Edição 119 - Aracaju, 02 de novembro a 07 de dezembro de 2008
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  reportagem
Em defesa dos direitos humanos
O exemplo da policial que quebrou tabus

Por Isabel Capaverde*
Foto Divulgação

Tenente-Coronel Major Mírian. É assim que muitos a chamam, já que foi como Major que Mírian Assumpção e Lima ficou conhecida servindo a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), quebrando tabus e mudando a imagem que a sociedade tem da corporação. Embora tenha sido promovida acabou carregando junto ao seu nome a patente que a popularizou. Ela não se incomoda. O que importa são os resultados do trabalho desenvolvido na PM mineira e na ONG que dirige, o Instituto Pauline Reichstul. Trabalho reconhecido em 2007 ao ganhar o Prêmio Direitos Humanos na categoria "Enfrentamento à Violência", concedido pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (na foto acima, a entrega do prêmio). 

Mírian entrou na polícia militar em 1981. Por sugestão do pai prestou concurso e passou. Integrou a primeira turma de policiais femininos. De lá para cá, foi lotada em diversos setores da PMMG e nas mais variadas funções. Ousada comprou algumas brigas. Uma delas foi questionar o sistema de promoção dos oficiais. Ou melhor, a falta dele. Mexeu num vespeiro, mas criou um plano de carreira onde as promoções passaram a ser por mérito. Por ter idéias demais seus superiores a mandaram trabalhar nas ruas de Belo Horizonte. Se a intenção era castigar, não deu certo. A rua lhe deu vivência. Mais adiante, percebendo que os colegas ganhavam mal e trabalhavam sob forte estresse, mapeou a tropa e fez o perfil sócio-econômico dos policiais que passaram a ter entre outras coisas, apoio psicológico. Ações que a levaram a direção da Superintendência Central de Modernização Administrativa e a assessoria do Superintendente de Orçamento, da Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral de Minas Gerais.  Quando voltou à polícia foi comandar um batalhão na periferia da capital mineira, divisor de águas em sua vida. 

"Estava com 40 anos, 20 anos de polícia e nunca havia entrado numa favela. No primeiro mês caí em depressão de tanto adolescente que morria. Achei que não teria condições de enfrentar aquela realidade e pedi para sair. Não me tiraram. Então, percebi que tinha dar um jeito naquilo". Decidiu dar palestras nas escolas públicas locais e criou uma estratégia de impacto para atrair a atenção dos jovens. Chegava nos eventos paramentada como o pessoal do batalhão de choque com touca ninja, colete a prova de balas, revólver, cassetete e tirava o uniforme na frente da platéia. Mostrava aos adolescentes que ela era igual a eles e que existiam outras armas capazes de garantir a segurança entre iguais. Conseguiu não apenas aproximar os jovens dos militares como tirar o velho estigma de polícia violenta. Histórias relatadas no livro A Major da PM que tirou a farda escrito por ela e editado pela Quality Mark. 

Não parou por aí. Planejou um concurso de bandas, o Som da Paz, para estimular os jovens da periferia. "Não havia limitação no gênero musical. Podia tocar de tudo, de funk a gospel. Consegui o patrocínio de uma rádio FM e o apoio de bandas famosas de Minas como o Skank, Pato Fu, Jota Quest".  A exposição na mídia incomodou seus superiores e mais uma vez Mírian fui transferida de função. "Eu estava feliz com meu trabalho na favela, mas me mandaram ser assessora de imprensa da polícia". A popularidade entre o pessoal da imprensa que já era grande devido a forma criativa como tratou da violência na periferia, só aumentou. Mesmo em outro cargo ela permaneceu ligada aos antigos projetos como o iniciado com os jovens do Taquaril, região leste de Belo Horizonte. Usando de sua popularidade e contatos com a banda Skank, conseguiu que eles doassem o cachê de um show para a implantação de uma pizzaria para capacitação e geração de trabalho e renda que no início atendeu 15 jovens. "Porque uma pizzaria? Bem, todo sábado ia para a favela e ficava discutindo e sonhando com os meninos alguma coisa que fosse possível construir juntos. Até que vimos que não havia uma pizzaria na favela". A pizzaria fez tanto sucesso que desse projeto surgiu a idéia de instalar uma ONG, o Instituto Pauline Reichstul (IPR), que desde 2003 opera em Minas Gerais. 

Atual subdiretora de Recursos Humanos da PMMG e fellow da Ashoka - organização mundial sem fins lucrativos que apóia o trabalho de empreendedores sociais, Mírian não sossega. Desde junho do ano passado está às voltas com um projeto envolvendo a Academia Musical Orquestra Show da Polícia Militar, visando fortalecer a auto-estima e melhorar o relacionamento interpessoal dos integrantes da corporação. Buscando consolidar a filosofia de que a missão primeira da polícia é a prevenção e, portanto, deve manter contato estreito com a comunidade, dá aulas da disciplina Polícia Comunitária para seus colegas policiais. Mírian comprova na prática que uma outra polícia é possível.

Cinco anos

O carro-chefe do IPR é o programa das pizzarias batizado de Programa Cidadãos Planetários, que em setembro completa cinco anos de bons resultados. O grau de empregabilidade dos jovens beneficiados - na faixa dos 18 aos 28 anos - chega a 60%. Hoje o programa possui duas pizzarias, no Taquaril e no Lagoa, e o Espaço Cultural Planetários, um centro multifuncional de difusão cultural e educacional, no Taquaril. O objetivo é ter quatro pizzarias funcionando até o final de 2008. Todas na periferia da região metropolitana de Belo Horizonte. Mirian conta orgulhosa que as pizzarias tem sido convidadas para participar de feiras, bazares, grandes eventos e se saído muito bem. "O programa é muito gratificante. São jovens que tem sonhos e o empreendedorismo é a realização desses sonhos". 

Num lado não tão claro da vida estão os jovens que se envolveram em problemas com a Justiça e que são atendidos pelo Programa Semi-liberdade. "Através de um convênio com a Secretaria de Estado de Defesa Social, representada pela Subsecretaria de Atendimento às Medidas Sócio-educativas, o IPR mantém duas unidades de cumprimento da medida sócio-educativa de Semi-liberdade. São casas que comportam dez adolescentes cada uma. Lá eles têm apoio jurídico, psicológico, ocupacional e acesso à escolarização. Não é fácil, pois a preocupação da Justiça sempre foi com o preso adulto e somente depois do Estatuto da Criança e do Adolescente passou a dar mais atenção ao infrator jovem. É ainda um longo caminho até a ressocialização". No IPR funciona ainda um Programa de Formação para agentes sociais. "Estamos focados inteiramente nos jovens". 

Originalmente publicada na Revista Plurale

*Jornalista. E-mail: Isabel@capaverde.jor.br