Edição 118 - Aracaju, 05 de outubro a 02 de novembro de 2008
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  ficção
(Des)encontros
Um desvio inesperado e o sombrio  

Por Jeová Santana*

A Nadja, Synara e Cristina Almeida

Chego ao hotel onde minhas amigas estão hospedadas. A região é meio deprê, mas elas não resistiram às informações sobre o charme do hotel, contidas nas memórias recém-lançadas do fotógrafo Márcio Garcez.  Pergunto pela terceira amiga. Fico sabendo que resolveu parar em outra cidade por causa de um “show do Chico”.  Sou apresentado, então, a duas meninas muito novinhas, que devem ser suas filhas. Enquanto o sorriso luminoso de uma das minhas amigas fica suspenso no ar, uma das meninas me pergunta se é “doutorado em educação”, respondo que sim, mas “o mestrado foi em teoria literária”. Ela diz que é formada em alguma coisa que não consigo entender direito. Pela idade, só pode estar me tirando. Minha outra amiga passa a chave do meu quarto, que deixo com a mulher do hotel quando nos dirigimos ao elevador. Mal tenho tempo de fixar o número do apartamento, pergunto pra mulher e ela torce a cara. Dirigimo-nos para o elevador que se mostra muito pequeno. Há algumas pessoas à espera, olhando calmamente as luzes do painel. A mulher do hotel aproveita para deixar o elevador ainda menor colocando nele uma mesa e cadeiras. Tivemos que nos esgueirar. A porta é corrediça e quase não fecha. Daí por que passei ao caminhão de entregas junto com outras pessoas e a mulher do hotel, não entendi até agora. Ela diz algo sobre um antes e um depois a respeito de uma sigla que lembra companhia de trânsito. Agora estica o sorriso esperando o meu que mal se esboça. O caminhão pára e todos descem numa esquina. Sigo sozinho, mas alguns metros mais adiante, aproveito o sinal fechado, debruço-me à janela e pergunto ao ajudante do motorista se estou perto do centro. Quem responde é o motorista, de modo ríspido, dizendo que eu deveria ter descido junto com os outros. Aproveito a deixa e salto da carroceria. Caminho alguns metros e vejo nitidamente uma elevação da qual se avista um morro que lembra o do Cruzeiro, no bairro onde morei quando menino, lindamente verdinho. Não pode ser! Começo a subir por um atalho e vou encontrando nele somente meninos e jovens negros. Caminho com as mãos no bolso com tranqüilidade. De repente, tenho a impressão de que alguém está na minha cola e mudo de lado. De espaço a espaço estão sentados, sem camisa, numa atitude esfíngica, uns meninos reluzentes, que devem ter 15 e 18 anos e seguram uma urupemba sobre os joelhos. Dá para supor o que eles estão vendendo. Subo mais um pouco até um ponto que percebo ser perigoso, ouço umas vozes e resolvo voltar. Uma criança atravessa o caminho. Confundo a entrada por onde entrei, ando mais um pouco e percebo alguns carros da polícia estacionados. Eles têm uma cor azul que acredito nunca ter existido, pois sempre tiveram o preto e o branco como símbolo, daí serem chamados de “Vasquinho” na minha infância. Suponho ter encontrado outra opção de saída, mas diante dela há um barbante no qual estão atados panelas e bules. É irresistível a curiosidade lúdica e infantil de mexer neles para ver que barulho provocam. Volto e consigo achar a brecha por onde cheguei aqui. No meio da descida, sinto uma mão nas costas e a frase “seu blusão está tatuado”. Me volto e dou de cara com um grupo de policiais. O autor da frase certamente é o líder. Explico para ele que estou num hotel, começo a tirar o blusão e ele diz “esses hotéis”, de modo pausado e tranqüilo. Realmente está escrito alguma coisa com letra bem forte. Leio “Consagração final” e não tenho a mínima idéia de como isso foi parar ali. O policial já está com o blusão nas mãos, alisa as palavras, percebo que há um adesivo sobre elas. Nesse instante, deu pra perceber o cabo de revólver no bolso interno onde costumo colocar minhas cadernetas. Não pode ser. O único revólver que peguei na vida foi o Taurus, que está na velha pasta que meu pai deixou recheada de documentos, cartas, postais, apetrechos para barba e unhas. Imaginei que iria ouvir “porte ilegal”, mas o policial-chefe não diz nada. Depois pergunta se uso “conga ou tênis”. Digo-lhe que dou minhas caminhadas no Parque da Água Branca. Não vejo a hora de mostrar a carteirinha da Faculdade, mas penso ter ouvido outro policial dizer “que vai falando sem ser perguntado” e alguma coisa sobre “notebook”. Sinto que suas palavras não têm nada a ver comigo, mas começa a crescer um clamor, uma agonia, que caminha para um staccato que vibrará nas tripas e no coração, depois do adagio que circunda as palavras do oficial, como se tudo de repente estivesse cheio de visgo. A coisa não está pra brincadeira. Se pelo menos o celular tocasse e eu ouvisse a voz de uma das minhas amigas, mas me ponho simplesmente a relembrar o conto do Gabriel García Márquez, no qual um povoado é destruído por uma frase oriunda do vaticínio de uma velhinha; também me sinto inutilmente encafifado por que as pessoas dizem “muita calma nessa hora” sempre com um ar de riso. Talvez uma ou outra dessas lembranças sirva apenas pra suavizar o curso das coisas que se antecipa bastante sombrio.

*Nasceu em Maruim/SE. Graduado em Letras pela Universidade Federal de Sergipe, mestre em Teoria  Literária pela Universidade Estadual de Campinas.  Atualmente é doutorando no Programa de Estudos Pós-Graduados  em Educação: História,  Política, Sociedade da PUC/SP. É autor de Dentro da casca. Aracaju: FUNDESC, 1993; A ossatura. Recife: Ed. do Autor/SESC-SE; Inventário de ranhuras.  Brasília: L.G.E/BNB, 2006. Faz parte da antologia Contos de algibeira. org. Laís Chaffe. Porto Alegre: Casa Verde, 2007. E-mail: jeopoesi@bol.com.br