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Crônica
A roupa e o beijo
Por
Euler Araújo dos Santos*
Hoje precisei lavar minhas roupas. Isso é um
pouco raro aqui uma vez que o frio impede aquilo que deixa qualquer roupa
aí no Brasil imprestável. Acho mesmo que existem pessoas aqui que usam a
roupa até jogá-la no lixo e adquirir outra. Não, não estou exagerando.
Acho que ouvi alguém dizer algo assim numa conversa, mas não posso
confirmar, pois pode ter sido apenas uma brincadeira mal entendida. Bem, o
fato é que precisei lavar roupas.
No nosso prédio, temos uma lavanderia
disponível no subsolo – que na verdade é no segundo andar do subsolo. Tudo
que é sub esquenta mais aqui. Desci e levei todas as minhas roupas. Tinha
uma menina usando a máquina e eu esperei ela acabar. Perguntei como usava
a máquina e ela explicou. Os comandos são todos em francês... não existem
muitas coisas onde você pode ler "Power", "On", "Program"... no lugar fica
"Allumer", "Départ", "Programme"... Coloquei minha roupa e escolhi o
programa mais pesado, o que lava com água a 60 graus. Precisava disso. O
problema é que ele demora muito. E tive que esperar horas pra tudo acabar.
Nessa espera, mais uma menina apareceu e me
perguntou numa língua indecifrável, algo como se eu ainda ia demorar muito
pra acabar. Foi isso que entendi e respondi que sim. Então ela começou
outra frase mais complicada ainda e eu pensei: era melhor não ter
desperdiçado tanto tempo estudando essa língua... Quando a frase acabou,
se é que acabou, eu respondi qualquer coisa relacionada às palavras que eu
tinha entendido. Ela retrucou, e eu percebi pela expressão do rosto.
Imaginei que as expressões físicas são quase sempre iguais em qualquer
lugar do mundo. Perguntei de onde ela era, pois não conseguia distinguir
nenhum sotaque especifico.
Comecei a entender quando ela disse algo que
entendi como Romênia. Lembrei que eles são latinos também e que o idioma é
muito parecido com o italiano. Só de brincadeira, falei a primeira coisa
que veio na minha cabeça em italiano: “Io non ho paura!” (por causa do
filme de mesmo nome) Ela entendeu mais do que eu podia imaginar e disse,
em português: “Eu também não”. Deu-me três beijos no rosto e foi embora
dizendo “ciao”.
*Estudante brasileiro residente em Mulhouse, França
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