Edição 110 - Aracaju, 17 de fevereiro a 16 de março de 2008
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  metrópole
A nova senzala
A vida dos bolivianos em São Paulo

Texto e foto João Wainer* 

O bairro do Bom Retiro já foi dos judeus, mas hoje é dos coreanos. Onde se viam barbas longas, chapéus pretos, cachos e quipás hoje se vêem olhos puxados e letras esquisitas.

Os coreanos são ricos. Compram as lucrativas lojas do Brás e escravizam os bolivianos, que por serem em sua maioria clandestinos, trabalham como costureiros nos subsolos do bairro em troca de casa e comida garantindo o preço baixo e o lucro alto dos coreanos, como revelou a grande reportagem (acesso exclusivo para assinantes) de Antônio Gaudério na Folha.

O Brás é a senzala e o Bom Retiro a casa-grande. Clandestinos não são cidadãos e portanto não tem direitos. Na pirâmide social estão abaixo dos miseráveis, são piores que os mais pobres dos brasileiros. Um mendigo vale mais que um clandestino.

É uma novela perversa em que os brasileiros passam longe, como se estivessem apenas assistindo a um filme gringo sobre Chinatown.

Todo mundo sabe que a senzala funciona nos subsolos das confecções do Brás, todos os dias das sete às dez, menos aos domingos e nenhuma autoridade brasileira faz nada. Fingem que não é com eles. Além do mais, os bolivianos são pobres e os coreanos são ricos e cheios de amor e propina pra dar. Todo mundo fica feliz enquanto os bolivianos se fodem.

Cento e dez anos depois da abolição da escravidão os tradicionais bairros dos imigrantes mudaram de mão e um dos mais desprezíveis crimes da humanidade se transformou em rotina.

Os judeus que antes moravam no Bom Retiro se mudaram pra Higienópolis. Pra onde irão os coreanos quando ficarem milionários?

*Repórter-fotógrafico. E-mail: joaowainer@uol.com.br Originalmente publicado no blog O Tranca Rua.