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Literatura
Beleza e feiúra
Por
Júlia Gaspar*
“Quem ama o feio, bonito lhe
parece”. Esse ditado popular mostra a fragilidade das aparências, essa
carcaça que muitos juram que engana, enquanto outros por ela sentem
obsessão. De uma coisa ninguém discorda, é muito mais fácil amar o amável
e belo. Mas o que é ser belo? O que é ser feio? São apenas imposições
incorporadas desde a infância, que dificultam o amor verdadeiro, a amizade
sincera e a atração espontânea. Quem inventou a beleza esqueceu de
inventar a sinceridade.
Eu conheci um homem que se esconde numa
camisa de botão sempre azul. Talvez ele goste dessa cor, talvez ele
queira me transmitir os possíveis fluidos azuis, como tranqüilidade, paz e
serenidade, mas eu acho que ele prefere não se mostrar em outras cores. O
que ele não imagina é que seus olhos (apesar de pequenos) falam no
silêncio. E o desconhecido torna-se temeroso por refletir a feiúra que há
em
mim. Eu, que tenho o péssimo hábito de me mostrar apenas bela, sinto o
feio transbordar pelos meus poros. E sou obrigada a admitir e implorar
“sim eu sou feia, mas não conta pra ninguém, tenho medo de não ser amada”.
Saio de perto dele e volto à minha moldura
de mulher bela e serena, expondo o sorriso que aprendi. E aí, tenho que
me dizer falsa. Dentro de mim há um turbilhão de feiúra disfarçada. Mas
o homem da camisa de botão sempre azul também me esconde seu verdadeiro
interior, isso faz com que eu não me sinta sozinha, o que não diminui o
meu pecado. Mas o que é pecado? O disfarce não pode ser pecado, quando a
verdade incomoda.
Somos seguidores de padrões
estabelecidos. E o homem da camisa de botão sempre azul talvez queira me
encaixar nesses moldes. E eu lhe pergunto: por que ir ao cinema em grupo?
Por que sorrir fechando os olhos? Por que beijar sem fazer barulho? Por
que chorar pede um copo d´água com açúcar? Por que as pessoas precisam de
um nome, se têm tantas denominações?
Ele não responde. Continua com o olhar de
espelho, que me mostra feia. Mas quando discordei dele, ouvi um estalar
de dedos. Ele poderia estar dizendo: “eureca”, mas acho que, na verdade,
ele não queria ser contrariado. Afinal, ninguém quer. Eu só disse a ele
que, apesar de diferente e fora dos padrões, eu posso ser bela também.
Por favor, homem da camisa de botão sempre
azul, não me encaixe em modelos e estatísticas! Para toda regra há
exceção, se existe a exceção da regra, não há regra. O que chama belo
pode ser feio, o que chama feio pode ser esconderijo de tristeza, o que
chama triste pode ser saudade, o que chama saudade pode ser solidão, que
para mim é tranqüilidade, mas o homem da camisa de botão sempre azul não
acha. Ele quer me convencer que o isolamento é um erro. Talvez por isso,
nas nossas conversas tenham sempre duas cadeiras a mais, uma para colocar
as bolsas e a outra para um eventual convidado. Eu não concordo com a
presença de outras pessoas, mas ele só me quer com essas cadeiras que
parecem esperar alguém. Então, eu cedo às suas imposições. Ele tarda e
me manda embora. Eu pago e levanto do divã. Será que minha feiúra tem
cura?
*Jornalista e poetisa
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