Edição 120 - Aracaju, 07 de dezembro de 2008 a 04 de janeiro de 2009
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  educação
Notas nem sempre afinadas
A escola segundo a canção popular  

Por Jeová Santana*                                                                              

Entre as instituições criadas pelo homem, a escola é uma das mais intrigantes. Ao se mergulhar na história em busca de informações sobre sua gênese, descobrimos que a forma da  qual somos testemunhas,   ou seja,  como prática obrigatória, sob a vigilância do Estado  é algo recente, vem do século XIX. Além  disso, ela não tem uma ancestralidade institucional.  Outra constatação é que palavras como ideologia e crise fazem parte do seu acervo lingüístico, e em torno em delas foram feitos debates acirrados nas últimas décadas do século XX.  

Hoje parece um consenso que ela deve cumprir duas funções: preparar   crianças e jovens para os embates do futuro sob o aval de uma  profissão e  ocupar, em média,  cerca de vinte anos da vida desses aspirantes a um lugar ao sol, geralmente pertencentes às   classes mais favorecidas.

De uma forma ou de outra a escola não sai de cena. Seja ficando mal na fita quando é estampada em manchetes de jornal por causa da violência intramuros; seja como tema de educadores e cientistas sociais que tentam entender seu funcionamento, suas contradições e como ela deva se ajustar ao mundo moderno, tão marcado por urgências regidas pelas leis do mercado.

Se, por um lado, temos a contribuição do francês Georges Snyderes que, no livro A alegria na escola (1988) apresenta como principio transformador que os alunos tenham contato com “obras de arte, os grandes poemas de amor até as realizações cientificas e técnicas”; por outro, temos o pensamento radical de outro francês, o filósofo Michel Foucault. Em Vigiar e punir (1975) ele colocou a escola na mesma linhagem de hospitais, prisões e asilos. Estas instituições, a seu ver, trabalham com dois mecanismos punitivos: vigilância e controle. A escola repete essas práticas quando pune os alunos e normatiza os conteúdos das disciplinas.

Mas a briga não se dá apenas nos campos sagrados da academia. Neste artigo analisa-se a escola como um lugar de recusa num espaço mais palatável: a canção popular. Em letras dos mais variados gêneros musicais, identificamos três formas de expressão sobre o assunto. Na primeira, a escola é lugar a que se deixou de ir ou do qual se quer fugir. Na segunda, há uma negação absoluta de seus valores. Na terceira, destaca-se algum item do aparato pedagógico: “a professora”, “material didático”, festa escolar”, “amigos” “determinado conteúdo”. Aqui, o discurso tende a ser mais ameno.

No primeiro bloco,  como simbologia da recusa do espaço incluem-se  “Tive que fugir da escola / pra aprender essa lição” (Meu chorinho)  e “Inda garoto deixei de ir à escola” (Até o fim), de Chico Buarque.  A recusa vai da provocação mais sutil em “Diz quem foi que inventou o analfabeto / e ensinou o alfabeto ao professor” (Almanaque) à  referência mais aberta sobre a  perda da inocência, pois   “os moleques do internato”  estão entre os que atazanam  a vida  da prostituta (um travesti na montagem teatral) em Geni e o Zepelim. Nesse caso, o modelo internato representa a escola como lugar punitivo como bem espelha  esses versos de Acertei no milhar, de Geraldo Pereira e Wilson Batista, imortalizados pela irreverência vocal de Moreira da Silva: “E nosso filhos, hein? / – Oh, que inferno! / Eu vou pô-los num colégio interno” [1]  

A perspectiva do afastamento está em  Caetano Veloso:   “Ela pensa em casamento / e eu nunca mais fui à escola” (Alegria, alegria)  e  Lulu Santos. Este em “Faltava abandonar a velha escola” (Último romântico”). O  ícone do pop rock nacional também se posiciona como um  filósofo  mirim ao achar “a vida chata” e projetar outro espaço para o encontro com  arte, pois “os garotos da escola / só a fim de jogar bola” e    ele  “queria tocar guitarra na TV” (Minha vida).

Na classe dos versos radicais destaca-se Escola, do Biquini  Cavadão.  Nela, rejeita-se um discurso corrente: a escola deve preparar para a vida. São muitos versos, todos marcados pela mesma acidez: “Se a escola fosse / preparar pra vida / ao invés de professore, / teria delatores / Se a escola fosse preparar pra vida / ao invés de monitores / teria assassinos.” Eles estão na mesma sintonia de músicas vindas de outras cercanias.

Na vertente internacional estão Alice Cooper, em “Chega de escola no verão / Chega de escola para sempre / A escola tem me deixado em pedaços” (School out)  e outro clássico sobre o tema:  Another brick in the wall,  da banda inglesa Pink Floyd.  Pertencente à trilha sonora do filme Pink Floyd: The Wall,  dirigido por  Alan Parker em 1982, ficou nas retinas o  coro das  crianças da Islington Green School no refrão dos versos “Nós não precisamos de nenhuma educação / Não precisamos de / Nenhum controle de pensamento / Nenhum sarcasmo sombrio na sala de aula / Professores, deixem as crianças em paz”.

Para mostrar a atualidade do tema, há no You Tube um clipe da música Escola, da banda  brasileira intitulada Jacked.  Nela, enfatizam-se as imagens da vida escolar que ficaram na memória:   “Dos tempos de escola / eu não vou esquecer / parceiros de guerra / parceiros de beber / Agora tudo terminou / A minha vida mudou”.  Aqui, pelo menos está salvo o principio da socialização, outra etiqueta fundamental atribuída à escola moderna.  É o mesmo clima que se depreende dos prosaicos versos de MC Marcinho: “Foi na festa da escola que tudo começou / Eu olhei pra ela e ela olhou pra mim” (Festa da escola).   

Quem está fora não quer entrar; quem está dentro quer sair. Esse é o espírito. Nesse assunto, a irreverência de Raul Seixas em parceria com Claudio Roberto não poderia faltar. Sua contribuição é No fundo do quintal da escola.  Para um autor que valorizou tanto o fortalecimento individual, o não aceitar a padronização, a escola é um atrativo temático. Nela, assim como no exemplo de Lulu Santos,  nem o futebol é  motivo de sedução:  “Enquanto você me critica, eu tô no meu caminho / desde aquele tempo enquanto o resto da turma se juntava pra: / jogar bola!/ eu pulava o muro, com Zezinho,  no fundo do quintal da escola”.

Emana tristeza do lugar que deveria ser fonte da alegria como pretende Snyderes.  Imagem que fica bem definida em Malandragem, de Cazuza/Frejat, com a “garotinha” que fica “esperando o ônibus da escola / cansada” com suas “meias três-quartos”. Sensação repetida Carlinhos Brow, que ascendeu dos guetos pobres de Salvador e usa a escola como espaço onde transita    sentimentos amorosos que fogem do  discreto charme dos padrões sociais. Em A namorada, o alvo do desejo é proibido, pois “Tem irmão / Grudado em sua cola / Na porta da escola”.  Aqui temos um jogo semântico interessante pois a  palavra  “cola” foi usada  como gíria,   contrapondo-se ao sentido de artimanha usado pelos estudantes para superar os desafios das avaliações.  

No recorte metonímico, ou seja, o aproveitamento de um componente escolar como fator positivo via memória, alinham-se a “saudade da professorinha / que me ensinou o bê-á-bá”,  de Ataulfo Alves,  em Meus tempos de criança,  e a aula de história no banquete de signos cosidos por  Xangai na letra de Estampas Eucalol. Fundem-se, no mesmo tempo-espaço, “Prometeu”, “minotauro”, “Teseu”, “Monte Olimpo”, “Netuno”, “São Jorge” e “dragão”. Ao fim da viagem, a recompensa do amor: “E voltava trazendo a moça / Com quem ia me casar / Era minha professora / que roubei do rei Lear”. Esta cantada com a tônica na última sílaba “Le-ár”.

Numa vertente mais crítica, mas sem perder o humor, situa-se um dos casais mais estranhos do mundo pop, Eduardo e Mônica, criado por Renato Russo. No balé de antíteses que cerca as duas personagens, do namoro ao casamento, destaca-se a supremacia cultural  e assistemática da menina que  “Gostava do Bandeira e do Bahaus/ de Van Gogh e dos Mutantes, de  Caetano e de Rimbaud”. Mas seu companheiro ainda “(...) estava no esquema ´Escola, cinema, clube e televisão’”. A falta de sintonia com o universo escolar não termina aí. Entre as odisséias domésticas da dupla amorosa há umas férias perdidas,  pois “O filhinho do Eduardo /  está de recuperação”.

Renato Russo também completa o ultimo bloco ao apontar conteúdos escolares de difícil assimilação como em Química. O título, por si só já desperta a atenção, pois é uma das matérias relevantes das chamadas ciências exatas. Mas ela não está sozinha, pois a dificuldade de assimilação dos conteúdos estende-se a outras disciplinas: “Não saco nada de Física / Literatura ou Gramática / Só gosto de Educação Sexual”.

A contribuição do letrista da Legião Urbana para a causa escolar tem boas credenciais. Ora apontando as dificuldades para com a norma gramatical: “Eu canto em português errado / Acho que o imperfeito / Não participa do passado / Troco as pessoas / Troco os pronomes” (Meninos e meninas); ora apontando entre escolher as tarefas escolares ou curtir a  alma encantadora das ruas: “Trancado em casa / Papai já disse, tenho de passar / Passar na porra do vestibular” (Química). Ou ainda tocando no nó da questão sobre os conflitos que pautam escola e sociedade: “A minha escola não tem personagem / A minha escola tem gente de verdade” (Vamos fazer um filme). 

Ainda com relação à apropriação de conteúdos disciplinares, destaca-se  Modifique o verbo, da banda Plebe Rude, criada em Brasília no início  dos anos 80, símbolo do punk-rock brasileiro.São componentes da disciplina Língua Portuguesa o  suporte para reflexões existenciais: “Sim, existe mais de uma opção / O que mudaria o verbo da oração / Logo se vê, advérbio indicando a situação / Define aí validade da ação”.  

Em O caderno, de Toquinho e Mutinho, composta para o disco Casa de brinquedos, em 1983, temos um exemplo mais lírico. Aqui a memória escolar traz para a cena um objeto  que  passa de depositário das vivências escolares para sujeito do discurso. Ele  expõe seu grau de  cumplicidade, seguindo a companheira do     “primeiro rabisco até o bê-á-bá”, nos “desenhos coloridos”,  nos “problemas” e  “provas bimestrais”. A humanização do material didático faz-se de entremeio às mudanças corporais registradas no belíssimo verso “Quando surgirem seus primeiros raios de mulher”. A escola, então, funciona como ritual de passagem já que “a vida segue sempre em frente, o que se há de fazer”.

Tom Jobim, por sua vez, usa conteúdos mais “objetivos” como fonte de criação para Aula de matemática. Tida como um bicho-papão no currículo escolar,  a  ciência dos números, cujos primeiros registros datam de 3.500 a.C. entre egípcios e babilônicos,  ajuda o compositor a tentar decifrar  o quebra-cabeça do amor. Para isso, ele usa com maestria conceitos caros à disciplina:  “Pra que dividir sem raciocinar / na vida sempre é bom multiplicar”. Alinhavando “fração infinitesimal”, “teorema”, “fração” consegue dar um efeito poético singular   ao usar a imagem das “paralelas” como metáfora para um dos sentimentos mais caros da condição humana: “Se vão as paralelas /  ao infinito se encontrar / por que demoram tanto os corações a se integrar?”.

A letra ainda pode usada para outra “beberagem pedagógica” que atravessa nossos tempos: a interdisciplinaridade.  Matemática e Português dão-se as mãos, pois os advérbios em mente ampliam a dimensão do infinito contida  nas  “paralelas”, além de  responderem à indagação dos versos anteriores: “Se infinitivamente, incomensuravelmente / se estou perdidamente apaixonado por você”.

Se a escola às vezes é retratada em situações não muito confortáveis, fiquemos pelo menos com o consolo de Noel Rosa, o chamado “filósofo do samba”,   quando escreveu que  “ Batuque é um privilégio / Ninguém  aprende samba no colégio” (Feitio de oração).  Enquanto ainda se discute sobre o papel dessa instituição na sociedade, pelo menos os relatos, das experiências vividas em salas, pátios e corredores, tem rendido um material substantivo, com  resultados estéticos distintos, nos escaninhos da arte  musical.  Ainda bem.       

Artigo originalmente publicado na revista Língua Portuguesa.

*Professor  na rede estadual de ensino em Aracaju e  na Universidade Estadual de Alagoas. É autor de Dentro da casca (FUNDESC: 1993), A ossatura (SESC-SE/Ed. do Autor: 2002) e Inventário de ranhuras (BNB/LGE: 2006). Integra a coletânea Contos de algibeira (Casa Verde: 2007). Atualmente é doutorando no Programa de Estudos Pós-Graduados: História, Política e Sociedade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.  E-mail: jeopoesi@bol.com.br