Edição 114 - Aracaju, 08 de junho a 06 de julho  de 2008
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  sociedade
Donos do poder
As faces da dominação

Por Helena Christina Andrade* 

Começarei contando um fato acontecido exatamente hoje: tive que pegar um transporte coletivo pela manhã. Tranqüilo, rápido e ainda por cima vim sentada. Tudo estaria perfeito, se não fosse um episódio ocorrido dentro do veículo. Em certo ponto, o motorista parou, virou-se e perguntou, gritando, a duas pessoas que estavam no fundo do ônibus para onde elas iriam, pois estavam há muito tempo lá e ele não as queria rodando no SEU CARRO. 

Todos que estavam no coletivo voltaram os olhos para observar quem eram os merecedores de tal reprimenda, foi quando nos indignamos ao perceber que se tratavam de quatro crianças, de seis a nove anos, fardadas, quietas, tranqüilas, indo para suas casas após uma manhã de aula. Qual o problema?  O problema era que elas pegaram o ônibus no sentido inverso e estavam demorando demais a descer dele, que era "do motorista". 

O histórico acima é só um intróito à força do poder. Como diz o ditado, “Quem quiser a alguém conhecer, dê-lhe poder”. 

Desde que nascemos estamos submetidos aos detentores do poder, em primeiro lugar nossos pais, depois surgem os professores e na idade adulta, em geral, nossos chefes. Passamos então a divinizá-los e a invejá-los, alguns passando até por cima de princípios éticos e morais para serem alçados à categoria de detentor de poder. O grande problema não está nos subordinados ao poder, nem em ter o poder em si mesmo, e sim como este e contra quem este é exercido. 

Ainda nos deparamos com uma herança política execrável de que os ocupantes de cargo eletivo têm poder, esquecemos que quem os coloca somos nós, o povo, a sociedade, os cidadãos. 

Os servidores públicos, por serem estáveis, acham que estão acima de todos, pois são estáveis e podem trabalhar, se quiserem, ter desempenho, se quiserem, atender bem ou mal, e diga-se de passagem, na maioria das vezes muito mal, se quiserem, em detrimento daqueles que deveriam servir. Pois a palavra por si só já basta: SÃO SERVIDORES PÚBLICOS. 

Os médicos acham que porque são médicos, estudaram, mas porque ganham pouco, podem deixar pessoas doentes, necessitadas, esperando horas, pois o seu tempo é mais precioso do que o de qualquer outra pessoa. 

Os professores, por sua vez, ganham muito pouco, então não vão se esforçar para dar uma aula magnânima, e, algumas vezes, nem em ir a escola prestar o seu ofício. 

Os juízes se tornaram inacessíveis. Montesquieu, em seu brilhante O espírito das leis, defendeu a tripartição dos poderes e nele o Judiciário existiria para julgar seus iguais. SEUS IGUAIS, e hoje o que constatamos é que muitos acham que nunca foi igual, alguns verdadeiros deuses da verdade, esquecendo-se dos seus pares, esquecendo-se de que a lei é para todos, inclusive para eles. 

Poderíamos ir do presidente da república, autoridade máxima do nosso Estado, àquele morador de rua que nada tem e veríamos que cada um na sua intensidade tem poder.  Este último, se solitário fosse, exerceria seu poder com um cachorro, por exemplo. Como disse anteriormente, o problema não está em tê-lo e sim como exercê-lo. 

As profissões acima citadas são exemplificativas, pois já vi pessoalmente um abuso de poder feito por um gari que estava coordenando o serviço de outros, aqui na rua onde moro, portanto, o poder não tem distinção quanto ao grau de escolaridade, quanto ao cargo exercido, difere quanto à forma de sua aplicação. Só acho que a responsabilidade é bem maior quando temos conhecimento do que é dignidade, vida, sociedade. 

Talvez o que esteja faltando para a humanidade é a colocação de si no lugar do outro. Tenho certeza que no fato acima relatado, nem o motorista, nem o cobrador gostaria que seus filhos fossem assim tratados. 

Precisamos acabar com o corporativismo das profissões, precisamos exigir e denunciar o mau atendimento, os abusos, estar cientes que somos nós que decidimos nossos destinos e somos nós a força propulsora de uma sociedade. 

Os políticos, servidores públicos, juízes, estão para nos servir, nos atender, e todos os outros, mediante uma contraprestação, e também têm a obrigação de nos atender bem, com cordialidade e respeito. 

O poder é uma força magnífica, que pode ser usada para mudar os rumos de uma nação, da história e a maior força se concentra na sociedade. Não basta a indignação, tem que ter atitude, é ela que elege, é ela que pode mudar o rumo, é a sociedade que deve ser atendida em seus anseios básicos para uma vida digna. 

Portanto, retomando ao início, sinto informar, prezado motorista, que o ônibus não é seu, é da coletividade que o usa, pois o transporte público é dever do Estado, que o exerce por meio de concessão, devendo o “seu poder” ser exercido dentro dos limites da lei e em harmonia com o fim social a que se presta.

*Advogada.  E-mail: helenacrhis2003@yahoo.com.br