Edição 108 - Aracaju, 16 de dezembro de 2007 a 20 de janeiro de 2008
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  lingüística
Intolerância ao internetês  
Os equívocos dos censores de plantão

Por Ester Mambrini*

Ao contrário do que repete à exaustão o discurso da intolerância, o único problema do internetês é que ele dá materialidade à evidência do abismo que separa a língua escrita da língua falada. Tal materialidade, claro, só é motivo de preocupação para quem está de plantão permanente, usando apitos ortograficamente impecáveis: escreveu vc, prrrrrrrrrrrrrrrrit; escreveu axa, prrrrrrrrrrrrit; escreveu blz, prrrrrrrrrrrit, renovando permanentemente o fôlego que se restabelece de novo e de novo e de novo ao invocar a norma ortográfica como a salvadora da língua.

Claro que “invocar a norma ortográfica” é um requinte, pois os gramatiqueiros de plantão sequer distinguem língua de ortografia: é como se a língua fosse a ortografia, mas pra qualquer criatura formada segundo preceitos da ciência da linguagem,  a ortografia é  apenas uma convenção utilizada na escrita, e embora isso tenha muita importância, não é suficiente para elevar a ortografia ao patamar de língua.

Pra quem, ao contrário dos gramatiqueiros de plantão, é apenas usuário do internetês, esta modalidade de escrita opera na funcionalidade eficiente da escrita rápida, operacionalizada por regras que são apenas outras, diferentes das que operam na modalidade da escrita formal. Para os usuários do internetês, o que interessa é o seguinte: deve ser tão imediata e tão expressiva quanto possível, comparativamente aos recursos lingüísticos mobilizados pelos falantes, em situações de interlocução face a face.

O chat, este território de todos, este novo lugar da interlocução contemporânea, promove uma modalidade lingüística que se configura pela associação de características da modalidade escrita e da modalidade falada. Mas ao mesmo tempo em que as associa, promove complexidades, as quais, para que sejam vislumbradas, precisam ser vistas como uma manifestação de uma demanda interlocutiva sem par na história. Para esta abordagem, é necessário resgatar aqui as características da modalidade escrita e da modalidade falada.

Entre as características da escrita formal presente na literatura, na produção acadêmica, nos textos jornalísticos, no oficialismo da cultura letrada de comunidades cujo funcionamento social se dá sobretudo pela escrita, ou seja, das formas de interlocução à distância, anteriores ao advento dos chats, se tem o registro gráfico da expressão lingüística, utilizado em interlocuções por escrito nas quais autor e leitor não compartilham do mesmo espaço e do mesmo tempo da produção lingüística; aqui, nesta escrita formal, a produção não é concomitante à recepção da mensagem manifestada lingüisticamente, pois ambas se dão em lugar e tempo diferentes.

Entre as características da fala, há o compartilhamento de espaço e tempo por parte dos interlocutores, que agem através da linguagem produzindo enunciados lingüísticos em situação de co-presença: os interlocutores estão face a face, um em frente ao outro, ambos compartilhando o mesmo espaço e o mesmo tempo da produção lingüística, ambos de alguma forma contribuindo para a situação social em que se dá a interlocução.

Esta co-presença opera da forma como nós todos sabemos, embora possamos não ter consciência disso: um simples desvio do olhar do nosso interlocutor é razão pra gente refazer nossa fala; um simples levantar de sobrancelhas é motivo suficiente pra eu reelaborar meu enunciado, esclarecendo alguma coisa do que eu disse; um enunciado formalizado lingüisticamente pelo meu interlocutor deixa claro que ele não entendeu o que eu falei, que meu enunciado está ambíguo e que eu trate de deixar claro, por exemplo, onde é o “lá” que usei na minha fala. Além disso, e mais complexo ainda, um enunciado simples como “a porta tá aberta”, em determinados contextos de fala espontânea, pode ser entendido pelo meu interlocutor como um pedido para que ele feche a porta, como um “faça o favor de entrar”, “se sinta à vontade pra voltar sempre que quiser”, como aviso de que está frio, ou ainda, “faça o favor de sair”.

Esta nossa complexa e refinada competência lingüística é construída socialmente. Ninguém precisa ir pra escola pra aprender a falar e pra aprender estas requintadas operações lingüísticas e pragmáticas da linguagem. E também não é na escola que se aprende internetês.

O uso do internetês tem sim o seu lugar e sua legitimidade enquanto recurso expressivo: ao associar características da fala e da escrita, ele viabiliza uma interlocução que representa a fala mediada pela ortografia registrada na tela de computador, o “lugar” sala de bate-papo. A tela do monitor é o suporte físico para uma modalidade específica, esta interlocução mediada pela escrita, inédita na civilização humana: os interlocutores compartilham o mesmo tempo, mas não estão em co-presença, no mesmo espaço. E conversam, por escrito, sem se ouvir, sem se ver.  A primeira vez que entrei num chat, tentei conversar com alguém escrevendo tudinho assim como manda o figurino ... meu interlocutor me disse que eu era muito lenta e que devia ser muito chata aaaarrrgh  pq usava crase ali. :-  : x @#*fikei xocada*# @ : x  :-

Quando os intolerantes gramatiqueiros de plantão berram tanto, brandindo a norma ortográfica como se ela fosse a língua, eles ignoram solenemente essas diferenças. E são diferenças, e não erros. Ninguém fala como escreve - bem, tem sempre aquele prolixo e exibido que, pra valorizar o conteúdo precário, capricha na expressão gramaticalmente correta. Mas com relação a estas criaturas, a gente resolve fácil: se for importante por alguma razão, se faz de conta que está ouvindo e achando lindo. Por dentro, nosso desejo é de que essa encenação acabe tão rápido quanto possível. Se não tivermos nenhuma razão pra disfarçar, a gente simplesmente diz “pô, qual é?” e nosso interlocutor, se quiser nos manter por perto, ele que trate de ser mais adequado lingüisticamente.

A norma ortográfica brasileira é regida por decreto-lei. Portanto, num raciocínio lógico, se esta norma vem de fora da língua, a regra ortográfica não pode ser tomada com a língua. Ela é apenas a convenção adotada num determinado tempo para padronizar a ortografia. E nisso está seu valor, irrefutável.

O problema está em tomar a norma ortográfica vigente numa determinada época como se ela fosse a língua. E esse é o equívoco básico de quem faz o discurso contra o internetês. O argumento recorrente é de que os usuários do internetês estão profanando a gramática, este outro lugar consagrado pelo discurso conservador, e essa argumentação desconsidera uma obviedade muito simples: ortografia não é língua.

O outro argumento recorrente é de que os interneteiros trazem também pro texto escolar a escrita utilizada nos chats. Mas o problema não está nos alunos que fazem isso: está sim na escola, historicamente não habilitada a lidar com realidades lingüísticas, que embora sejam bem concretas, não constam na gramática normativa, este lugar nobre e privilegiado para veneração do conservadorismo lingüístico.

O papel da escola não é coibir o uso do internetês, cerceando ainda mais o silenciamento ao qual crianças e adolescentes se submetem. O papel da escola são vários, e não exclusivos do professor de português. Destes, se espera uma abordagem cientificamente sustentada que, em relação à gramática, mostre as especificidades da fala e escrita na sintaxe, na morfologia, no léxico e, claro, na ortografia do português brasileiro. Dos professores de português, a quem se tributa a responsabilidade exclusiva para acabar com isto que os gramatiqueiros de plantão definem como profanação lingüística, espera-se que aprendam o que a realidade mostra: os alunos estão escrevendo (viva!!!), estão agindo com o outro através da escrita, e esta escrita é motivada por uma concreta interlocução,  coisa que obviamente o texto produzido na escola não é. Para a abordagem discursiva, o professor de português tem a excelente oportunidade de pegar uma carona na escrita motivada do interneteiro, entendendo com isso que a escrita escolar deve no mínimo propor uma interlocução não falseada, tal como é a escrita da redação, que serve apenas para saber se o aluno sabe gramática normativa, incluída aí, claro, a ortografia.

Não se quer dizer com isso que o internetês deva ser legitimado na escrita escolar ou em qualquer outro lugar social onde a escrita ortográfica adequada corresponder à ortografia da variedade lingüística de prestígio social, a famosa “norma culta”. Não se está advogando pelo vale-tudo na escrita formal. Ao contrário, a lingüística – o nome que se dá à ciência da linguagem – deixa claro desde sempre que as variedades lingüísticas da fala e da escrita são construídas socialmente, mas também deixa claro desde sempre que sua legitimidade está mais no mundo social em que transitam os usuários da linguagem do que propriamente na língua e nas suas variedades lingüísticas.

Talvez o berreiro e o grande assombro dos gramatiqueiros de plantão sejam motivados pelo fato de que o internetês foi criado por usuários da internet, geralmente integrantes de classes sociais da parte mais alta da pirâmide. Se por um exercício ficcional, somente os pobres tivessem acesso à internet, e que fossem eles os criadores desta variedade lingüística, é pouco provável que os gramatiqueiros de plantão tivessem razões para se opor ao internetês. O gueto social da elite econômica estaria preservado da profanação lingüística.

*Professora de Jornalismo da UNIT/SE. E-mail: emamba@uol.com.br. Blog: http://emaju.wordpress.com