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| Sombras do esquecimento As revoluções não foram mais do que uma utopia Fernando Reis* Talvez o que escrevo, dirigido a todos e a ninguém, não seja mais que o reflectir, na sombra do esquecimento, sobre uma das várias realidades de que eu, como ser humano, me apercebo diariamente. Ainda é inevitável que, nestes dias tão próximos mas que se vão afastando cada vez mais - os dias das Grandes Revoluções que mudaram a história -, haja muitos que neles falem com algum ênfase e entusiasmo. Uns, porque a esses dias, que mudaram a história, devem a quebra do jugo que lhes negou a liberdade durante décadas da sua existência e às revoluções ficaram eternamente gratos; outros, conquanto as desejassem também pelos mesmos e outros motivos, as encaram hoje com alguma desilusão e desesperança, porque elas não foram mais do que uma utopia que os governantes, que se lhes seguiram na condução das rédeas dos novos governos, se encarregaram, mais e mais, de transformar as ilusões de novos e melhores dias em mega-utopias. E o entusiasmo das comemorações desses grandes feitos que passaram, vai-se desvanecendo aos poucos, nas pessoas, por outros motivos também. Ou porque, à data, não eram ainda nascidos e, para estes, a história não é mais do que uma sucessão de acontecimentos que se sucedem, sucessivamente, sem cessar - como a cátedra ensina nos bancos da escola -, ou porque, tendo já sido nascidos, mas não tendo sentido na pele as dores que os regimes anteriores infligiram, a memória e o conhecimento desinteressado das coisas, e pelas coisas, os atraiçoa. Uns e outros, por aquilo que se conhece do mundo obscuro, dúbio e oportunista das sondagens de opinião, têm desses acontecimentos apenas ténues lembranças, pelas narrações ouvidas de seus progenitores, ainda próximos, por enquanto, que não, infelizmente, pela leitura útil que a maioria dos jovens de hoje desprezam, e quase abominam, fazendo das novas tecnologias que contêm milhares de documentos informativos e formativos, um mau aproveitamento e pior exploração, servindo-se delas - dessas novas tecnologias - para se desinformarem culturalmente, conduzindo-se por más pesquisas e experiências maléficas, para atingirem fins menos nobres e úteis e concretizar sonhos de resultados perniciosos. E, como o tempo é célere e voa, também a memória dos homens, que é curta, fugirá numa maior vertigem rumo ao abismo das sombras do esquecimento, levando a que os grandes feitos e os grandes homens caiam e se afundem, para sempre, nesse mesmo esquecimento, se não houver alguém que, de um modo útil e sério, avive essas mentes empobrecidas de saber. Falar aqui, de um modo genérico, das revoluções, não implica, necessariamente, que não se possa individualizar esta ou aquela. Mas tal não é o propósito, muito menos o desmerecimento. Apenas porque a finalidade é outra, como facilmente se deduz. Mas, ainda que o fosse, para o caso vertente, e porque a sua comemoração se realizou há curtos dias, até o podia ser. Pois, se hoje o 25 de Abril, ocorrido ainda “ontem” - já lá vão 33 anos - ainda se vai lembrando com alguma (já) falta de vigor e entusiasmo, lamentavelmente, o que acontecerá, e como acontecerá, quando já tiver passado o seu século de vida? Provavelmente o mesmo que hoje se verifica quando, meia dúzia de "gatos pingados com cara de mirones parvos" assistem, sem saber muito bem o que isso é e o que isso foi, ao desfilar da tropa na Avenida da Liberdade em dia de comemoração ao 5 de Outubro de 1910. Vá-se-lhes lá perguntar se sabem que na antevéspera de 5 de Outubro se revoltaram contra o rei D. Manuel II os quartéis de infantaria 16 de Campo de Ourique, de Artilharia 1 de Campolide ou da Marinha de Alcântara. E que foi ali, precisamente no cimo da Avenida da Liberdade, que os dois primeiros regimentos revoltosos se instalaram chefiados pelo comissário naval Machado Santos. E que os navios Adamastor e São Rafael bombardearam o Palácio das Necessidades. E qual o papel desempenhado pela Carbonária. E que grupo de revoltosos formava a Carbonária. Se sabem que foi no dia 4 que Paiva Couceiro, o general-chefe das forças monárquicas assinou a acta da rendição. Saberão, porventura - e já não é mau que o saibam -, que foi na manhã de 5 de Outubro de 1910 que a República foi proclamada na Câmara Municipal de Lisboa. Mas poucos saberão, também, que foi na tarde de 5 que o rei D. Manuel acompanhado das rainhas D. Amélia e D. Maria Pia embarcaram na Ericeira, a bordo do iate Amélia, rumo a Gibraltar e, daí, para Inglaterra, sua morada definitiva. E a quem apontar o dedo acusador por esta indiferença e falta de saber que, no meu tempo, se chamava ignorância? A meu ver, a duas instituições que têm tudo na mão para que o inverso se verifique. A primeira responsável é a escola, que desprezou o ensino do útil em favor do acessório. (faz-me lembrar o que aqui há uns anos ouvi a uma filha minha, a propósito de lhe dizer que certo texto seu tinha erros: "mas oh pai, a Prof. diz que o que interessa não são os erros, mas sim o contexto". - pobre professora, digo eu!!!. A segunda - aquela que não havia no tempo nem na aldeia em que eu cresci -, que bem podia e devia ser o "forte" veículo transmissor desse conhecimento, mas se dedica, quase exclusivamente, à transmissão de deficiente saber. E muitas vezes de falso saber. Refiro-me, evidentemente, à televisão, cujas programações abundam e abusam em telenovelas de histórias ocas e repetitivas e programas de entretenimento - assim chamados por quem e a quem convém -, muitas vezes exageradamente subsidiados pelo Ministério de qualquer coisa (a quem já ouvir chamar tantos nomes como Educação, Cultura, Ciência, que agora já nem sei que nome tem...), que o mesmo é dizer pelo dinheiro dos contribuintes. E o que se mostram nesses programas insossos que servem apenas para gáudio do pagode que, infelizmente, pouco mais tem para ver além da extensa publicidade que lhe injecta (à televisão) o sangue nas veias? IGNORÂNCIA! Pura, crua e nua! De que vale eu ser "Bela e Mestre" se, enquanto segundo, mesmo tendo à mão o cognoscível eu não sei usufruir dele para transmitir saber ao primeiro? Que o mesmo é dizer, que me vale a mim possuir em casa uma biblioteca recheada das melhores enciclopédias, com ricas encadernações ornadas a ouro, se a sua finalidade não é mais do que enfeitar as prateleiras de mogno ou castanho e impressionar o amigo pseudo-culto (tão pseudo quanto eu!) que me visita, e a quem impinjo uma zurrapa de whisky numa garrafa de puro malte de 20 anos que, propositadamente, contrafiz? Disse. *Jornalista e escritor. E-mail: fereis2002@clix.pt |