entrevista
Gilberto Scofield Jr.
Por dentro do grande dragão
Por Paulo Lima
“Não
dá para morrer de tédio na China”, afirma o jornalista Gilberto Scofield
Jr., correspondente do jornal O Globo naquele país. Afinal de contas,
tudo o que diz respeito ao grande dragão vem carregado de superlativos. É
tudo muito grandioso, desmesurado e urgente. O país ocupa uma área de 9,6
milhões de quilômetros quadrados. Sua população é de 1,3 bilhão de pessoas.
E sua economia cresce a uma taxa recorde de 10% ao ano. De uma nação
engessada durante mais de meio século pelos dogmas comunistas, a China
passou a despontar como a grande potência do futuro. Produzir riqueza, e com
rapidez, é o imperativo do grande dragão.

Gilberto Scofield Jr. (na foto, em Xangai) é uma testemunha privilegiada dessa transformação,
pois está vivendo no país desde 2004. Em seu livro recém-lançado
Um
brasileiro na China, ele oferece um olhar caleidoscópico sobre o
cotidiano do gigante oriental. A grandeza e as mazelas da revolução
econômica são expostas com extrema clareza e bom humor ao longo de 53
capítulos. Cada um deles aborda aspectos relevantes das mudanças que varrem
a China. O roteiro do livro foi concebido a partir dos temas mais comentados
pelos leitores do blog
No oriente, que o jornalista mantém em O Globo.
A
estratégia dos dirigentes chineses de combinar capitalismo sem liberdade
política produz, não raro, inúmeras contradições na vida dos chineses. A
enorme confusão entre o público e o privado é uma delas, numa sociedade em
que o coletivo sempre deteve a primazia sobre as decisões individuais. O
livro traz situações que beiram o ridículo se comparadas aos nossos
tolerantes padrões ocidentais.
O
massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, não freou o ímpeto dos chineses
por liberdade. “Há
gestos de
insubordinação
cada
vez
mais
freqüentes”, disse Gilberto Scofield Jr. Temas considerados tabus vão sendo
gradualmente vencidos, como a utilização da psiquiatria para pessoas
afetadas pela competição feroz, e não apenas como tratamento estigmatizante
para doentes mentais. Outras conquistas vão-se insinuando na sociedade
chinesa. As mulheres já podem pôr fim a casamentos insatisfatórios, por
exemplo, algo inimaginável há até pouco tempo.
Mas
o que impressiona é a velocidade com que o moderno vai tragando e destruindo
a tradição na China. E não causam menor impacto os relatos de miséria
coexistindo com a opulência. Uma estatística é particularmente dramática:
800 milhões de pessoas vivem em zonas rurais no país, o que representa 61%
da população chinesa. Isso dá uma idéia do tamanho do desafio que aguarda o
Estado chinês.
“A
China pode
ser
um
importante
país
de
desenvolvimento
médio
em
50
anos.
Ou
pode
ser
um
país
destruidor
de
recursos
naturais
ao
ponto
da
exaustão
do planeta”, avalia Gilberto Scofield Jr. De Pequim, ele concedeu por e-mail
a entrevista que se segue.
Leia o primeiro capítulo do livro
***
BN - Você chegou a Pequim
em
2004. O
cotidiano
chinês
ainda
o surpreende?
Gilberto Scofield Jr.
-
Ainda.
Quando
você
acha
que
já
viu
tudo,
toma
na
cabeça.
É
muita
gente,
tudo
enorme,
números
gigantes,
problemas
idem.
Não
dá
para
morrer
de
tédio,
não.
BN - O
que
a
temporada
na China tem
agregado
de
mais
importante
para
você
como
jornalista?
G.S.J. - O
jogo
de
cintura
para
lidar
com
um
governo
que
detesta
jornalistas,
especialmente
estrangeiros.
O
governo
chinês
não
se sente na
obrigação
de
dar
satisfação
de
seus
atos
aos chineses,
quem
dirá aos
estrangeiros.
Então
isso
te
obriga a
recorrer
a
fontes
no
exterior,
a
professores
independentes
da
academia
chinesa, à
diáspora
chinesa, a
acadêmicos
de
regiões
mais
livres,
como
Hong Kong e Taiwan. E
aprender
a
conviver
com
o
não,
a
seguranças
grosseiros,
a
ser
empurrado
pela
polícia,
essas
coisas.
BN - Num
capítulo
do
livro,
você
trata
da
barreira
idiomática.
Você
chegou a
viver
alguma
situação
difícil
pelo
fato
de
não
falar
o chinês?
G.S.J. -
Várias.
Eu
já
me
peguei
em
restaurante,
em
frente
a
um
prato
de
salada,
pedindo
sal
com
aquele
gesto
universal
de
saleiro,
e
me
ver
rodeado de
cinco
chineses tentando
entender
o
que
eu
dizia.
Não
é
só
o
problema
dos
tons
da
língua,
mas
do
processo
de
entendimento
de
um
estrangeiro
tentando se
comunicar,
um
fenômeno
recente
devido
à
abertura
chinesa
nos
anos
80.
Isso
sem
falar
que
muitos
motoristas
de
táxi
de Pequim
não
são
da
capital
e têm
um
sotaque
incompreensível.
Então
você
diz o
endereço
para
o
cara
e
ele
não
entende.
Ele
te
responde e
você
não
entende.
Ou
seja, impossibilidade de
comunicação
total
que
só
é rompida
quando
eu
ligo do
celular
para
o
meu
tradutor e peço a
ele
que
explique ao
motorista
onde
eu
quero
ir.
Não
é
mole,
não.
BN - Seu
olhar
caleidoscópico
sobre
a
realidade
chinesa vai da
culinária
ao
cinema.
Algum
produto (no
sentido
amplo do
termo) chinês conquistou
você a
ponto de
você
pensar
em substituí-lo
por
seu
similar
brasileiro?
G.S.J. - Calça
jeans
Levi’s 501 a R$ 20 e mp3 player a R$ 40,
sinceramente,
não
dá
para
recusar.
O
resto
é
muito
vagabundo
ou
não
faz
meu
tipo/gosto.
BN - Que
tipo
de
hábito
(ou
situação)
você
testemunhou na China
que
jamais
viu
em
outra
parte
do
mundo?
G.S.J. - O
hábito
de
escarrar
ruidosamente
em
público,
em
qualquer
lugar,
como
se fosse a
coisa
mais
normal,
mesmo
dentro
de shoppings e
em
supermercado.
Um
horror.
BN - O
posto
de
correspondente
estrangeiro
já
foi
um
dos
mais
glamourizados do
jornalismo,
especialmente
naqueles
países
que
envolviam
ou
envolvem o “circuito
Elizabeth Arden”.
Você
acredita
que
a
função
tem sido desvalorizada
pela
mídia
brasileira?
G.S.J. - Muito
pelo
contrário.
O
que
eu
vejo
são
os
jornais
apostando
em
correspondentes
com
a
visão
brasileira
do
mundo,
o
que
é importantíssimo. O
Globo,
por
exemplo,
criou o
cargo
de
correspondente
em
Pequim.
Quando
eu
sair
daqui,
outro
virá
para
o
meu
lugar.
Isto
é
um
investimento
e
tanto.
Muitos
jornais
adotaram o
saudável
hábito
de
enviar
equipes
para
lugares
conflituosos,
como
o
Globo
fez
recentemente
com
a África e a
Folha
com
o Irã.
Nunca
a
imprensa
brasileira
cobriu
tanto
a América
Latina
como
hoje,
uma
região
sempre
tratada
com
certo
complexo
de
superioridade
nas últimas duas
décadas.
Então
vejo
muita
melhora.
A
única
ressalva
que
eu
faço é
sobre
o
ainda
tímido
espaço
dado
às
editorias
internacionais
nos
grandes
jornais.
Esse
espaço
tem
que
aumentar,
para
benefício
do
leitor.
BN - Você mantém o blog
No oriente, sobre o seu dia-a-dia na China.
Que
assuntos
mais despertam o
interesse do
leitor
brasileiro?
G.S.J. - Os
comportamentais,
ou
seja,
como
as mudanças econômicas estão afetando o
dia-a-dia
do chinês
comum.
Foi
com
base
na
audiência
do blog
que
eu
selecionei os
capítulos
para
o livro.
BN - Um
capítulo
importante
do
seu
livro
aborda a
forte
censura
vigente na internet chinesa. O
governo
continuará ditando as
regras,
ou
a
batalha
será vencida
pelos
internautas,
e
isso
é
só
uma
questão
de
tempo?
G.S.J. - É
difícil
dar
o
tempo
preciso
desta
mudança,
que
eu
tenho
certeza
que
ocorrerá no
futuro,
quando
mais
de 500
milhões
de chineses estiverem na
rede,
por
exemplo
(hoje
são
162
milhões).
Mas
o
fato
é
que
o Partido Comunista Chinês
não
se sente
disposto
a
abrir
mão
do
poder
num
prazo
inferior
a 50
anos.
Vamos
ver
quem
ganha
esta
queda
de
braço.
Da
última
vez
que
o
povo
chinês se manifestou na
direção
de reformas
políticas,
em
89,
mais
de
dois
mil
estudantes
morreram esmagados
por
tanques
na
Praça
da
Paz
Celestial.
Mas
naquela
época
não
tinha
internet.
Então
vamos
ver.
BN - Imagine
que
você
foi transformado num
empresário
capitalista
com
o
desafio
de
comercializar
um
único
produto
na China?
Qual
seria?
Por
quê?
G.S.J. - Pão
de
queijo.
Porque
é
comida
(o chinês come
horrores),
é
novidade
que
os chineses gostam (todos
os
que
eu
conheço adoram) e tem 1,3
bilhão
de
bocas
no
país,
né? Hauhauhahuha.
BN - No
livro
você
mostra
que
a
postura
zen
atribuída aos chineses
não
passa
de
um
mito,
pois
o
que
prevalece nas
grandes
cidades
é a
agitação
e a
pressa,
como
em
qualquer
parte
do
mundo.
Nem
mesmo
na China
mais
tradicional
ela
pode
ser
encontrada,
ou
está
tudo
dominado?
G.S.J. - Mesmo
no
interior,
o
conceito
de
paz
e
tranqüilidade
vem sendo rapidamente subvertido
pela
necessidade
das
pessoas
fazerem
dinheiro
no
menor
prazo
de
tempo
possível.
Está
tudo
sendo dominado,
eu
diria.
BN - O país combina
crescimento
econômico
excepcional
com
centralização das
decisões
políticas
nas
mãos
do
partido
comunista.
No
dia-a-dia
chinês
você
tem presenciado
gestos
de
insubordinação,
ou
todos
se renderam ao
culto
à
riqueza?
G.S.J. - Há
gestos
de
insubordinação
cada
vez
mais
freqüentes
(por
isso
eu
falo
em
mudanças). Esta
semana,
por
exemplo,
uma
mulher
que
possui
um
quiosque
de
bebidas
no sul da
cidade
se recusa a
abandonar
o
imóvel,
que
será destruído
para
que
as
avenidas
onde
vai
ocorrer
a
maratona
das
Olimpíadas
sejam ampliadas.
Ela
já
disse
que
não
sai.
Nada
disso é publicado na
imprensa
estatal,
mas
todo
mundo
comenta na
internet
e no
boca
a
boca
da
cidade.
Casos
assim
são
cada
vez
mais
comuns.
BN - Por
trás
da
força
do
crescimento
chinês está uma
poderosa
indústria
da
pirataria.
Por
que
o chinês copia
tanto?
G.S.J. -
Porque
não
tem
liberdade
para
ser
criativo,
para
discordar,
para
questionar.
Na
melhor
tradição
confucionista,
são
orientados
para
obedecer.
Este
é o
grande
dilema
do
desenvolvimento
chinês
hoje.
BN - Suponha
que
você
tivesse à
sua
frente
uma
bola
de
cristal
e,
através
dela, fosse estimulado a
imaginar
o
futuro
da China.
Em
sua
opinião,
que
futuro
poderá
ser
esse?
G.S.J. - Tudo
vai
depender,
como
já
disse, do
grau
de
abertura
para
a
criatividade
que
o
governo
permitir.
E do
grau
de
bom
senso
com
relação
à
qualidade
do
crescimento.
A China pode
ser
um
importante
país
de
desenvolvimento
médio
em
50
anos.
Ou
pode
ser
um
país
destruidor
de
recursos
naturais
ao
ponto
da
exaustão
do
planeta.
O
que
eu
sei é
que
isso
não
é
um
problema
só
da China,
ainda
que
o
governo
de Pequim ache
isso.
BN - Em
sua
opinião,
o
que
nós
brasileiros
podemos
aprender
com
os chineses
para
não
perdermos o
bonde
da
história?
G.S.J. -
Fazermos o
trabalho
de
casa,
com
investimento
pesado
em
infra-estrutura,
o
grande
diferencial do
bem
que
a China possui. No
campo
educacional,
é
melhor
mirar
no
Japão e na Coréia. E no
campo
da
saúde,
mirar
nos
países
europeus.
E, ao
contrário,
há
algo
que
nós
brasileiros
possamos
ensinar
aos chineses (não
vale
jogar
futebol
nem
dançar
samba)?
G.S.J. -
Criatividade
em
situações
de
impasse,
o
famoso
jogo
de
cintura
do
brasileiro.
Temos de
sobra.
BN - É
natural
que
brasileiros,
após
uma
temporada
fora
do
país,
costumem
olhar
para
o Brasil de uma
maneira
diferente,
enxergando-o
como
um
lugar
melhor
ou
pior
para
viver.
Como
está sendo
com
você?
Como
vê
o Brasil a
partir
de
um
posto
de
observação
tão
longínquo
como
a China?
G.S.J. - Vejo
um
país
lento
no
processo
de mudanças necessárias ao
desenvolvimento.
E
um
país
sufocado
por
um
nível
de
violência
absurdo
e
doentio.
BN - A China é um país particularmente complicado para jornalistas. Você tem
conversado com os coleguinhas chineses? O que os motivam na profissão?
G.S.J. - O
salário no fim do mês e a sensação de estar num país num momento de
transição e mudanças tão espetaculares quanto a China.
BN - Se você tivesse que deixar a China hoje, que produto tipicamente Made
in China levaria na bagagem?
G.S.J. -
Música tradicional chinesa, porcelanas e alguns quadros de pintores
contemporâneos.
BN - E como definiria o país numa palavra?
G.S.J. -
Superlativo.
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