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Literatura
A fronteira ou o
limite
Por
Alvaro Giesta*
Parada, atónita,
mãos em garra pelo reumatismo,
no rosto um vago sorriso de bebé satisfeito, ela agarrava-se a nada,
ao que lhe restava da vida no meio das filas de doentes e da correria de
médicos e enfermeiras.
(Lya Luft, in Pensar é transgredir)
Seriam quatro da tarde.
Preocupavam-no, seriamente, os tremores febris
constantes, aliados a um certo mau estar abdominal e a uma dor de cabeça
que atordoava quase lhe fazendo saltar, ao menor movimento, o cérebro para
fora das paredes cranianas. Mas, muito mais o preocupava o desassossego da
mãe a quem adivinhava, já, duro sermão por estar em risco a perda do ano
lectivo cujo fim se aproximava – o último ano do 2.º ciclo liceal, o
antigo 5.º ano. Dito e feito. Durante mais de duas horas seguiu-se a
repetida ladainha, entremeada dos mimos que já lhe eram habituais
“cão-grande, cão-girão, logo agora é que havias de arranjar a doença para
perderes o ano. Raios te abram ao meio…” – como se ele procurasse a
doença e como se ela pudesse espantar e curar as maleitas do rapaz com
aquele sermão inusitado.
Não a podendo ouvir mais e na expectativa de lhe
abrandar o ímpeto irado e a poder calar, levantou-se e foi buscar o
caderno de exercícios de álgebra de Palma Fernandes, a sebenta e o lápis.
Meio recostado na cama deu início ao treino das equações do 2.º grau a
duas incógnitas, mas o atordoamento crescente era cada vez mais evidente.
Aquele zumbido foi aumentando de volume à medida que
a visão se lhe toldava e um buraco negro, em remoinho cada vez mais veloz,
se aproximava de si, engolindo-o. Deixou de ter noção de tudo e de todos
por um certo espaço de tempo de que perdeu a conta. Perdeu mesmo a noção
do tempo, embora conservasse uma perfeita visão do espaço, mas um espaço
diferente dos que até ali conhecera. Um espaço nunca visto. O buraco negro
tinha agora matizes de azul, lilás e vermelho. Aos poucos as cores iam
aumentando de tonalidade e pareciam-lhe, agora, serem todas as cores do
arco-íris. O redemoinho do buraco era cada vez mais veloz e o zumbido na
sua cabeça cada vez mais ensurdecedor. Depois, diminuiu de intensidade e
tornou-se mais agradável de suportar. De repente, foi puxado para o
interior desse buraco em remoinho e engolido por ele.
Sentiu que algo de si se desprendia do corpo e
flutuava no espaço. Viu-se sentado numa cadeira na sala de jantar e, à sua
volta, a mãe e a Maria de Fátima, a serviçal negra que era empregue na
lavagem da roupa, tentando reanimá-lo fazendo-o engolir pequenos goles de
chá, feito à pressa, que lhe escorria pelo peito, ao invés de o deglutir.
A negra era a mais aflita, Chorava convulsivamente “minino… minino,
aioé Suko yengui… acorda faz favô”.
Sempre pairando saiu dali. Passeou-se pelo espaço.
Foi até ao quarto e viu o Palma Fernandes de goelas escancaradas, sobre o
leito e, a seu lado, a sebenta com a equação por resolver. Voltou à sala.
A mãe, agora, implorava a Deus: “oh meu Deus, Virgem Santíssima, salvai
o meu rico filho”. Teve vontade de rir, não fosse, naquele momento,
ausência de matéria. Ainda há pouco mais de meia hora vociferava contra
ele – com o corpo dele – porque “se arriscava” a perder o ano lectivo por
doença. Ironia do destino! Como se ele tivesse arranjado a hepatite a seu
bel-prazer. Hipocrisia… simplesmente hipocrisia! Pensava assim, algo do
seu “eu” que se desprendera da matéria. Talvez a alma, desprendida agora
do corpo para flutuar livre no espaço.
Partiu dali.
Incomodava-o aquele alarido à volta do seu corpo,
inanimado, sentado na cadeira, tentando uma e outra manter-lhe a cabeça
hirta, que teimava pender-lhe sobre o ombro esquerdo. Atravessou as
paredes de tijolo da sala com a maior das facilidades. Mirou-se… nem um
arranhão. E admirou-se de tal proeza! Ainda não acreditava que era somente
espírito. Pairou, por instantes, sobre o patamar da varanda onde ronronava
a velha gata Malhada e dormitava o Leão – o fiel e nobre cão que despertou
e feriu os ares com um latido prolongado, enquanto farejava o espaço como
se pressentisse ali uma presença, mas invisível. Ao fundo do quintal pôde
ver o Domingos – velho criado negro – que se preparava para fazer a fubá
na negra e velha panela cheia de amolgadelas que fervia ao brando lume da
fogueira. Sentiu mesmo o cheiro, a sabor salgado, do peixe seco acabado de
assar.
Achou caricata aquela sua situação: estar em dois
sítios ao mesmo tempo. Em dois sítios e de diferentes modos. Em matéria,
via-se meio morto sentado numa cadeira onde a custo, a mãe e a criada
negra, tentavam reanimá-lo; em espírito, pairava como uma pena ao sabor da
aragem – a insustentável leveza do ser –, mas com perfeito controlo sobre
si mesmo, pelos quatro cantos da casa e quintal, eternamente preso àquele
corpo por algo inexplicável como se fosse um longo cordão umbilical.
Deu a volta à casa como se de uma despedida se
tratasse. Talvez para reter, lá no canto mais recôndito de si mesmo e
levar consigo para onde quer que fosse, o que de bom e mau ali passou. Ali
estava a velha carrinha Chevrolet, onde tantas vezes se vira obrigado a
pernoitar, encharcado em água das chuvadas que o penetravam até aos ossos,
como castigo por ter chegado a casa para além das nove da noite. Era assim
uma parte do castigo infligido ao “cão-girão” que nem sequer namorar
podia, a não ser às escondidas; a outra parte do castigo era a
inexistência do jantar que, mesmo que tivesse sobrado, era dado ao cão de
guarda – o fiel Leão – e nunca deixado na borda do fogão para o poder
esquentar e comer quando chegasse. Ia sentir saudades da velha carrinha –
o seu refúgio das noites frias e de cacimbo do mês de Agosto, nessas
noites mal dormidas nos seus dezasseis anos bem espigados – eternamente
encostada ao alçado norte da casa.
E partiu finalmente dali, vogando no espaço, agora
multicolor, que se abria num reflexo de luz viva para além do real e
palpável. Sem saber como, viu-se num verde prado onde apenas floriam
malmequeres campestres, brancos e amarelos. Por carreiros que serpenteavam
nesse prado, vários vultos de longas vestes brancas e auréolas doiradas
sobre as suas cabeças, independentemente de serem homens ou mulheres,
pareciam flutuar ao seu encontro. Efectivamente não moviam os pés nos
meandros dos carreiros… flutuavam a escassos centímetros daquilo que
parecia ser o solo florido – novamente a insustentável leveza do ser! Como
se a força da gravidade os impulsionassem no sentido inverso das leis da
física. Cruzavam-se, uns e outros, como se os seus corpos se penetrassem e
passassem para além deles sem se molestarem. Os hábitos eram todos iguais.
Longas vestes, esvoaçando sem aragem que justificasse o movimento das
mesmas, como se fossem túnicas, cobriam aqueles corpos aos quais não se
adivinhava forma; ou antes, não se adivinhavam formas diferentes – eram
todos iguais, todos do mesmo tamanho, todos irradiando a mesma luz, todos
vindo ao seu encontro mas sem lhe tocarem nem lhe dirigirem a palavra. A
felicidade interior transparecia naqueles rostos sem matéria. Sem saber
porquê, nem ter sido ensinado como, lia isso mesmo – uma felicidade eterna
que não estava habituado ver na vida terrena.
Só agora se apercebeu de que estava em qualquer
outro lugar diferente do da terra. Pelo menos, parecia estar. Ou antes,
que andara por qualquer outro lugar diferente do da vida terrena. E
tremeu. Um tremor forte e um peso terrível desceram sobre si mesmo.
Penetrou-o um frio intenso, da medula até aos pés. Sentiu que a garganta
secara terrivelmente ao ponto de lhe ser quase impossível respirar. O
próprio ar feria-lha a laringe. Talvez um pouco de água facilitasse a
respiração – pensou ainda sem conhecimento. Pelo menos julgou pensar. E
sentiu efectivamente sede. Também se apercebeu de que alguém o tentava
reanimar colando-lhe o frio de qualquer copo aos lábios. Sentiu mesmo que
a água lhe escorria pelo queixo até ao peito desnudado. Aquele zumbido que
na sua cabeça se fora tornando cada vez mais forte e evidente, aos poucos
desvanecera-se – sinal de que o corpo existia. Ou talvez sinal de que o
espírito regressara ao corpo após uma longa – por segundos ou minutos que
nunca soube contabilizar – mas bonita viagem astral.
*Alvaro
Giesta, pseudónimo de
Fernando Reis, membro efectivo do “Movimiento Poetas del Mundo” com sede
no Chile, escreve no Planeta Literatura e participou, na modalidade
poesia, na Antologia Escritores Brasileiros e Autores de Língua
Portuguesa, 3ª Edição Agosto 2006.
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