Edição 105 - Aracaju,  02 de setembro a 07 de outubro de 2007
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  reportagem
Mestre dos mares
A técnica e a sabedoria do maior matador de peixes do Brasil

Texto e fotos: João Wainer*

Saindo diariamente do cais de Itajaí, em Santa Catarina, centenas de máquinas de matar peixe ganham as águas de Iemanjá em busca dos cardumes que enchem a barriga do povo e o bolso gordo dos empresários da pesca.

Pescaria hoje em dia não é mais como antigamente. Canoas e traineiras artesanais foram substituídas por enormes barcos de aço, o faro do pescador deu lugar a modernos radares e sonares, remos e velas deram lugar a turbinados motores e o braço caiçara foi trocado por guindastes e guinchos elétricos. A tecnologia chegou para ficar e, como de costume, atropelou sem se dar conta uma cultura tradicional milenar.

O inverno chegou forte naquela semana de maio. Estacionei na empresa pesqueira depois de sete horas de estrada e desci do carro com as costas doendo. Estou indo conhecer o cara que, de acordo com nove entre dez pescadores, é o maior matador de peixes do país. Um caiçara de Imbituba que fez fortuna aprendendo a combinar técnicas da pesca moderna com a sabedoria dos antigos, uma lenda viva que atende pelo estranho apelido de “Pão de Milho”.

Entrei no galpão e vi uma esteira mecânica que levava peixe do porão de um grande barco direto para o freezer. Um sujeito magro, ruivo e baixo vestindo camisa social, botas de borracha sobre a calça de linho e uma malha de lã azul marinho observava tudo de perto. No barco lia-se o nome “Vô Chico VI” e bordado na malha do sujeito estava escrito “Pão de Milho”.

O mestre de nome estranho me recebeu e conduziu até o barco. Mostrou a embarcação como quem apresenta sua casa. A temporada de pesca já começou e não há tempo a perder. Eles haviam chegado naquele dia de manhã para descarregar o peixe da viagem anterior e precisavam voltar para o mar o mais rápido possível.

Um beliche estreito onde só se cabe deitado será minha cama nos próximos quinze dias. Joguei o saco de dormir sobre o colchonete e encaixei minha mochila no canto estreito da cama enquanto o contra-mestre já aquecia os motores. Nosso alvo nessa viagem é um peixe saboroso e valioso, que carrega dentro de sua barriga um verdadeiro tesouro escondido. A tainha.

No oriente, a ova de tainha é considerada uma iguaria raríssima e os japoneses pagam fortunas por cada quilo que compram. Isso faz com que centenas de barcos se digladiem diariamente entre abril e julho, caçando como piratas modernos os verdadeiros tesouros vivos que se movem pelo fundo do mar.

Netuno parecia nervoso naquela quarta à noite. O barco saiu de Itajaí em meio a uma tempestade forte. Ondas grandes balançavam o “Vô Chico VI” que subia e descia como montanha russa. Os 18 tripulantes trabalhavam forte desde a partida. Nem bem partimos e na cabine de comando o mestre já estava de olho no sonar. “Nunca se sabe onde está o cardume, quando estou no mar não relaxo nem um minuto”, dizia ele.

E era verdade. Menos de quatro horas depois da partida “Pão de Milho” deu um pulo da cadeira. Viu uma mancha rosa na tela do sonar e imediatamente o barco foi atrás dela. “É tainha”, disse ele com a certeza de quem faz isso desde sempre.

Como num balé, cada marinheiro sabia exatamente o que fazer. Cada um vestiu a roupa de borracha, a bota e em poucos segundos tomaram seus postos. Estava escuro, chovia forte e o barulho do motor não deixava que se escutasse muita coisa. Nem precisava. Aquela equipe, considerada a melhor do país, tem tanta experiência que as palavras se tornaram desnecessárias.

Estava tudo preparado. A enorme rede pronta pra ir ao mar pela primeira vez naquela viagem. O barco se aproximou do cardume. Dava pra ver a adrenalina nos olhos de “Pão de Milho”. Haviam outras quatro traineiras perseguindo o mesmo cardume e só uma delas iria dar o lance certeiro. É nessa hora que vale a experiência do comandante. Navegando devagar, o contra-mestre Vavá pilotava sob as ordens firmes do mestre “Pão de Milho”. Em alguns momentos os barcos quase se chocavam. Silêncio no ar. O cardume chegou perto e finalmente veio o grito esperado: “Olha a rede!”.

Essa é a senha que a tripulação esperava. A dança dos pescadores atingiu seu auge enquanto o suor e a chuva pingavam do rosto tenso dos trabalhadores. Centenas de metros de rede presos ao barco são lançados ao mar enquanto o piloto faz um movimento de 360 graus em volta do cardume. Quando o circulo se fecha e as duas pontas da rede se encontram, significa que a casa caiu para os cardume, que agora está cercado e sem saída. O destino daqueles animais agora está traçado. Sua carne vai para a mesa dos brasileiros e a ova das fêmeas vai virar comida de japonês. Não há mais nada a ser feito.

“Tem umas 10 toneladas de peixe aí”, afirmou o mestre coçando a cabeça enquanto um enorme sarico puxado por um guincho mergulha no mar e sai cheio de tainha, que são despejadas ainda vivas no porão gelado da embarcação. É mais peixe do que eu já tinha visto em toda a minha vida. O barulho das tainhas se debatendo é ensurdecedor e lembra aplausos de uma platéia ao final de um show empolgante. Mal havíamos saído do porto e já haviam 20 mil quilos de peixe no porão. As outras traineiras saíram de cena. Já estão acostumadas a perder para o “Pão de Milho”. A eles só resta ir embora e tentar achar outro cardume, de preferência bem longe do mestre dos mares.

Na madrugada, depois do trabalho, os tripulantes finalmente relaxaram. Alguns jogavam cartas, outros assistiam ao corujão em uma pequena TV pegando mal instalada na cabine. Um cheiro forte de comida boa vinha da cozinha. Zinho, o cozinheiro, tem papel fundamental na tripulação. Alimentar dezoito homens por quinze dias no mar é tarefa dura. Se a comida for ruim, ninguém trabalha direito, e ainda por cima rapidinho eles organizam um motim.

Fui deitar com aquelas imagens na cabeça. O barulho do motor atrapalhava, mas o balanço das ondas ajudava o sono a vir. Quando finalmente adormeci, o grito de “Olha a rede!” me trouxe de volta para a realidade. Nem havia clareado e o mestre que não relaxa já havia encontrado outro cardume. Começou tudo de novo, exatamente igual a outra vez.

Foi assim por vários dias. Uns mais calmos, outros mais agitados na pegada que acabou virando rotina. Os gritos de “Olha a rede!” me pegavam cada vez menos de surpresa e a cada novo cerco eu arrumava um angulo novo para fotografar.

Pão de Milho me surpreendia diariamente com seu faro pesqueiro. Na cabine de comando, ouvimos uma conversa entre dois mestres de outros barcos. Um dizia para o outro que havia visto algumas tainhas pularem perto da Ilha do Mel no Paraná. “Mas é coisa pouca, não vale a pena nem lançar a rede”, disse um deles fazendo pouco caso daquele peixe. “Coisa pouca nada”, retrucou o Pão de Milho. “Esse cardume está no fundo mas quando a frente fria passar e o mar acalmar esse peixe vai boiar umas cinqüenta milhas pra frente. Pela direção da maré e velocidade do cardume, se tocarmos pro norte vamos achá-los no meio do caminho bem na hora que a frente fria passar” profetizou o mestre.

Navegamos doze horas, o tempo acalmou e a mancha rosa apareceu no sonar no lugar previsto. Aquele cardume que foi desdenhado pelos outros mestres era o maior que apareceu naquela viagem. Não haviam outros barcos em volta e ficou fácil cercá-los. A rede foi lançada. O sorriso no rosto do mestre indicava que a experiência e o instinto tinham funcionado mais uma vez. Numa tacada só, foram oitenta toneladas de tainha para dentro do porão. Não era à toa que o nome “Pão de Milho”, apelido de infância do mestre, graças ao cabelo arruivado e as sardas, é conhecido em qualquer cais da costa brasileira.

A tripulação eufórica trabalhava arduamente, pois sabia que o percentual do lucro de cada um seria alto naquela viagem. O barco entupido de peixe seguiu viagem de volta para Santa Catarina. Depois daquele lance não havia espaço para mais nada no fundo do “Vô Chico II” e era hora de voltar. Era tanto peso que o casco vinha afundado na água. O clima de alegria naquele barco contrastava com o de tristeza que encontrei dois meses depois, quando fui fotografar a pesca artesanal em Ubatuba, cerca de mil quilômetros longe dali.

A tainha que antigamente era farta na região hoje não existe mais. Seu Dico, pescador antigo, reclama enquanto arrasta a canoa na beira da praia do Almada. “O peixe vem do Uruguai, e as traineiras do sul não deixam mais que elas cheguem até aqui. A pesca pra nós esta acabando. Cresci comendo tainha e agora ela não chega mais. Eu tenho neto que nunca viu uma”, diz o pescador resignado indo para o mar. “Hoje se eu voltar com o almoço já estou feliz”, completa.

Seu Dico pesca do mesmo modo que seu pai, que pescava como seu avô, que aprendeu com seu bisavô, que deve ter aprendido com os índios tupinambás. Fora a luz elétrica, o turismo e alguns confortos da vida pouca coisa mudou naquela vila. Em compensação no resto do mundo, a vitória do capitalismo justificou o pensamento egoísta de que cada um é responsável só pelo seu. A tecnologia ajuda quem pode pagar por ela e atropela os mais fracos sem dó nem piedade. Vivenciar as duas realidades da pesca em tão pouco tempo deu um nó na minha cabeça. O que podemos fazer? Não sei. Essa porra de mundo sempre foi injusto mesmo.

*Fotojornalista. E-mail: joaowainer@uol.com.br Reportagem originalmente publicada no blog O Tranca Rua.