e provocar a queda em cascata de Rafael Ángel Calderón e Miguel Ángel Rodríguez, que se encontrava em Washington conduzindo os destinos da OEA [Organização dos EstadosAmericanos].

BN - De todos as situações delituosas, qual mais o impressionou? Por quê?
F.C. - Há muitas
revelações importantes, porém ressalto país mais pobre em nossa antologia, a Nicarágua. Me surpreendeu que um presidente em exercício destinasse recursos internacionais, de socorro ao desastre do furacão Mitch, para estradas particulares que levavam a suas mansões, ou desviasse dinheiro para contas privadas no Panamá, em vez de ajudar a milhares de vítimas. Isso é um crime.

BN - Entre as investigações mostradas no livro, qual foi a mais emblemática de um esforço investigativo? Por quê?
F.C. - Resgato o
caso do jornal La Nación, da Costa Rica. pelo olfato, eles começaram a investigar o caso de um aluguel caro de um funcionário público, porém seguiram a pista até o final, viajaram a outros países para seguir as contas bancárias, bateram em portas insuspeitas, até que conseguiram fazer desmoronar toda uma cadeia de  más práticas que se repetiam no poder.

BN - Durante as investigações, os jornalistas usaram todo o tipo de recurso, inclusive disfarces. Há algum limite para a investigação jornalística?
F.C. - Essa é uma das
conclusões mais importantes que o livro deve produzir. É evidente que a imprensa não deve ser um apêndice da Justiça, e muito menos se converter num juiz de plantão frente a estes fatos. O trabalho da mídia deve estar sempre marcado pelo ofício de denunciar ou publicar fatos pouco claros.

BN - Um dos grandes obstáculos ao trabalho da imprensa foi a dificuldade de acesso às informações públicas. Com essa nova onda de esquerda na América Latina, a situação pode piorar ou melhorar?
F.C. -
Não vejo uma relação direta entre ambos os casos, que a intenção de tampar poços podres é uma condição quase natural de qualquer governo corrupto, de direita ou de esquerda. Se não se levar em conta a “lei da mordaçaque impera na Venezuela de Chávez, nãooutros exemplos tão claros para mostrar nesta nova tendência. Em nosso livro, a maioria dos ex-presidentes acusados pôs obstáculos e não eram precisamente dos partidos de esquerda.

BN - Na maioria dos casos narrados, a investigação teve como origem uma denúncia de uma fonte anônima. A prática do jornalismo investigativo puro