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Literatura Portuguesa
Homem sem leme
Por
Fernando A A Reis*
Ei-lo
ali,
parado, naquele
ritual
de filósofo
pensante,
quantas
vezes
horas
sem
fim,
num
diálogo
surdo
com
um
livro
aberto,
que
não
lia,
com
uma
resma
de
folhas
soltas,
que
não
escrevia,
com
num ecrã de
computador,
que
fixava
sem
ver
o
que
mostrava…
Ali,
deitado,
quantas
vezes
num
quarto
completamente
às escuras fixando
um
local
fixo
do tecto,
que
não
via,
tentando
cerrar as
pálpebras
num
sono,
que
não
vinha,
divagando
por
recordações do
passado,
que
não
esquecia…
Ali,
sentado, quantas
vezes
em
húmido
canto
de
jardim,
que
não
sentia, abstraído de
tudo
e
todos,
olhando os
circunspectos
veraneantes
que
há
muitos
verões
por
ali
via
nos
seus
rituais
de
prazer,
mas
não
conhecia…
… passava a vida à procura
do poema que não fez ou estava por acabar (…)
Quantas vezes se embriagava nas palavras
com que mentia
naquelas noites desvairadas
a caminho dum tempo infinito
em rituais de prazer…
e desfolhava as flores, que alguém lhe oferecera
e em completo desalinho de sentimentos
se interrogava
sem se conseguir decifrar…
neste vaivém de mentiras, sobre o que sentia
e dizia não sentir,
tecidas nas suas fantasias desvairadas
descobria nas profundezas do ser
(in)verdades e (in)certezas
feitas de angústias desnudadas.
E na
noite
desse
tempo
sem
tempo
e
sem
idade,
nessas longas
noites
de
inspiração
em
que
incansavelmente escrevia devorando
incontáveis
folhas
de
papel
neste
escrever
desvairado,
quase
de
louco…
…tinha sonhos de canções dentro da
noite
que o embalavam numa penumbra de silêncio
que esse tempo lhe oferecia…
eram sonhos desnudados em palavras por dizer
ou poemas por escrever
uma certa melodia.
Eram os “Desvarios
do
homem
sem
leme”.
E naquele
seu
diálogo
de
surdos
continuava
em
esquizofrénicos
divagações,
escrevendo
tudo
onde
dizia
nada.
Ou,
pelo
menos,
onde
dizia
coisas
desprovidas de
sentido.
Assim
pensava
ele.
De
si
e dos
seus
escritos
alquímicos e febris.
“Chamem-lhe o
que quiserem…”
(gritava)
E esbracejava,
furibundo,
desenhando
mil
arabescos
no
ar
com
a
ponteira
do
guarda-chuva
que
sempre
o acompanhava, chovesse
ou
fizesse
sol.
Era
o
seu
companheiro
de inglórias e
infortúnios
e
desventuras,
o
confidente
amigo
em
quem,
agora,
apenas
confiava.
Este
homem
sem
leme,
agarrado
à
bússola
do
nada
que
o orientava
para
norte
incerto de
coisa nenhuma, compunha
poemas
feitos
de
pedaços
de
loucura.
A
sua
loucura.
A
sua
forma
de
vida.
“Venham... venham
relâmpagos, e
raios, e
coriscos
fustiguem e habitem
este
eu
inacabado
entrem pelas
janelas
sem
vidraças
pelas
portas escancaradas,
pelas
paredes
sem
telhado
estalem
tudo... partam
tudo... arranquem
tudo
e deixem
nada
em
todo o
lado!
Atirem-me à
vontade as
tais
pedradas.
Ah!... arranquem, arranquem
tudo
e estilhacem...
estilhacem os
vidros
que
não houve
arranquem as
cortinas
que
não há
sim!... massacrem-me os
ouvidos
com satânicas gargalhadas…”
Por
vezes
ouviam-se-lhe
risos
satânicos
que
ecoavam
nos
claustros
seiscentistas
por
onde
se passeava nas
suas
tardes
de
loucura.
E
tanta
gente
parava
para
vê-lo.
“coitado… parece
louco”
(diziam uns)
“parece
que é
parvo… se
não é, faz-se”
(diziam,
outros,
ecoando
gargalhadas
de
ironias)
E continuava na
sua
voz
transtornada, apontando o
indefinível
no
vácuo
como
se
para
o
invisível
falasse.
Ou,
como
se, dirigindo-se a
um
ente
invisível
que
só
ele
tivesse o
condão de
ver
em
aparição
celestial
quisesse
culpar da
sua
sina.
…dobrem-me os
caminhos
que
por
mim
tão desvendados
os
meus
passos percorreram
já
mil
vezes
em
estradas poeirentas... enlameadas
pelos
montes, e
serras, e quebradas
fizesse
chuva
ou
mesmo
vento.
Troquem-me as
voltas.
Sim, troquem-me as
voltas
enleiem-me
em vossas
curvas
mal traçadas
tentem
que
não seja o
que sou,
que
meus
passos
me levam,
e levarão,
onde
sempre quero
ir... (e sei
que vou!).
*Escritor português
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