
Webjornal - Quinzenal - Edição 58 - Aracaju, 20 de
junho a 04 de julho de 2004
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Comportamento Por Antônio Carlos Silva Ferreira Por algumas semanas, talvez dias, muitos se lembrarão de Geoffrey Pierce como o inglês apaixonado que veio a Salvador à procura de uma baiana que ele conhecera no Peru, no ano passado, e da qual não sabia nem o nome. Sujeito inconveniente que veio atrás de uma moça sem ter sido convidado, psicopata obsessivo ou cinquentão ingênuo e romântico foram definições que Geoff, como prefere ser chamado, recebeu de pessoas que souberam da história. Muito já foi dito pelos jornais e aqui não vou contrapor nem concordar, nem vou avaliar se há sanidade ou insanidade na atitude de Geoff. Vou preferir contar a história tal qual a vivenciei. Em janeiro deste ano, depois de haver trilhado o Caminho dos Incas para Machu Picchu, eu me encontrava no trem de volta a Cuzco, com um grupo de brasileiros que conheci por lá, dentre os quais uma família de 5 mineiros. Ao saberem que eu era baiano, os mineiros me contaram que haviam conhecido um inglês, em Cuzco, que estava por lá buscando informações que o levassem a reencontrar uma baiana que ele conhecera em outubro de 2003. Pediram permissão para repassar meu telefone e e-mail para esse cidadão, já que haviam ficado sensibilizados com sua história. Voltei a Salvador no final de janeiro e, poucos dias depois, numa tarde de domingo, recebi um telefonema de Geoffrey Pierce dizendo ser o inglês que buscava a baiana. Desde então, Geoff escrevia e me pedia indicações de nomes de jornais de grande circulação e emissoras de grande audiência, no estado, além de fazer algumas outras perguntas básicas. Quando eu soube que ele só tivera contato com a baiana por uns 15 minutos, que nem sabia seu nome nem nada, pensei “esse cara é louco”. Algumas amigas a quem eu mencionei o fato brincavam dizendo que a baiana fizera um “bozó” (despacho) que deixou o inglês apaixonado. Eu cheguei a brincar dizendo que se a mulher que ele conhecera era tão maravilhosa, eu ia ajudá-lo a encontrá-la, pois quem sabe ela tinha uma irmã gêmea e eu também saía beneficiado da história. Viagem ao Brasil Um dia, em fins de abril ou início de maio, Geoff me liga e, dentre outras coisas, pergunta-me como era o clima na Bahia em junho pois estava pensando em vir até aqui. Dias depois ele me mandou um e-mail pedindo indicação de hotel e dizendo que, além de procurar a baiana, claro, tinha planos de comer muito peixe, assistir a uma partida de futebol, jogar futebol na praia e conhecer a cidade. Em 04/06, Geoff desembarca anonimamente no aeroporto de Salvador, com uma modesta bagagem de mão e eu fiz a gentileza de recepcioná-lo e levá-lo até o hotel que havia sido reservado por uma amiga agente de viagens. No trajeto do aeroporto ao hotel tentei explicar um pouquinho da história do Brasil e da Bahia e notei que ele já tinha conhecimento de algumas informações históricas. No dia seguinte, sábado, ele fez seu primeiro passeio turístico, com a minha amiga agente de viagens, visitando o Pelourinho, Elevador Lacerda, Mercado Modelo e adjacências. No domingo, fomos a Stella Maris, onde uma brusca virada de tempo frustrou os planos de banho de mar. Sem perder a esportiva, fomos na Lagoa do Abaeté, onde, num bar com música ao vivo, Geoff teve a felicidade de escutar uma cantora local cantar “Garota de Ipanema”, pouco depois dele ter pensado em fazer tal pedido a ela. A esta altura ele já tinha provado e aprovado o acarajé e a cerveja brasileira. E também comentara que a cidade era bastante grande, afinal o trajeto da Barra a Stella Maris corta Salvador de Sul a Norte. Em razão do meu trabalho não tive contato com Geoff durante a semana, exceto por alguma vez ou outra que ele me ligava e pedia alguma dica, para se locomover na cidade. Sei que ele esteve em locais de grande circulação de pessoas (Iguatemi, Shopping Barra) contando com a possibilidade de encontrar casualmente a mulher que ele se referia como “Miss Bahia”. Na noite do dia 11 ele deixou um recado no meu celular, dizendo que estivera num jornal da cidade (A Tarde), que o pessoal tinha se interessado pela curiosa história dele, a qual seria publicada. Ele dizia gostar da idéia não pela suposta fama mas pelo fato dessa publicação ampliar consideravelmente as chances de que a “Miss Bahia” lesse, se lembrasse do encontro com ele e buscasse manter contato. Apenas um detalhe No sábado, 12/06, enquanto a notícia corria a cidade através das páginas do jornal, ele ainda conseguia circular anônimo e estivemos a tarde toda, com amigos, num famoso bar do bairro da Barra, onde a iguaria principal é o caranguejo de Sergipe. Ele, que já exibia um par de tênis comprado numa loja local, não experimentou o caranguejo, mas demonstrou ter apreciado bastante a nossa farinha amarela servida como acompanhamento de diversos petiscos. Relembrando o encontro com a baiana, em 2003, ele disse que estava aguardando a excursão sentado nas escadarias da Catedral de Cuzco, quando ela se aproximou e pediu permissão para sentar-se ao lado dele. Ela disse, com orgulho, que era da Bahia, comentou que tinha uma irmã estudando em Londres e parecia, segundo Geoff, estar necessitando de conversar com alguém. Ele, que disse não ser tímido sempre, admitiu que pensou em perguntar várias coisas a ela mas a sua voz simplesmente não saía. Em poucos minutos chegou a guia que levaria ele para uma excursão e eles se separaram. Mas ele se lembra que a “Miss Bahia” falava inglês muitíssimo bem, trajava-se de forma elegante e que o deixou deveras impressionado. No dia seguinte, domingo, estivemos novamente no centro, fomos na Ribeira onde Geoff experimentou sorvete de coco com abacaxi, na Igreja do Bonfim, na Ponta do Humaitá e findamos a tardinha no Aeroclube. Lá conversamos muito sobre diversos assuntos de atividades profissionais a viagens. A impressão que tivemos, eu e meus amigos, é de que, embora tenha vindo procurar a baiana, Geoff se divertia e passeava como qualquer turista e seu diálogo não tinha como tema exclusivo a “Miss Bahia”. Tanto que ele pediu-me que perguntasse em 2 locais diferentes quem havia ganho o GP do Canadá de Fórmula 1 que ocorrera naquela tarde. Também demonstrou interesse em saber se os times jogando uma partida que estava sendo exibida num telão eram Inglaterra x França pela Eurocopa. Nesta mesma noite ele aceitou conceder entrevista ao Balaio de Notícias. e foi num cibercafé pertinho do seu hotel que eu abri o arquivo com as perguntas elaboradas pelo editor do BN, cujas respostas ele mesmo digitou, sem hesitar, em não mais que uns 10 minutos. A esta altura, além das objetivas propostas das garotas que fazem ponto em frente ao hotel onde estava hospedado, Geoff escutava cumprimentos e comentários de pessoas de ambos os sexos, que o reconheciam na rua, os quais ele nem sempre teve quem traduzisse. Ele dizia não ter esperado tanta publicidade e já questionava se aquilo faria a “Miss Bahia” aproximar-se ou esconder-se dele. Na véspera da sua partida, numa despedida entre amigos, novamente no Aeroclube, ele distraiu-se um pouco com o primeiro tempo de Flamengo x Vitória, exibido numa TV 29 polegadas, conversou, bebericou e petiscou. Ele chegou a olhar mais atentamente para uma ou outra baiana que tinha porte e tipo físico assemelhado ao da sua “procurada”. Por fim, chegou a especular se a imprensa estaria reservando para ele um encontro com a “Miss Bahia” , como fazem nos programas de TV. Afinal, se ela tivesse lido a notícia e quisesse encontrá-lo, o jornal seria o único meio de acesso, já que seu endereço aqui não havia sido revelado. Não vi Geoff no dia seguinte, mas sei que a imprensa esteve acompanhando seus passos e a história que rendeu 7 dias de notícias ao jornal teve um fim ou, no mínimo, uma pausa. Talvez seja retomada em Cuzco se ele voltar lá mais uma vez em busca de pistas. Bem, para nós que estivemos com ele nos bastidores da notícia, essa história da “Miss Bahia” foi apenas um detalhe. |
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