Webjornal - Quinzenal  - Edição 59 - Aracaju,   04 a 18  de julho  de 2004
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Conto

Hipertexto

Por Paulo Lima

Rita era a primeira da turma na escola onde estudava, mas a última em matéria de namorado. Perto de fazer 18 anos, nenhum pretendente dela se aproximara ou se detivera tempo suficiente para ser considerado um par. Tivera, sim, alguns ficantes. Mas Rita não queria só ficar, queria algo mais duradouro, um namoro, alguém com quem ir ao cinema não só no domingo, mas nos feriados, e até nos dias de semana. A bem da verdade, ela se cansara de ser uma aluna exemplar, porém sem companhia masculina para dividir as emoções.  A única irmã e a melhor amiga não contavam. Precisava de um namorado para lhe iniciar nos ritos da vida. Joana, por exemplo, a melhor amiga, já era uma mulher desde os 15 anos. Aos 18, já sabia tudo da vida. Conversavam, e por causa dessas conversas que poderiam durar horas, Rita vislumbrara o paraíso. Além do mais, sentia os ímpetos provocados pelos hormônios. Dezoito anos é uma idade perigosa.

Na hierarquia das possíveis dificuldades para arranjar  um namorado, Rita não se enquadrava exatamente em nenhuma. Não era feia, embora não fosse bem uma ninfeta da novela das 8. Não era exatamente magra, mas gorda não era. Tímida, talvez um pouco, mas não o suficiente que lhe impedisse de freqüentar as festinhas da escola. Se bem que... achava que sua cabeça não batia com as conversas dos colegas e das colegas da mesma idade, não quando o assunto era cultura. Enquanto garotos e garotas discutiam a nova prancha de surfe, a nova banda de rock ou o novo jeans adquirido com a mesada do pai ou da mãe, Rita se recolhia na lembrança de um bom Vivaldi ouvido na noite anterior, ou nas páginas de uma Clarice Lispector. Tentava encontrar um denominador comum no cinema. Era nessa interseção de gostos que arranjava o que conversar nas tais festinhas.

O fato é que o tempo ia passando e o namorado sonhado não surgia. Um dia surfava com Joana num chat da internet. Conheceu um certo Rick, certamente um nick para alguém mais que deveria se chamar André ou Ricardo. Rick não somente gostava de Clarice Lispector (confessou que até chorara ao ler a história de Macabéa), como tinha um gosto bastante eclético em música clássica. Foi o bastante para Rita ser apresentada ao universo de Bela Bartók, Gustav Mahler e outros compositores que ela não conhecia ainda. Rick tinha a mesma idade de Rita e uma conveniência estratégica - morava na mesma cidade.

O namoro seguiu de vento em popa durante um mês, a intimidade avançando de bit em bit.  O convite esperado veio num sábado à tarde. Já não era hora de se conhecerem pessoalmente? Negócio fechado, com uma condição: a amiga Joana iria com ela. Já ouvira casos felizes sobre encontros na internet, mas também tragédias.

O local do primeiro encontro foi marcado num shopping, 20 h. Pelas descrições mútuas, não foi difícil se encontrarem. Não houve nem encantamento excessivo, nem desapontamento. Digamos que com um investimento adicional a relação poderia progredir para além do que já se estabelecera no espaço virtual que haviam construído.

Rick estava acompanhado de um amigo, que propôs: estava tendo uma festinha por ali, no apartamento de um amigo. Por que não iam para lá? Rita e Joana relutaram, mas acabaram cedendo.

Horas depois uma Joana aturdida e em prantos contava à polícia que ambas resistiram às investidas de Rick e do amigo. Que um pouco tarde, enquanto Rick desviava para uma rodovia, fora da cidade, pressentiram que o tal apartamento talvez não existisse. E que talvez tivessem caído numa cilada. Atingida por um disparo fatal, Rita morrera virgem como viera ao mundo. Ferida, Joana se arrastou na escuridão até a pista e conseguiu socorro.

O namoro seguiu de vento em popa durante um mês, a timidez sendo vencida aos poucos.  Já não era hora de se conhecerem pessoalmente? Negócio fechado, com uma condição: a amiga Joana iria com ela. Já ouvira casos felizes sobre encontros na internet, mas também tragédias.

O local do primeiro encontro foi marcado num shopping, 20 h. Naquela mesma noite, antes de sair para o encontro, Rita foi abordada pelo pai que, muito aborrecido, agitava no ar a conta telefônica daquele mês. Recolhida em suas mágoas – o pai jamais a tratara com tanta grosseria -, ela sumiu durante um mês da internet. Por insistência de Joana, tentou fazer contato com Rick para explicar o que ocorrera. Rick jamais deu resposta.

O namoro seguiu de vento em popa durante um mês, a timidez sendo vencida aos poucos.  O convite esperado veio num sábado à tarde. Já não era hora de se conhecerem pessoalmente? Negócio fechado, com uma condição: a amiga Joana iria com ela. Já ouvira casos felizes sobre encontros na internet, mas também tragédias.

O local do primeiro encontro foi marcado num shopping, 20 h. Pelas descrições mútuas, não foi difícil se encontrarem. Eu sou Rita. E eu sou Rick. Não houve nem encantamento excessivo, nem desapontamento, senão uma curiosidade que induzia ao mistério. E foi no desfazer desse mistério que os dois namoraram, noivaram, casaram e, juntos, foram morar nos Estados Unidos, onde cada um faz atualmente seu doutorado. Ele em Composição e Regência, ela em Literatura Latino-Americana. O primeiro filho nascerá em novembro.

     

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