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cinema Coutinho em cena Um dos maiores documentaristas brasileiros da atualidade polemiza e emociona ao embaralhar realidade e ficção Por Gardênia Vargas* Fotos Divulgação
O letreiro sobe, as pessoas continuam a assistir, sentadas, sem se mexer, sem quase respirar. Assim acaba Jogo de Cena, novo filme de Eduardo Coutinho, para muitos o maior documentarista do Brasil, título que rejeita já na primeira pergunta. Humilde e sensato, ele prefere não entrar nesse mérito, deixa as honrarias para o filme: "Ele, sim, é a estrela". E é com o novo longa, mais uma obra-prima, que Coutinho assume a mudança (ou a retomada): mistura ficção com o documental. Atrizes como Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão (e outras ainda não tão conhecidas), se embaralham com personagens fortes e encantadores. Todas mulheres. "Mulheres sim, claro. Quero saber mais delas. E elas sabem que eu não sei, por isso falam", conta o diretor. "E sabe, as histórias que contamos de nossas vidas são tão reais quanto encenadas. Mas as mulheres são melhores nisso. Elas falam melhor."
A partir de um anúncio no jornal, 83 mulheres apareceram no pequeno set montado na platéia do teatro Glace Rocha, no Rio, para narrar suas vidas. Vinte e três depoimentos foram escolhidos. Esses viraram histórias de cinema. O protagonista são as histórias de amor, raiva, filhos, abortos, violência e muitos sorrisos. "Nesse filme o narrador é mais importante do que o narrado. Se ele narra bem podem ter dois narradores da mesma história, que não enjoa. Não adianta ter uma bela história mal contada. Tem que saber é contá-la direito", analisa Coutinho. Mas, se o narrador é bom, por que chamar atrizes? Rapidamente o diretor responde sem titubear e com a certeza do bom feito: "Chamei atrizes por que era a hora. As atrizes ali representam histórias reais e pessoas que nunca se sabe se é a história dela ou não. Podia ter feito um filme só com os personagens, o que seria ótimo também, mas pensamos e vimos que era muito próximo do que eu fazia. Então decidimos que era a hora de por esse sonho em prática."
O público é um filme a parte. As reações são diversas. São risadas, longos silêncios, apertos de mãos e até chororô durante os 105 minutos do longa-metragem. Um piscar de olhos e Andréa Beltrão, que ali representava, começa a contar lembranças de sua própria vida. Programado não estava. "Cada atriz é de um jeito, entra em pânico, chora. Teve até quem tivesse à vontade para contar suas histórias. Todas foram muito generosas. Ganharam muito pouco por um risco grande. E o melhor, ninguém pediu para tirar nada. Se houve erro, ele está ali. O erro é sublime", explica Coutinho. O diretor conseguiu despir cada uma delas com a sutileza de quem já dirigiu Cabra marcado pra morrer ou Edifício Master. Até uma Fernanda Torres em crise por não atingir o que o personagem requer e uma Marília que declara às câmeras ter levado seu cristal japonês (para caso do diretor pedir para ela chorar muito), são reveladas. "Foram meses de muito trabalho. Foi difícil montar o quebra-cabeça, mas ficou do jeitinho que eu queria", concluiu Coutinho. *Jornalista. E-mail: gardênia.vargas@gmail.com |