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Conto
Hipertexto
Por
Paulo Lima
Rita
era a primeira da turma na escola onde estudava, mas a última em matéria
de namorado. Perto de fazer 18 anos, nenhum pretendente dela se aproximara
ou se detivera tempo suficiente para ser considerado um par. Tivera, sim,
alguns ficantes. Mas Rita não queria só ficar, queria algo mais
duradouro, um namoro, alguém com quem ir ao cinema não só no domingo,
mas nos feriados, e até nos dias de semana. A bem da verdade, ela se
cansara de ser uma aluna exemplar, porém sem companhia masculina para
dividir as emoções.
A única irmã e a melhor amiga não contavam. Precisava de um
namorado para lhe iniciar nos ritos da vida. Joana, por exemplo, a melhor
amiga, já era uma mulher desde os 15 anos. Aos 18, já sabia tudo da
vida. Conversavam, e por causa dessas conversas que poderiam durar horas,
Rita vislumbrara o paraíso. Além do mais, sentia os ímpetos provocados
pelos hormônios. Dezoito anos é uma idade perigosa.
Na
hierarquia das possíveis dificuldades para arranjar
um namorado, Rita não se enquadrava exatamente em nenhuma. Não
era feia, embora não fosse bem uma ninfeta da novela das 8. Não era
exatamente magra, mas gorda não era. Tímida, talvez um pouco, mas não o
suficiente que lhe impedisse de freqüentar as festinhas da escola. Se bem
que... achava que sua cabeça não batia com as conversas dos colegas e
das colegas da mesma idade, não quando o assunto era cultura. Enquanto
garotos e garotas discutiam a nova prancha de surfe, a nova banda de rock
ou o novo jeans adquirido com a mesada do pai ou da mãe, Rita se recolhia
na lembrança de um bom Vivaldi ouvido na noite anterior, ou nas páginas
de uma Clarice Lispector. Tentava encontrar um denominador comum no
cinema. Era nessa interseção de gostos que arranjava o que conversar nas
tais festinhas.
O fato é
que o tempo ia passando e o namorado sonhado não surgia. Um dia surfava
com Joana num chat da internet. Conheceu um certo Rick, certamente um nick
para alguém mais que deveria se chamar André ou Ricardo. Rick não
somente gostava de Clarice Lispector (confessou que até chorara ao ler a
história de Macabéa), como tinha um gosto bastante eclético em música
clássica. Foi o bastante para Rita ser apresentada ao universo de Bela
Bartók, Gustav Mahler e outros compositores que ela não conhecia ainda. Rick
tinha a mesma idade de Rita e uma conveniência estratégica - morava na
mesma cidade.
O namoro
seguiu de vento em popa durante um mês, a intimidade avançando de bit em
bit. O convite esperado veio
num sábado à tarde. Já não era hora de se conhecerem pessoalmente? Negócio
fechado, com uma condição: a amiga Joana iria com ela. Já ouvira casos
felizes sobre encontros na internet, mas também tragédias.
O local do
primeiro encontro foi marcado num shopping, 20 h. Pelas descrições mútuas,
não foi difícil se encontrarem. Não houve nem encantamento excessivo,
nem desapontamento. Digamos que com um investimento adicional a relação
poderia progredir para além do que já se estabelecera no espaço virtual
que haviam construído.
Rick estava
acompanhado de um amigo, que propôs: estava tendo uma festinha por ali,
no apartamento de um amigo. Por que não iam para lá? Rita e Joana
relutaram, mas acabaram cedendo.
Horas
depois uma Joana aturdida e em prantos contava à polícia que ambas
resistiram às investidas de Rick e do amigo. Que um pouco tarde, enquanto
Rick desviava para uma rodovia, fora da cidade, pressentiram que o tal
apartamento talvez não existisse. E que talvez tivessem caído numa
cilada. Atingida por um disparo fatal, Rita morrera virgem como viera ao
mundo. Ferida, Joana se arrastou na escuridão até a pista e conseguiu
socorro.
O namoro
seguiu de vento em popa durante um mês, a timidez sendo vencida aos
poucos. Já não era hora de
se conhecerem pessoalmente? Negócio fechado, com uma condição: a amiga
Joana iria com ela. Já ouvira casos felizes sobre encontros na internet,
mas também tragédias.
O local do
primeiro encontro foi marcado num shopping, 20 h. Naquela mesma noite,
antes de sair para o encontro, Rita foi abordada pelo pai que, muito
aborrecido, agitava no ar a conta telefônica daquele mês. Recolhida em
suas mágoas – o pai jamais a tratara com tanta grosseria -, ela sumiu
durante um mês da internet. Por insistência de Joana, tentou fazer
contato com Rick para explicar o que ocorrera. Rick jamais deu resposta.
O namoro
seguiu de vento em popa durante um mês, a timidez sendo vencida aos
poucos. O
convite esperado veio num sábado à tarde. Já não era hora de se
conhecerem pessoalmente? Negócio fechado, com uma condição: a amiga
Joana iria com ela. Já ouvira casos felizes sobre encontros na internet,
mas também tragédias.
O
local do primeiro encontro foi marcado num shopping, 20 h. Pelas descrições
mútuas, não foi difícil se encontrarem. Eu sou Rita. E eu sou
Rick. Não houve nem encantamento excessivo, nem desapontamento, senão
uma curiosidade que induzia ao mistério. E foi no desfazer desse mistério
que os dois namoraram, noivaram, casaram e, juntos, foram morar nos
Estados Unidos, onde cada um faz atualmente seu doutorado. Ele em Composição
e Regência, ela em Literatura Latino-Americana. O primeiro filho nascerá
em novembro.
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