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crônica
A guerreira que devolveu a música aos brasileiros
Clara Nunes e o resgate das raízes
Por
Alessandro Faleiro Marques*
Foto Divulgação

Nestas duas últimas décadas, quem vê cantoras levando multidões a estádios,
parques de exposição e casas de espetáculo nem imagina como foi difícil as
mulheres conquistarem também o espaço dos palcos. Desde a magnífica
Chiquinha Gonzaga e talvez outras que viveram antes dela, enterradas bem
fundo pela ignorância histórica, muitas vezes as artistas eram
desacreditadas.
Entre as décadas de 1960 e início da de 1980, a história resolveu mudar. Nas
ladainhas em latim entoadas pelo coro da matriz de Caetanópolis, em Minas
Gerais, ouvia-se a voz da menina Clara Francisca Gonçalves Pinheiro. Com o
sobrenome artístico herdado da mãe, passou a ser chamada de Clara Nunes.
Depois de muito sucesso no rádio e inspirada por vozes de outras grandes
mulheres, como de Carmem Costa, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e Ângela
Maria, Clara aos poucos se tornou uma espécie de embaixadora da música
brasileira para os próprios brasileiros.
A missão da Guerreira veio em uma época particularmente difícil para a nossa
música popular. Por motivos nem sempre nobres, nos anos 60 e 70, as canções
estrangeiras, sobretudo as estadunidenses, esmagavam muitos talentos
nacionais e devassavam os espaços na mídia. Muitos sucessos em português
apresentados por artistas do Brasil nada mais eram do que “releituras” das
músicas compostas por artistas dos EUA ou da Inglaterra. Por ignorância, ou
sede de sucesso, muitos tinham pseudônimos em inglês e nessa língua
cantavam. Tudo sob a conivência do público, faça-se justiça.
Por outro lado, cheia de alegria, com seus balangandãs, levando o chocalho
na canela, e paramentada com o vestido branco da umbanda, Clara Nunes
relembrou ao povo: existia samba além carnaval e forró além São João. Com
Sivuca, ela contou ao Brasil como era a Feira de Mangaio, tudo ao som de uma
contagiante e puríssima sanfona nordestina. Na voz dela, o Brasil ouvia em
samba e coral afro um dos mais célebres lamentos nacionais, o Canto das Três
Raças. Quem melhor do que Clara poderia interpretar a comparação entre o
desfile da Portela e uma procissão?
Alguém agora pode estar lembrando-se agora do papel de Elis Regina. A missão
de Elis foi a de refinar a música, lançando novos nomes e um jeito caloroso
de interpretar. Por isso, ainda hoje, ela atrai mais o público “cult”. Não é
muito o caso de Clara Nunes. Esta também tinha uma interpretação
maravilhosa, no entanto fez mais um trabalho de resgate de algo que existia,
mas andava esquecido pelo povo. Por providência divina, Clara e Elis viveram
na mesma época e partiram cedo, deixando, cada uma a seu modo, uma
importantíssima contribuição para a cultura brasileira.
A própria vida de Clara Nunes é a principal mensagem que ela nos dá. De
menina do interior a operária e grande cantora popular, a primeira a vender
mais de cem mil cópias, quebrando um tabu, a “tal mineira” foi uma legítima
brasileira. A moça adotada pelo povo ainda nos quer chamar a atenção para as
vozes divinas de homens e mulheres que a mídia insiste em silenciar. Ela nos
pede um olhar mais carinhoso para as nossas raízes preciosas nestes tempos
de muito barulho, falta de melodia e de criatividade. Quem melhor poderia
ser chamada de Guerreira?
*Contista, professor e revisor de textos. Está
preparando um livro sobre catolicismo e cultura.
E-mail:
faleimar@hotmail.com Texto originalmente publicado no blog
Caos e Letras.
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