Edição 116 - Aracaju, 03 de agosto a 07 de setembro de 2008
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  literatura
Lima Barreto militante
A cara indesejável do Brasil

Por Chico Lopes* 

 

Uma velha polêmica literária colocava em confronto dois mulatos geniais da literatura brasileira, Machado de Assis e Lima Barreto, uma facção defendendo a superioridade como linguagem, como estilo, de Machado, e a outra, a superioridade moral de Lima Barreto, assumido racialmente, corajoso para tocar na inextirpável ferida do racismo que Machado teria sempre evitado. 

Os adeptos de uma literatura mais militante, mais socialmente incômoda, não têm dúvidas: Barreto é melhor. Os afeitos ao gênio de Machado tampouco têm dúvidas: Barreto é apenas um bom escritor, comparado ao grande Machado, e pouco importa a questão do racismo, de quem era mais engajado e politizado ou não.

Não sei onde fico aí: digamos que gostaria muito que Machado tivesse sido mais incisivo, mais sincero, em relação ao racismo, e não tivesse sido tão zeloso de seu próprio pedestal, acreditando na glória pífia da ABL e outras decrepitudes. Admiro o escritor, mas o homem me parece difícil de engolir. Já Lima Barreto me comove como um herói, um obstinado, e ao mesmo tempo me desespera, pois basta lê-lo com atenção maior para que se encontre um homem predestinado à autodestruição, comprazendo-se na negação amarga da sociedade de sua época com uma lucidez suicida. 

Machado é para se reler sempre. Mas esquecer Lima Barreto é perigoso. Machado nos empurra com facilidade para fora deste mundo, para as zonas rarefeitas da estética pura, Lima Barreto nos devolve ao chão, ao sujo, corrupto, racista, infeliz chão brasileiro. 

Auto-retrato em “Isaías Caminha” 

Conhecia de Lima apenas o genial e melancólico “Triste fim de Policarpo Quaresma”, alguns contos, trechos avulsos de confissões (do impressionante “Cemitério dos vivos”), muito da biografia. Decidi reparar minha falha adquirindo num sebo um exemplar de “Recordações do escrivão Isaías Caminha” e, quando me dei conta, estava lendo o que de melhor se escreveu , neste país, sobre um ambiente de jornal (e olhem que se trata de um jornal do início do século XX). 

Tenho a impressão de que nunca se toca a fundo, com lucidez e conseqüência, em certas instituições, por haver uma espécie de corporativismo muito forte em certos autores. O canal direto, ou indireto, com o jornalismo, comum em nossos escritores, torna as abordagens do ambiente jornalístico, até onde me lembro, tímida, cautelosa, reverente, e há uma tentativa de enobrecer, seja lá como for, coisas que de nobres não têm nada. O que está perto demais parece arriscado, se posto no papel, para muitos. 

Lima Barreto nos dá esse Isaías Caminha, mulato, que sai para tentar vencer na cidade grande já com uma referência de um coronel de sua terra: deverá procurar certo deputado na capital. Não encontra nada. Toda vez que leva uma recusa, fica claro que é a sua cor que está falando muito mais alto do que qualquer competência que possa ter. 

E é mais do que isso: competência está fora de questão. Barreto, magoado por milhares de episódios desse gênero, afirma: o país é feito de incompetentes, puxa-sacos, de gente que não vale o que um cachorro rejeita e ocupa posições de destaque porque o que tem mesmo é cinismo de sobra e um servilismo capaz de se ajustar a qualquer patrão. Caminha acabará, apesar de tudo, como contínuo no jornal “O Globo” e um acaso horrível – o suicídio de um colunista social chamado Floc – fará com que suba de posição. Pior: não vendo outra saída, ele vai se envilecendo. 

O livro, uma meditação sobre a formação de uma alma, nos dá bem essa pintura de um declino moral, e é assombrosa a coragem com que Barreto toca nesse problema tão comum, tão generalizado entre nós: a conivência que o infeliz, o humilhado, tem que estabelecer com seu carrasco, para sobreviver. Claro, ele decai muito, mas isso é mal notado, pois não há outra expectativa no nosso meio: ser um pulha de limitado alcance na hierarquia é o destino de certas pessoas, e elas que se sintam honradas em pelo menos terem sido aparentemente aceitas, que não se queixem da ração diária e da migalha de reconhecimento social que atingiram. 

A autobiografia é declarada. A todo momento, Isaías diz que está escrevendo a “minha Clara”(“Clara dos Anjos”, romance de Barreto). Não é um livro fácil, a que possamos nos esquivar com alegações simplistas. O país que o escritor vê é de uma corrupção tão entranhada, tão natural, por assim dizer, que Isaías Caminha, se não fosse culto, mais culto que a maioria de seus colegas, nem sofreria por ter obtido tão pouco. A consciência de classe, das injustiças medonhas, do aviltamento social, parece menos um benefício que um incômodo, num país tão perverso. Não fosse tão consciente, Caminha seria um desses espectros vagamente satisfeitos que vagam pelas ruas. E, face certos desesperos que o país nos oferece, não há dúvida que a vantagem de saber, de notar, de ter alguma clarividência culta, pode ser apenas um acréscimo à dor. Porque à lucidez se juntará a impotência. Porque a solidariedade de outros sofredores iguais é escassa. Todos precisam se arranjar na vida. Todos precisam se avacalhar. Panorama mais miserável, impossível. 

Grande escritor, Barreto. É verdade que tem momentos de flacidez, de prosa rebarbativa, e o tempo todo a gente sente que certas partes de seus livros – diferentes dos de Machado, mais seguro em seu fazer – poderiam ser reescritas com mais felicidade. Mas não se pode pedir tudo, e Barreto nos dá o que nenhum Machado nos dá: a sensação de uma verdade inexorável, de uma pintura desagradável, mas irretocavelmente verdadeira, desse pobre Brasil, e sua atualidade é assustadora. Sentimos que Barreto não teve medo de descer às nossas verdades mais sórdidas, e, com a vida que levou, não poderia mesmo ter sido olímpico e esteta como Machado. 

“Isaías Caminha” não é um livro perfeito. Mas merece ser lido com toda a atenção.

*Autor de Nó de sombras (IMS, SP, 2000), e de Dobras da noite (IMS, SP, 2004), contos prefaciados o primeiro por Ignácio de L.Brandão e o segundo por Nelson de Oliveira. Tradutor, publicou também nova tradução do clássico A volta do parafuso, de Henry James (Landmark, SP, 2004). Tem vários livros inéditos de ficção, poesia e ensaio.E-mail: franlopes54@terra.com.br