Edição 103 - Aracaju, 08 de julho a 05 de agosto de 2007
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  turismo
Mundo das águas
 
Nosso repórter visitou as maiores cataratas do planeta, situadas no Parque Iguazu, região de Misiones, na Argentina, e registrou o que viu num diário de bordo.

(Continuação de 1)

12:00 h

Meu relógio biológico avisa: hora do almoço. Mas não abro o bico, com receio de ser minoria. Minha mulher não mostra sinal de cansaço, nem de fome. Muito menos Edson. Um garoto passa por mim e ouço-o reclamar: “Tengo hambre”. Não estou sozinho. A mãe do menino o repreende. Que fim levou sua fome, eu não sei. A minha só seria saciada – e mal – bem mais tarde.

12:20 h

Chegamos a uma área com uma pequena estrutura de lanchonete, telefones públicos e banheiros. Não uso nenhum deles. Minha mulher usa e avisa: são limpíssimos. Mas aproveito para trocar as pilhas da câmera digital, que dão sinal de fraqueza. Na pequena mercearia da lanchonete, a atendente, um morena solícita, corrige a leitura que fiz do preço de uma cartela com quatro pilhas. Pago e volto a campo.

13:00 h

Ainda não me sinto exatamente cansado, apesar de estar andando há quase três horas, com alguns stops apenas para filmar e fotografar. Mas confesso: a exploração da última trilha, uma subida íngreme de não sei quantos degraus, me deixou com o coração saindo pela boca.

13:20 h

Edson chama a nossa atenção para uma placa com informações sobre Álvar Núñez Cabeza de Vaca, o aventureiro espanhol que descobriu as cataratas, em 1542. Cabeza de Vaca chegou à área após uma longa viagem partindo de Santa Catarina, no Brasil. Não fosse a observação do guia, a placa teria passado despercebida. Presto uma pequena reverência silenciosa: gracias, Cabeza de Vaca, pela descoberta.

13:40 h

Percorremos uma trilha numa área baixa do parque, um caminho de mão dupla ladeado à esquerda por uma parede imponente de rochas, e à direita por um leve despenhadeiro. Vou com cautela. Faço uma filmagem.

14:10h

Estamos no final de uma trilha que permite nos aproximar bastante de uma das inúmeras quedas d´água. O barulho é ensurdecedor. Permaneço a uma certa distância, com receio de que a lente da filmadora seja atingida pelos respingos.

14:30 h

Numa espécie de cânion, barcos de borracha conduzem os turistas para tomarem “banho” nas cataratas, tal é a proximidade. É o chamado passeio do macuco, que não fiz por temor da minha mulher. Vários arco-íris se formam emoldurando a paisagem. Lá embaixo, nos barcos, turistas soltam gritos de emoção.   

14:50 h

Não sei quantas trilhas já percorri. Ainda não sinto cansaço ou sede, mas a fome começa a se tornar uma idéia obsessiva. Uma francesa bonita passa ao meu lado andando em sentido oposto. Menciona algo como “terminar uma reportagem”. Em meio aos turistas descompromissados, desconfio que há profissionais a trabalho visitando o parque naquele dia. Posso reconhecê-los pelo equipamento que carregam – câmeras profissionais com lentes imensas – e pelo ritmo do andor.

15:00 h

Sim, a fome. Ela já me avisou que o nível do tolerável foi ultrapassado. Abro o bico. Pergunto a Edson se não há restaurantes no parque. Sim, diz ele, mas a comida argentina não é boa. Foi o suficiente para que eu concluísse: o almoço não sairia tão cedo.  

15:20 h

Sei que já passei por aquela trilha antes. Tenho certeza. Meu senso de orientação, modéstia à parte, é dos melhores. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, sou capaz de reconhecer roteiros que percorri há anos. E guardo no meu mapa mental muitas linhas de metrô, informação que se revela útil sempre que preciso voltar à capital paulista. Então, naquele momento, sei que estávamos voltando para algum tipo de ponto de partida. Edson confirma e informa, animadíssimo: “Vamos para a Garganta do Diabo”.

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