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”O livro é um elemento insubstituível de cultura” Com uma vida toda dedicada
à educação, Arnaldo Niskier nos fala da leitura a partir da simpatia pela
palavra, da falta de uma política nacional do livro e da chegada da Internet
nas escolas
Bacharel
pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade Estadual do Rio
de Janeiro (UERJ), Arnaldo Niskier atuou, durante vários anos, como
jornalista na Bloch Editores (Revista Manchete), onde foi chefe de
reportagem. Mas sua vocação sempre
esteve diretamente ligada à educação. Dentre as diversas funções exercidas em
sua vida profissional, foi, por mais de duas décadas e meia, Professor Titular de História e Filosofia da
Educação da UERJ, onde também coordenou o Curso de Mestrado em Educação.
Dirigiu a Bloch Educação e diversos programas educativos da Rede Manchete.
Presidiu o Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro, o Conselho
Estadual de Cultura, do mesmo Estado, e, posteriormente, a Fundação Nacional
do Livro Infantil e Juvenil. É autor de diversos livros
voltados para a educação e de outros tantos dedicados ao público
infanto-juvenil, tais como: “A Nova Escola: reforma de ensino” (1980),
“Educação: pra quê?” (1980), “Educação em primeiro lugar” (1992); “Qualidade
do ensino – a grande meta” (1996); “Educação, arma da democracia” (1999), “Na
ponta da língua” (2000), “Uma visão crítica da educação brasileira” (2003),
“O saruê astronauta” (1987), “O boto e o raio de sol” (1988), “A forra do
boi” (1991), “A arara e o céu azul” (1993), “A revolta dos vagalumes” (1995),
“Bafafá no reino dourado” (2001), “A magia da educação” (2006), entre
outros. Participou de várias conferências e foi agraciado com muitos prêmios. De 1979 a 1983, foi Secretário de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Desde 1984, é membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 18. Recentemente, entre 2003 e 2006, exerceu, mais uma vez, o cargo de Secretário de Cultura e, em seguida, de Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro. **** BN - Sua vida foi basicamente dedicada ao
jornalismo, à educação e à cultura, onde a leitura sempre teve papel
fundamental. Mas hoje percebemos que
os estudantes, de um modo geral, não têm esse hábito. Quais os caminhos possíveis
para estimular o estudante a ler mais? ARNALDO
NISKIER - Não
gosto muito da expressão “hábito de leitura”. Eu entendo que o hábito, em
muitos casos, é imposto. E, em educação, tudo o que se impõe, a curto ou a
médio prazo, é, em geral, rejeitado. Prefiro a expressão “gosto pela
leitura”. E esse gosto dificilmente acontece quando o indivíduo atinge a
maioridade. Tem que vir de cedo. A partir do reconhecimento dos primeiros
signos, a criança já vai demonstrando a sua simpatia pela palavra. Ela compõe
as palavras completas muito mais cedo, hoje, que antigamente; e tem uma
sensação de prazer, que só quem convive com crianças pode acompanhar. Então,
eu acredito que, de uma ação conjunta, dos pais (que, em geral, não cuidam
disso) e das escolas, através de seus professores, é que será possível incutir
no espírito da criança, desde cedo, este chamado gosto pela leitura. E
aproveito para dizer que aprendi, lendo um pouco sobre Freud, que o cérebro
normal de uma criança se estabelece e atinge seu tamanho regular entre os
cinco e seis anos, aproximadamente. Portanto, esse é o momento para que a
criança, iniciando seu processo de prontidão para a leitura e a escrita, seja
levada a gostar do livro, que, para mim, é um elemento insubstituível de
cultura. É no livro que encontramos a cultura consolidada. Pode-se pensar em
outras mídias, imaginar que o rádio é muito forte e a televisão poderosa. Mas
não adianta: aquilo que fica, que sedimenta no espírito de uma pessoa, é o
que foi transmitido pelo livro, pela revista, pelo jornal; ou seja, pela
mídia escrita. BN - Como tem
sido, na sua opinião, a atuação dos governos nessa área de incentivo à
leitura? A.
N. - Prefiro
falar do governo como ente, e, não, deste ou daquele governo, do passado ou
do presente. A verdade é que não se compreende a importância, para a formação
do indivíduo, desse aprendizado abençoado que se faz através do livro. A
descontinuidade dos planos, a falta de preparo dos professores, que são
também miseravelmente pagos (e uma coisa tem relação com a outra), tudo isso
faz com que o milagre da leitura só aconteça para uma parte privilegiada do
povo brasileiro. Com mais de 180 milhões de habitantes, é um absurdo que
estejamos muito perto de 20 milhões de analfabetos e de outros 30 milhões
semi-alfabetizados, que são incapazes de ler um livro com uma certa
independência crítica. Portanto, é fundamental que exista uma política
nacional do livro que busque uma solução para essas verdades que eu acabo de
proclamar. BN - Mas com a
falta desta política, é de se esperar, portanto, que o universitário de hoje
não seja um bom leitor, porque muitos nem tiveram oportunidades na infância.
Você acha que sempre é tempo de se descobrir o gosto pela leitura? A.
N. - Quando uma
criança perde o seu número normal de neurônios (e isso é irreversível), vem
uma seqüela que, pode até atenuar, mas não dá jeito. Assim é com o
livro. Se você não adquiriu, na
infância, esse prazer extraordinário de manusear um livro, de desvendar os
seus mistérios, e vai querer adquirir isto aos 18 ou aos 19 anos, é muito
mais difícil, porque sabemos que nesta idade já existem inibições e alguns
problemas para o aprendizado. O ensino de línguas é bem um exemplo disso: uma
criança de 8 anos aprende inglês com muito mais facilidade do que um cidadão
de 21 anos. As coisas têm que caminhar no seu tempo, mas infelizmente entre
nós não é assim que tem acontecido.
Mas a esperança sempre existe, e temos que acreditar que a leitura é
bem-vinda sempre: antes tarde do que nunca. Outro problema é que, nas universidades,
você vai a uma biblioteca, como eu vivi dentro da minha UERJ durante quase 40
anos, e percebe que a maioria dos livros indicados pertence a países que não
têm nada a ver com a nossa cultura: são ingleses, americanos, etc. Ou seja,
os próprios professores indicam livros que não são exatamente adequados à
realidade de seu país, ou à sua perspectiva sócio-cultural. É preciso
modificar isto, através de treinamento. Eu disse, outro dia, numa
vídeo-conferência para o Ministério da Cultura, que é inescapável a
determinação de darmos preferência para os livros brasileiros, elaborados com
a nossa realidade, para que possamos amar mais ainda o nosso país. É o livro
que pode transmitir isto. E, respondendo ainda à sua pergunta, eu queria
dizer que um elemento de estímulo à minha capacidade de ler foi a revista O Tico-tico. Meus irmãos, mais velhos
que eu, sempre que chegavam em casa vinham com a revista debaixo do braço. E,
durante muitos anos, foi ela que influenciou positivamente a minha formação.
Eu lia os seus contos, as suas histórias e as suas charges. Era uma revista
completa. Hoje, tenho a maior coleção
do Brasil: são 1500 exemplares de O
Tico-tico guardados carinhosamente e já digitalizados, porque tenho medo
de perder esse tesouro. BN - Na sua trajetória,
você presenciou a chegada do computador na educação, que hoje é uma
realidade. Quais são, a seu ver, os
benefícios e os malefícios da informática no contexto educacional? A.
N. - Os
benefícios são muito grandes e eu diria até consagradores, porque você atinge
mais rapidamente o conhecimento e também o sentido global das coisas. Hoje, o
mundo deixa bem próximo um país do outro; e devemos isso aos satélites e à
internet, que tem uma linguagem universal. Mas está acontecendo também uma
distorção. Outro dia, eu dei uma entrevista numa escola da Zona Sul do Rio de
Janeiro, em que me deparei com o tal do “internetês”. Acho um absurdo que as
crianças percam tempo, umas conversando com as outras, numa linguagem que não
tem nada a ver com a realidade da nossa língua, que é tão bonita. E quando perguntamos “mas os seus pais
aprovam?”, a própria criança diz “não, meu pai quando descobriu, desmanchou
tudo, mas eu fiz outra vez porque eu acho um barato!”. Pois eu acho caro, porque você perde o amor
que tem à sua língua da forma como ela é ensinada nas escolas, dando sempre
valor ao que é mais adequado.
Portanto, eu considero que foi um avanço chegar ao computador, mas
Deus permita que ele não destrua o que nós devemos cultivar em matéria de
cultura. BN - Com as
facilidades da internet, com a chegada dos “e-books” ou livros virtuais, com
as reações negativas dos ecologicamente corretos em termos da matéria prima
do papel, você acha que o livro está em extinção, ou isto nunca vai
acontecer? A. N. - Eu vou dar uma resposta que talvez até espante, mas eu entendo que ser de vanguarda é zelar para que o livro não morra nunca, porque, como já disse, ele é insubstituível. Quem lê um livro através do computador está sujeito a ter problemas na cervical, na lombar, nos olhos. E para quem usa óculos bifocal a dificuldade ainda é maior. O livro foi feito para se ler na mesa ou na cama, o que é um prazer imenso; ao contrário da leitura pelo computador, que você faz contrariando a sua própria fisiologia. Muita gente gosta de possuir um livro, mas, às vezes, não pode, porque em nosso país ele é caro, o que é um equívoco lamentável que ainda não foi corrigido. Mas tenho a impressão que a tecnologia não vai matar o livro nunca, porque é um elemento - criado há 500 anos por Gutemberg, na cidade de Mainz, na Alemanha - que traz uma satisfação muito grande na sua apropriação, no seu uso, no seu emprego. Por outro lado, me parece uma prova de mau gosto quem pretende levar um computador para a cama. *Jornalista e Diretor da
Tv Educativa - RJ
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