Webjornal - Mensal  - Edição 97 - Aracaju, 07 de janeiro a 04 de fevereiro de 2007
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Literatura Portuguesa

Homem sem leme

Por Fernando A A Reis* 

Ei-lo ali, parado, naquele ritual de filósofo pensante, quantas vezes horas sem fim, num diálogo surdo com um livro aberto, que não lia, com uma resma de folhas soltas, que não escrevia, com num ecrã de computador, que fixava sem ver o que mostrava…

Ali, deitado, quantas vezes num quarto completamente às escuras fixando um local fixo do tecto, que não via, tentando cerrar as pálpebras num sono, que não vinha, divagando por recordações do passado, que não esquecia…

Ali, sentado, quantas vezes em húmido canto de jardim, que não sentia, abstraído de tudo e todos, olhando os circunspectos veraneantes que muitos verões por ali via nos seus rituais de prazer, mas não conhecia…

… passava a vida à procura
do poema que não fez ou estava por acabar (…)
Quantas vezes se embriagava nas palavras
com que mentia
naquelas noites desvairadas
a caminho dum tempo infinito
em rituais de prazer…
e desfolhava as flores, que alguém lhe oferecera
e em completo desalinho de sentimentos
se interrogava
sem se conseguir decifrar…
neste vaivém de mentiras, sobre o que sentia
e dizia não sentir,
tecidas nas suas fantasias desvairadas
descobria nas profundezas do ser
(in)verdades e (in)certezas
feitas de angústias desnudadas.

E na noite desse tempo sem tempo e sem idade, nessas longas noites de inspiração em que incansavelmente escrevia devorando incontáveis folhas de papel neste escrever desvairado, quase de louco

…tinha sonhos de canções dentro da noite
que o embalavam numa penumbra de silêncio
que esse tempo lhe oferecia…
eram sonhos desnudados em palavras por dizer
ou poemas por escrever
uma certa melodia.
 

Eram os “Desvarios do homem sem leme”.        

E naquele seu diálogo de surdos continuava em esquizofrénicos divagações, escrevendo tudo onde dizia nada. Ou, pelo menos, onde dizia coisas desprovidas de sentido. Assim pensava ele. De si e dos seus escritos alquímicos e febris.

“Chamem-lhe o que quiserem…” (gritava) 

E esbracejava, furibundo, desenhando mil arabescos no ar com a ponteira do guarda-chuva que sempre o acompanhava, chovesse ou fizesse sol. Era o seu companheiro de inglórias e infortúnios e desventuras, o confidente amigo em quem, agora, apenas confiava. 

Este homem sem leme, agarrado à bússola do nada que o orientava para norte incerto de coisa nenhuma, compunha poemas feitos de pedaços de loucura. A sua loucura. A sua forma de vida.

“Venham... venham relâmpagos, e raios, e coriscos
fustiguem e habitem
este eu inacabado
entrem pelas
janelas sem vidraças
pelas
portas escancaradas,
pelas
paredes sem telhado
estalem
tudo... partam tudo... arranquem tudo
e deixem
nada em todo o lado!
Atirem-me à
vontade as tais pedradas.
Ah!... arranquem, arranquem
tudo e estilhacem...
estilhacem os
vidros que não houve
arranquem as
cortinas que não
sim!... massacrem-me os ouvidos
com satânicas gargalhadas…”

Por vezes ouviam-se-lhe risos satânicos que ecoavam nos claustros seiscentistas por onde se passeava nas suas tardes de loucura. E tanta gente parava para vê-lo.

coitado… parece louco (diziam uns)
“parece
que é parvo… se não é, faz-se” (diziam, outros, ecoando gargalhadas de ironias

E continuava na sua voz transtornada, apontando o indefinível no vácuo como se para o invisível falasse. Ou, como se, dirigindo-se a um ente invisível que ele tivesse o condão de ver em aparição celestial quisesse culpar da sua sina.

…dobrem-me os caminhos que por mim tão desvendados
os
meus passos percorreram mil vezes
em estradas poeirentas... enlameadas
pelos montes, e serras, e quebradas
fizesse
chuva ou mesmo vento.
Troquem-me as
voltas. Sim, troquem-me as voltas
enleiem-me
em vossas curvas mal traçadas
tentem
que não seja o que sou, que meus passos me levam,
e levarão,
onde sempre quero ir... (e sei que vou!).

*Escritor português 

                                 

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