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Língua
Portuguesa
Bela, mas ambígua
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
Dizem que
nosso idioma é um dos mais complicados do mundo! De fato, é impressionante
o que se consegue fazer com 23 letras oficiais, 3
renegadas, hífens, aspas, acentos, pontuações... São milhares de palavras,
inflexões, expressões... Às vezes, uma mesma palavra ou expressão, ou a
posição de uma vírgula, ou, ainda, a entonação utilizada pode significar
coisas diametralmente opostas!
Língua bela, mas
ambígua!
Vivo "apanhando"
dela, não nego! Mas me esforço para tentar entendê-la e ser entendido.
Infelizmente, alguns
políticos parecem ter uma dificuldade muito maior que a minha. De fato, a
compreensão errônea do significado de algumas palavras e expressões, a
semelhança entre outras e casos de homofonia parecem estar no cerne de
grande parte dos problemas que grassam nos meios políticos brasileiros. A
diferença é que, nas aulas de redação das escolas qualquer desses erros
implica em redução das notas, e não em encher os bolsos dos autores com
elas!
Vejamos alguns
exemplos:
Os filósofos
inspirados e os verdadeiros estadistas afirmam que para lidar com a
política é preciso amá-la, mas alguns políticos confundem essa conjugação
do verbo amar com o substantivo feminino: a mala!
Os verdadeiros
religiosos, que amam ao próximo como a si mesmos, afirmam que a fé:
protege, completa e enobrece o ser humano, mas alguns políticos
especialistas no assunto, demonstram entender que o abuso da boa-fé do
povo elege, locupleta e enriquece os de má-fé, ou seja, a si próprios. A
política, para eles, é uma mera extensão e suporte de práticas
corporativas cheias de "boas intenções", "daquelas" que o inferno está
cheio...
Os grandes líderes
espirituais proclamam que os maiores valores estão guardados em nosso
íntimo, mas alguns políticos confundem ego com rego. Talvez por isso
guardem o que mais dão valor nas roupas íntimas...
São Francisco de
Assis, quando afirmou que "É dando que se recebe!", falava em dar o que é
próprio, e não em dispor do que não é seu: o mandato ou o cargo público,
para se apropriar do que é dos outros ou do que deveria ser de todos!
Outros
mal-entendidos recorrentes são:
"Lavar as mãos" nem
sempre é um ato de asseio.
"Molhar a mão",
então, é sinônimo de sujeira da grossa!
Entre o "é lícito" e
o ilícito há uma cabal diferença!
Democracia significa
"Governo do Povo", e não do demo!
Como visto, tudo
leva a crer que alguns de nossos políticos, e seus financiadores ou
clientes, sofrem com o nosso idioma. Talvez por isso prefiram
interlocutores externos, ou dialetos próprios. Outros até que falam e
escrevem muito bem, mas não dizem nada.
Quem sabe seja uma
boa idéia submetê-los a um curso intensivo para que aprendam ou reaprendam
o significado exato de certas palavras, principalmente: cidadania,
democracia, honestidade, probidade, decência, decoro, honra, ética... Quem
sabe, saiam dele conscientes de que o país precisa de uma nova escola de
homens públicos, e não de uma nova escória, ávida para se compor com a
existente, sucedê-la e, até, sobrepujá-la. Com alguma sorte, talvez
realizem que a real democracia e o futuro do Brasil necessitam de
políticos que sejam bons filhos da Pátria, e não grandes filhos da...
Ops!
*Escritor,
engenheiro e professor universitário, autor do
livro "Sobre Almas e Pilhas", Editora Espaço do Autor
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