Webjornal - Quinzenal  - Edição 51 - Aracaju,  14 a 28  de março  de 2004
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História

Filhos do nazismo

Jornalista alemão retoma reportagem escrita há 40 anos e lança novas luzes sobre o período mais negro da História da Alemanha.

Stephan Lebert, editor do Berliner Tagesspiegel, jornal de Berlim,  ainda não havia nascido quando foi publicada na Alemanha, em 1959,  uma série de reportagens intitulada Tu carregas meu nome,  escrita pelo jornalista Norbert Lebert, pai de Stephan.  Norbert Lebert entrevistou na época filhos e filhas dos proeminentes nazistas Rudolf Hess, Martin Bormann, Hermann Göring, Heinrich Himmler, Baldur von Schirach e Hans Frank.  Os entrevistados eram então jovens em processo de adaptação à sociedade alemã do pós-guerra e enfrentavam o fardo de carregar sobrenomes estigmatizantes. 

Quarenta anos depois, Stephan Lebert retoma o trabalho realizado por seu pai, entrevistando de novo os  filhos dos líderes nazistas, agora pessoas septuagenárias, na maioria dos casos.  O resultado é o livro homônimo Tu carregas meu nome, recém-lançado no Brasil pela Ed. Record.  No livro, Martin Bormann, Wolf-Rüdiger Hess, Niklas Frank, Klaus von Schirach, Edda Göring e Gudrun Himmler, os filhos e as filhas dos líderes nazistas, aparecem glorificando ou repelindo com veemência a sina de carregarem no sangue a  herança do Terceiro Reich. Em comum entre  eles o fato de que jamais foram capazes de se reconciliar com esse passado.

Curiosamente, Norbert Lebert, que faleceu em 1993,  fez parte da Juventude Hitlerista e planejava seguir carreira nos quadros do Nacional-Socialismo. O próprio Stephan Lebert, portanto, poderia estar hoje sob a condição de filho de um ex-nazista, caso a Alemanha tivesse saído vitoriosa da guerra. “Isso seria um fardo muito pesado, que seria carregado durante toda a vida”, reconhece Stephan Lebert nesta entrevista.

Stephan Lebert nasceu em 1961. Trabalhou no Süddeutsche Zeitung e no Der Spiegel. Conquistou o prêmio Egon Erwin Kisch.  Por e-mail, ele concedeu esta entrevista exclusiva sobre o livro, o risco do recrudescimento do anti-semitismo nas novas gerações e a necessidade de os alemães lidarem permanentemente com o seu passado.

Por Paulo Lima*

BN - Que razões o motivaram a retomar a reportagem escrita por seu pai em 1959?

Stephan Lebert - Foi fascinante para mim agir como um jornalista atuando na área impressa e poder realizar um trabalho como um filme-documentário. Porque há duas realidades: a de 40 anos atrás e a de hoje. É muito emocionante comparar essas duas realidades, acompanhá-las e ver como elas se desenvolveram.

BN - O seu pai fez parte da Juventude Hitlerista e acreditava que, se a Alemanha tivesse saído vitoriosa, ele poderia ter feito carreira no Nacional-Socialismo, e isso o assustava.  Ter escrito a reportagem foi uma forma que ele encontrou para trabalhar o temor em si mesmo?

S.L. - Sim, acredito que meu pai tentou dessa maneira trabalhar o temor que ele tinha dentro dele.  Ele sofreu a vida toda por ter pertencido,  na época com 14, 15 anos de idade,  a um partido com essa ideologia medonha.

BN - O senhor mesmo manifesta o receio de que poderia ter se tornado um filho de ex-nazista, caso seu pai tivesse obtido êxito como autoridade do Reich. Isso o assusta?

S.L. - Sim, para mim seria terrível. Eu agradeço a Deus por não pertencer a nenhuma família em que haja criminosos nazistas. Isso seria um fardo muito pesado, que seria carregado durante toda a vida. Eu sempre observei isso nas minhas conversas com os filhos dos nazistas. De um lado o pai que se ama, do outro lado o pai criminoso, o  assassino. Não dá para suportar esse extremo.

BN - Os filhos dos líderes nazistas desenvolveram diferentes estratégias para suportar a herança dos nomes famosos que carregam. O livro mostra que esses filhos jamais se livraram completamente dessa herança, mesmo rejeitando-a com veemência, como no caso de Niklas Frank, que chegou a escrever em 1987 uma série (“Meu pai, o nazista assassino”) destruindo a imagem do pai, Hans Frank. Como o senhor analisa essa reação em particular?

S.L. - Eu posso entender Niklas Frank muito bem. Eu tenho um grande respeito por ele, pela franqueza brutal dele em tratar dessa verdade. Claro que  ele é contraditório. Claro que ele se destrói com o seu ódio. Mas cada leitor pode imaginar essa cena: como alguém pode ter uma vida feliz, sabendo que o pai foi responsável pelo campo de concentração em Auschwitz?

BN - Edda Göring, a filha de Hermann Göring,  não quis recebê-lo. Ela afirmou que tudo o que tinha para dizer, já havia dito ao seu pai Norbert Lebert.  O que o senhor gostaria de ter perguntado a ela?

S.L. - Perguntaria: “Se a senhora  tivesse hoje a oportunidade de sentar-se frente a frente com seu pai, o que a senhora perguntaria a ele?”

BN - Em seu livro se lê que a filha de Himmler faria parte de uma organização neonazista chamada “still hilfe”, cujo objetivo é socorrer velhos nazistas em dificuldades. O senhor acredita que ainda existam muitas organizações assim pela Alemanha? 

S.L. - Não, não muitas. No máximo três, quatro organizações de velhos nazistas, que gracas a Deus em breve estarão todos mortos. Pelo que eu sei, não há uma ligação entre as velhas associações nazistas e os jovens radicais da direita na Alemanha.

BN - Em seu encontro com Klaus von Shirach, filho de Baldur von Shirach, ele afirma que os filhos dos nazistas não são interessantes. Que o interessante é investigar o voyeurismo com que a imprensa e a sociedade alemãs vêem essa questão. O que haveria por trás desse voyeurismo?

S.L. - Essa é a opinão do Sr. Von Schirach, que eu não compartilho. Não se pode falar de voyeurismo. Há um interesse nesses filhos/filhas, porque eles são uma parte da história alemã. Porque eles têm um envolvimento muito grande com a historia alemã, mais do que os alemães gostariam que eles tivessem.

BN - Como o livro tem sido recepcionado na Alemanha?

S.L. - Foi um sucesso enorme. Foram mais de 60.000 livros vendidos. As críticas nos jornais foram também muito positivas. Só nos Estados Unidos fui algumas vezes censurado. Eles acham que o livro tem  poucos fatos  históricos, muito jornalismo e muito pouca ciência.

BN - No livro, é fácil perceber que o senhor assume uma posição de parcialidade, de condenação do nazismo. Neste caso, foi difícil separar o jornalista do cidadão Stephan Lebert?

S.L. - Bom, agora eu tenho que contradizê-lo. Neste livro eu condenei severamente a ideologia nazista. Isso para mim é muito importante. Todavia tentei ver cada encontro com neutralidade por respeito a cada figura desse livro e pelo destino pesado de cada um.

BN - De todos os filhos retratados no livro, Martin Bormann, que se tornou um pastor,  parece ter sido o que chegou a uma posição de maior equilíbrio em relação ao passado do pai. A religião o salvou?

S.L. - Sim, a religião foi para ele uma graça de Deus. Eu penso que, sem ela , ele não estaria mais vivo.

BN - Há uma polêmica a respeito do conhecimento que a maioria dos alemães tinha das ações de extermínio contra os judeus. A população de fato desconhecia, ou era um sentimento de indiferença?

S.L. - Eu receio que os alemães sabiam na época muito mais do que eles hoje admitem. Até hoje os alemães discutem impetuosamente sobre isso.

BN - A Europa tem sido cada vez mais tomada por sentimentos xenófobos contra imigrantes. O senhor acha que esse pode ser uma nova base para ideologias como as que conduziram ao obscurantismo do Nacional-Socialismo?

S.L. - Acredito que é um grande perigo, pois com a economia atual o solo está fecundo para receber a ideologia do Nacional-Socialismo. Infelizmente há um desejo por respostas fáceis e radicais,  e isso é sempre muito perigoso.

BN - Os líderes nazistas detinham um passado de dificuldades pessoais, refletiam personalidades sombrias. Que relação o senhor vê entre esse passado e a adesão dessas pessoas a um regime criminoso como o nazismo?

S.L. - Realmente chama a atenção que principalmente os líderes nazistas tinham traços de psicoses. Eles sentiam um grande estímulo em compensar seus próprios complexos através do poder total na política.

BN - No livro, Wolf-Rüdiger Hess sustenta uma teoria conspiratória de que o pai, Rudolf Hess, não teria cometido suicídio na prisão de Spandau, conforme afirma a versão oficial. Qual a sua opinião a respeito?

S.L. - Acho que foi suicídio. Eu não acredito na teoria conspiratória e sim que um ser humano infeliz deu fim a sua vida já arruinada.

BN - O senhor acredita que os traumas do nazismo estão suficientemente expurgados da alma alemã?

S.L. - Não. Essa parte funesta da história alemã sempre fará parte da vida alemã e nunca a abandonará. Vejo como uma missão, um dever de todo cidadão discutir, debater, analisar continuamente essa história.

BN - Em sua opinião,  os processos de reunificação das duas Alemanhas e da unificação da Europa podem contribuir para o esquecimento desse histórico negativo da Alemã?

S.L. - Eu penso que a Alemanha pode,  através de uma política européia ativa e inteligente,  lembrar-se todos os dias que a Alemanha de hoje não tem nada, absolutamente nada em comum com a Alemanha daquela época.

BN - O Holocausto parece um tema inesgotável. Em sua opinião, o que foi até hoje produzido, em termos de arte (cinema), estudos e depoimentos consegue explicar satisfatoriamente aquele período?

S.L. - Eu acho bom que a arte se esforce em explicar o inconcebível. Essa tentativa de esclarecimento dos fatos às vezes é coroada de êxitos, às vezes fracassa. Eu acho o exemplo de A Lista  de Schindler,  de Spielberg,  muito bom.

BN - O senhor pretende continuar se debruçando sobre esse assunto?

S.L. - Eu escrevi agora um livro sobre o amor. Fez-me bem escrever sobre um tema tão simpático quanto esse.  Mas vou com certeza, no futuro,  continuar escrevendo sobre o tema  do Terceiro Reich.

* Colaborou Barbara Rubarth

     

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