Webjornal - Mensal  - Edição 90 - Aracaju,  04 de junho a 09 de julho de 2006
_________________________________________________________________________________________

Turismo

Mais belezas de Portugal

Por Alvaro Giesta*
Fotos: Alvaro Giesta, Divulgação, Fernando Barão, Artur Ferrão, Raul Costa e Leonel Santos Lopes

E de terra em terra fomos nós peregrinando, quase numa eterna romaria, quantas vezes por caminhos agrestes onde dificilmente progredia o 4x4 ou por veredas insondáveis onde apenas era possível o percurso a pé, umas vezes por entre aglomerados de fragas graníticas a quem a Natureza brindou com formas curiosas, quantas vezes quase humanas, outras vezes por planuras mais dóceis e fáceis de domar onde as giestas e urzes persistiram em vencer o rigor do último Inverno marcado por uma evidente ausência pluvial, entremeadas por tufos de rosmaninho que florescem perfumando esta primavera risonha.

Lá regressávamos nós ao asfalto, depois de termos colhido a tal fotografia da tal pedra encravada na ladeira mais além, ou da árvore velha, quase seca e de energúmeno tronco retorcido, que se evidenciava, mesmo ao longe, na planura distante, gritando-nos o refrão “as árvores morrem de pé”. Na linha do horizonte um céu rubro queimava o fim do dia incendiando-o naquelas cambiantes poéticas que faz perder a noção do tempo a qualquer fotógrafo amante da natureza

Não fora uma forte indigestão, provocada a um dos nossos insatisfeitos buscadores de imagens, pelo acentuado das curvas entre Castelo de Vide e Marvão, que nos obrigou a uma fugaz passagem por Portalegre a fim de procurar a cura milagrosa numa garrafa de água das Pedras, teríamos nós, concerteza, entrado pela tarde dentro, que bem perto se fazia já sentir a noite, de tripés em riste, na busca da melhor silhueta que perpetuasse mais um pôr-do-sol diferente.

Suba connosco, manhã cedinho, até Castelo Branco e embrenhe-se na cidade. Notará, pela certa e facilmente, duas áreas distintas: a antiga vila medieval, com as suas ruas estreitas e íngremes onde ainda se podem admirar muitas portadas manuelinas, e uma zona moderna característica de uma cidade em desenvolvimento.

De Castelo Branco, erguida na encosta de um monte com a sua função histórica de fortaleza defensiva, de que é testemunha o castelo, avista-se um panorama que vai até à fronteira e às vertentes da Gardunha, e ao longe o curso superior do Tejo. Como atracção turística, a beleza de tantas ruas onde se faz o culto do mosaico e azulejo em majestosos painéis murais. Admire o extraordinário Jardim do Paço, criado no século XVIII pelo bispo João de Mendonça. De desenho formal, a sua singularidade reside nas abundantes estátuas de granito, de estilo barroco, representando apóstolos e santos, monarcas, leões e signos, que surgem entre as alamedas de buxo, ladeando escadarias ou mirando-se nas pacatas águas do lago.

Estamos agora nas Beiras, e o leitor a passar eventualmente férias em Castelo Branco, Almeida ou Figueira de Castelo Rodrigo, não se julgue menos bafejado pela sorte pelo facto de não possuir o mar e as suas praias ali à mão. E se lhe falta apetência ou até mesmo vontade ou vocação para subir pedrarias ou descer ribanceiras, que tais exercícios fazem bem à saúde, ficará entusiasmado e não deixará de ir, depois de ver e conhecer, connosco, as dez aldeias do país, consideradas históricas, e que se localizam na região.

Idanha-a-Velha, a "aldeia das guerras da fé" surge-nos, de repente, após uma curva da estrada e, para lá da “aldeia das guerras da fé”, vê-se também, imponente e altaneiro, o castelo de Monsanto. No tempo dos romanos, provavelmente no período de Augusto (sec. I a.C.) foi fundada a Civitas Igaeditanorum, mais tarde Egitania, já no tempo dos Visigodos. Vários vestígios poderão ser encontrados pelo leitor em Idanha-a-Velha, estando comprovado que os mais seguros se referem aos da época romana, sendo cientificamente certo que a povoação existia em 16 a.C. , e a sua criação surgiu como resultado de uma política de apaziguamento e ordenação do território, por parte de Roma, e da necessidade de criar um ponto de paragem entre a Guarda e Mérida.

A mais antiga inscrição romana datada existente em Idanha-a-Velha corresponde ao ano 16 a.C. e nela pode ler-se que “Quintus Iallius, cidadão de Emerita Augusta (Mérida), deu de boa vontade um relógio de sol aos Egeditanos”.

 Desloque-se o caminhante para oeste de Idanha-a-Velha e vá até à ponte sobre o rio Pônsul, de origem romana. Ela é parte da via que ligava Emerita Augusta (a actual Mérida, em Espanha), a Bracara Augusta (Braga). Diversas vezes foi reconstruída ao longo da Idade Média; ainda apresenta hoje vestígios da antiga calçada romana. http://www.cm-idanhanova.pt/turismo/idanha_velha.html

Fala a história sobre Idanha-a-Velha que "(...) do nome da cidade pouco se conhece. As fontes mais antigas apenas a referem enquanto a circunscrição administrativa Cívicas Igaeditanorum, nome derivado da designação do povo pré-romano que habitava a região onde a nova cidade se implantou (os igaeditani). A forma actual deriva da forma visigótica Egitania e da árabe Idania; destaca-se entre as estações arqueológicas portuguesas pelo seu notável conjunto de ruínas e pela vigorosa intervenção levada a cabo para mantê-las e valorizá-las sem prejudicar o modo de vida da população".

E na pressa de chegar àquela que dizem ser a “Aldeia mais Portuguesa de Portugal”, mal nos apeamos para desentorpecer as pernas em Idanha-a-Velha.

Da base da elevação que sobressai na paisagem envolvente, onde nasceu aquela que terá sido considerada um local sagrado, vê-se imponente na Torre do Relógio ou de Lucano a réplica do galo de Prata, símbolo da atribuição de tal título.

Monsantorecebe-nos de braços abertos. Sem rodeios mostra-nos, do alto do seu promontório, toda a campina de Idanha e extensas propriedades. Abre-nos o apetite para os pratos de caça, actividade de grande expressão na região. Antes do regresso, a oportunidade para comprar uma recordação das adufeiras, o belo chouriço e queijo da região e uma das marafonas que, dizem, simbolizam a fertilidade”.

É difícil descrever a beleza natural de Monsanto – natural e agreste – em meia dúzia das linhas que nos são impostas. Em cada esquina uma surpresa… o Forno Comunitário, a Cisterna, a Capela de São Pedro de Vir-a-Corça, o Pelourinho, a Porta de Santo António, a Torre do Pião, a Casa de Uma Só Telha, a Casa onde Fernando Namora viveu e exerceu medicina, enfim… um livro de monumentos raros, em pedra escrito.

Monsanto que, sendo mais antiga que o próprio reino de Portugal, merece tal nome, não pelo facto, mas sim porque foi na década de trinta, quando venceu o concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal, que ganhou projecção nacional. Tanto assim é que, no alto da torre do Relógio ou de Lucano, se encontra a réplica do galo de prata, galardão que Monsanto ostenta orgulhosamente do dito concurso.

E a custo teve um dos nossos fotógrafos de ser arrancado ao dorso das pedras, sobre as quais impiedosamente se deitava, para colher o melhor ângulo que lhe permitisse enquadrar e obter a tal fotografia e do impacto visual, coisa difícil neste dia abrasador.

Monsanto, a "aldeia mais portuguesa" onde a força da pedra fala por si;   a penedia imponente, rude, serviu de defesa desde épocas longínquas, mas terá sido de difícil domínio. Amuralhado, o alto acolheu primeiro um castro, depois o Castelo e toda a sua gente que,  dentro e fora do recinto, sobreviveu sob a sua sombra protectora. Hoje as portas estão escancaradas; ontem foram, quase sempre, intransponíveis. Junto à Capela de S.Miguel, românica e em ruínas, dos séculos XII e XIII, situada no exterior das muralhas do castelo de Monsanto, podemos localizar as sepulturas escavadas na rocha e, um pouco mais a Sul, uma rocha marcada por misteriosas concavidades, as "treze tigelas", e, nesse mesmo caminho, uma antiga cisterna.

http://www.castelos.com.pt/ctb/idn/monsanto.html

http://viajar.clix.pt/com/tesouros.php?id=528

De Monsanto a lenda "fala de um cerco, de fome e desespero. Mas também da ideia brilhante que acorreu a algum dos sitiados, salvando a comunidade. Do alto da  muralha foi lançada ao precipício a última bezerra, engordada com o último trigo. Rebentando, lá em baixo, deixou os invasores crentes de que afinal, de nada valia apertar o cerco a tão inexplicavelmente abastecido povo. E foram embora".

Suba ao Castelo, e lá de cima observe o ambiente invulgar que rodeia esse lugar encantado a que dão o nome de São Pedro de Vir-a-Côrça.

Piódão, a “Aldeia Presépio”, situada no concelho de Arganil é a sua freguesia mais mediática. Considerada de interesse público desde 1978, pelas suas diferentes características arquitectónicas, o casario, construído em xisto, aninha-se, aconchegando-se na encosta do monte, constituindo um aglomerado de habitações, de formato interessantíssimo, que se confundem com a paisagem, quase se assemelhando a um "presépio".  O monumento mais relevante é a própria aldeia em si, mas por toda a freguesia se encontram outros motivos de interesse, como, por exemplo, a  praia fluvial em Foz d' Égua e outros recantos que a beleza da paisagem, em plena serra do Açor, nos oferece.

A aldeia foi arrancada às encostas de xisto. O chão que se pisa nas ruas é como o das casas: dum castanho acinzentado de lousa, da mesma cor da terra escura que cobre o vale da ribeira de Piódão. É um excelente exemplo de como o homem se conseguiu adaptar aos espaços mais inóspitos criados pela natureza e fazer deles um lar. As dificuldades e as agruras do terreno de modo algum limitaram a ocupação de um espaço desde sempre considerado hostil ao homem. Povoação de ruas sinuosas, estreitas e pequenas, ainda com o traçado medieval, contornando os limites da serra do Açor, circunda a encosta e as suas casas, construídas apenas em xisto e dispostas em anfiteatro, integram-se harmoniosamente na paisagem, permitindo que a iluminação nocturna lhe tenha feito atribuir o epíteto de “Aldeia Presépio”.

Contrastando com o xisto das paredes e telhados, o azul dos aros das portas e janelas é a única cor que ali se usa. Como curiosidade, fique o leitor sabendo que a inacessibilidade da terra levou ainda a que se tornasse o refúgio de foragidos à lei, como foi o caso de Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de Inês de Castro e João Brandão, que “atacava de noite para se refugiar na casa do pároco durante o dia”.

Castelo Novo, a “Fonte da Gardunha”, está situado na meia encosta Leste da Serra da Gardunha, a 703 metros de altitude, entre duas ribeiras na Beira Baixa. Viaje connosco no tempo e saia da A23 em direcção a Castelo Novo, perdido a dois passos desta saída, no agreste da montanha onde se cavam os túneis da mesma Serra que a civilização esventrou, na ânsia de levar mais longe e mais rápido a luz da civilização. Ocupada no Neolítico e Calcolítico por grupos humanos, e depois ao longo da Idade do Bronze, época Romana e em período dos visigodos e muçulmanos, teima permanecer firme mesmo quando os abrasadores verões destroem com devoradoras línguas de fogo a paisagem verdejante que a circunda.

Uma curiosidade, para o visitante, são os vestígios da Forca, da época medieval, existentes na Rua do Calvário. Correspondem a uma pedra tendo duas caveiras esculpidas em relevo, outra com um jogo de tíbias, um sinal em forma de seta e um orifício onde se colocaria um dos esteios da forca. Destaca-se a sua localização num cabeço, visível de todo o lado, aspecto importante numa época em que a povoação possuía poder judicial. http://www..portugalweb.net/castelos/beirai/castelonovo.asp

Sortelha, o “Anel de Pedra”, é a próxima mas longínqua localidade que nos separa do do quase final do nosso projecto. Localiza-se na Beira Alta, na zona raiana, e pertence ao concelho do Sabugal. Situa-se num esporão granítico dominante, no intuito de vigiar e dominar todo o espaço envolvente e, deste modo, prevenir as invasões inimigas. É, tal como as demais já visitadas, uma aldeia medieval onde as pesquisas arqueológicas realizadas durante os trabalhos no âmbito do Programa das Aldeias Históricas, vieram a descobrir inúmeras sepulturas antropomórficas localizadas, sobretudo, em volta da igreja Matriz.

E de Sortelha damos a conhecer ao leitor a razão da localidade ter o epíteto de “Anel de Pedra”, já que para ver o fraco número de construções e os poucos edifícios monumentais, não precisará, certamente, de guia: “Certa controvérsia envolve o topónimo da povoação. Segundo uns autores, a denominação deriva, eventualmente, de um anel “Sortija” ou “Sortela”, utilizado num jogo medieval, no qual os cavaleiros tentavam enfiar a sua lança. Para Viterbo, linguista, “Sortel” é um anel de pedras com poderes especiais, semelhante ao anel das feiticeiras. Por outro lado, este significado poderá estar relacionado com o formato circular/ovalado do aglomerado urbano. Para o arqueólogo Marcos Osório, o topónimo poderá derivar da palavra medieval “Sorte”, pequena parcela agrícola, uma vez que a explicação relativa ao anel não surge nos documentos mais antigos. O facto de os terrenos de Sortelha não serem muito férteis poderá ter originado a denominação “Sortícula”, sorte pequena”. In Aldeias Históricas de Portugal

Na senda das aldeias históricas, mesmo ali ao lado da actual A6, suba o leitor até Castelo Mendo, o “Vale Perdido”, uma aldeia plantada sobre um maciço granítico de 700 metros de altitude, quase inacessível do lado nascente, sul e poente, dominando uma paisagem agreste e recortada, de vales cavados, o que lhe confere uma ambiência de certa forma rude e agressiva. A leste e a sul circunda-a o rio Côa – o célebre rio das gravuras rupestres que ficaremos a conhecer numa das próximas saídas.

Apesar da grande importância histórica que lhe é atribuída já desde a Idade Média, pois devido à proximidade fronteiriça teve um papel importante na defesa e consolidação do território nacional, quer nos conflitos com Castela na época medieval, quer no século XVII com as Guerras da Restauração ou no século XIX com as Invasões Francesas, não vamos cansar o leitor com a descrição dos locais que deve visitar, pois por si toma conhecimento deles, sem grande esforço, mas apenas dar a conhecer que foi em 1229 que D. Sancho II concedeu Carta de Feira à povoação, sendo considerada a primeira feira oficial do Reino. Realizava-se pela Páscoa, pelo São João e pelo São Miguel e tinha a duração de oito dias. Em 1281, D. Dinis tornou a Feira Franca, com a periodicidade anual e a duração de quinze dias. Foi ainda D. Dinis que nomeou como alcaide D. Mendo Mendes, o que veio originar o Topónimo da Povoação.

Almeida, a “Estrela de Pedra,  como se pode comprovar pelo mapa da planta da cidade. A sua evolução histórica está aqui bem patente: " O território do Concelho de Almeida apresenta vestígios de presença humana desde o paleolítico, estando detectados alguns núcleos castrejos da Idade do Bronze e do Ferro, bem como informação clara sobre a presença romana. Mas é no período medieval, com especial destaque para a época da formação da nacionalidade, que se estrutura a linha evolutiva caracterizadora do território em causa."

http://www.cm-almeida.pt/cgi-bin/modules.php?name=ADV_historia

Almeida, enquanto localidade, situa-se no Planalto das Mesas, a 2,5 Km da margem direita do Rio Côa e a 7 Km da fronteira com Espanha. Tem gerado controvérsia a origem do seu Topónimo. Para uns investigadores, Almeida deriva da palavra árabe Al Meda ou Talmeida que significava mesa devido a situar-se num planalto; para outros, o topónimo deriva de Atmeidan, que significava campo ou lugar de corrida de cavalos. Seja como for, esta localidade que foi deveras importante, desde a Idade Média até ao século XIX, na defesa militar do território, terá visto, concerteza, o seu nome, derivar do árabe, pela raiz “Al” predominantemente de origem muçulmana.

E como um pouco de história não faz mal a ninguém, fique o leitor sabendo que, durante a Reconquista Cristã da Península Ibérica, aproximadamente entre 1039 e 1297, Almeida foi palco de inúmeras batalhas entre árabes, leoneses e, no período final, entre portugueses. Apenas em 1296 D. Dinis conquista definitivamente Almeida, mas foi com o Tratado de Alcanices, celebrado entre D. Fernando, rei de Leão e Castela, e D. Dinis, rei de Portugal, em 12 de Setembro de 1297, que Almeida é reconhecida, pelo primeiro rei, como pertença portuguesa.

E venha agora o leitor acabar connosco esta digressão pelas Aldeias Históricas de Portugal, ouvindo contar, por gentes de antanho, certas lendas que se teceram e fizeram história, pelo menos na mente dos mais crédulos, por terras de Castelo Rodrigo, de Linhares e Marialva.

Castelo Rodrigo, a "aldeia das ruínas misteriosas", situa-se sobre uma alta e isolada colina, na cota 770m a 820m, nos vastos territórios de Riba Côa, a 10 Km da margem direita do rio Côa, próximo da Ribeira de Aguiar, 3 Km a sul de Figueira de Castelo Rodrigo e a 12,5 Km da raia espanhola. "O assento primitivo desta fortaleza ficaría, supostamente, no cume da serra da Marofa e é de presumir que à chegada dos romanos constituísse um oppidum lusitano defendido por um poderoso castro com cidadela e muralhas torreadas. Desse período da pax romana subsistem vestígios de calçadas, moedas, materiais construtivos e parcelas de muralhas, e datará também desta época a construção da fortaleza, na qual Afonso IX de Leão terá mandado reconstruir as muralhas, em 1209, quando cria o "concelho perfeito" de Castelo Rodrigo, e lhe atribui foral."  http://www.ippar.pt/monumentos/castelo_castrodrigo.html

Linhares, a aldeia “entre o céu e a terra”, com o seu Castelo estrategicamente colocado sobre um monte de rochedos graníticos de onde se avista da estrada da Beira ou "a catedral do parapente" da qual não podíamos falar sem referir o desporto radical que lhe pretende emprestar o nome. Ainda que sendo uma aldeia histórica do século XII, ela continua nos dias de hoje a fazer história neste desporto tendo, inclusivamente, para o efeito, aí instaladas uma escola e instalações próprias. A noroeste da dominante Serra da Estrela e sobre o extenso e lindo vale do Mondego, numa altitude de 1200 metros e com um desnível de 480, é realmente o local ideal no nosso país ao desenvolvimento deste desporto radical.

Se quer sentir-se livre, libertar-se do stress diário provocado pelos seus afazeres citadinos, Linhares é o seu destino. Venha connosco encher os pulmões de ar puro ao percorrer o Parque Natural da Serra da Estrela

Termine o roteiro dum fim-de-semana bem passado, ainda que cansativo mas frutuoso, que fez connosco visitando as Aldeias Históricas de Portugal, subindo a Marialva, o “Planalto das Lendas”.

Mas não é suficiente ficar-se a saber de lendas para julgar a nossa cultura por elas, muito menos para conhecer as terras e as suas gentes. Por isso, descubra por si o valor histórico que tais localidades têm, visitando os seus castelos, testemunhos de tantas batalhas travadas entre Mouros e Cristãos, percorrendo algumas ruas onde imperavam sinagogas, provas de tantas vivências judaicas, entrando nas suas capelas de granito esculpidas, onde o silêncio impera guardando, para sempre, o murmúrio da última oração ou percorrendo calçadas empedradas onde ressoa o eco das sandálias das hostes romanas que por aí passaram

E de Marialva conta-se, e canta-se (o fado), a propósito dos Marqueses de Marialva, que o fim das touradas reais em Portugal se ficou a dever ao fatídico desenlace da Última Tourada Real em Salvaterra. O 4.º Marquês de Marialva, D. Pedro José, destacou-se pela sua sabedoria e destreza como cavaleiro tendo seu filho, D. Manuel José, herdado do pai tais habilidades pelo que participava, por isso, todos os anos na tourada real que se realizava em Salvaterra de Magos, no Ribatejo.

Fatidicamente, numa dessas touradas, o filho do Marquês foi colhido e morto pelo touro que lidava, diante dos olhos de seu pai, do Rei D. José e de toda a corte que, aterrada, assistia a tão lamentável acidente. O Marquês de Marialva, apesar da sua avançada idade, jura vingar a morte do filho ou então morrer com ele. Ainda que impedido pelo rei, D. Pedro José desce à praça, beija a fronte do filho e manda responder ao Rei: “El-Rei manda nos vivos e eu vou morrer! Sua Majestade pode tudo, menos desonrar os cabelos brancos do criado que o serve há tantos anos”.

Levantou do chão a espada de dois gumes, passou a capa pelo braço e cobriu-se, colocando-se no centro da arena com a coragem e o sangue frio de um verdadeiro fidalgo. O touro investe, brutal e cego de ira, mas o Marquês agilmente evita a pancada, luta durante uns minutos e depois enterra a espada no garrote do animal que cai morto a seus pés.

Vingada a morte do filho, abraça-se ao seu corpo caído, cobre-o de beijos, e o Rei D. José ordena que durante o seu reinado jamais se realizassem touradas reais em Salvaterra. Cumpriu-se a ordem real e canta-se, ainda hoje, na letra do fado ao som do gemido pungente da guitarra por essas vielas da Lisboa antiga.

E assim, “à roda deste país de lendas e de histórias feito” prometemos voltar na próxima edição do Balaio de Notícias, quer calcorreando caminhos sinuosos, inóspitos por vezes, onde o homem de antanho deixou indeléveis as marcas da sua passagem, quer percorrendo cidades que a civilização fez florescer, quantas vezes de modo abrupto, ou dando um mergulho nas águas tépidas do Atlântico que banha a costas deste torrão lusitano.

*Portugal reformado e fotógrafo amador por opção e convicção, residente em Portugal. Sites:

http://ecographias.blogspot.com/
http://avozdotempo.blogspot.com/
http://www.planetaliteratura.com/

                                  

(c) Todos os Direitos Reservados