Webjornal - Mensal  - Edição 100 - Aracaju, 08 de abril a 06 de maio  de 2007
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Literatura

Beleza e feiúra

Por Júlia Gaspar*

Quem ama o feio, bonito lhe parece”.  Esse ditado popular mostra a fragilidade das aparências, essa carcaça que muitos juram que engana, enquanto outros por ela sentem obsessão.  De uma coisa ninguém discorda, é muito mais fácil amar o amável e belo.  Mas o que é ser belo?  O que é ser feio?  São apenas imposições incorporadas desde a infância, que dificultam o amor verdadeiro, a amizade sincera e a atração espontânea.  Quem inventou a beleza esqueceu de inventar a sinceridade.

Eu conheci um homem que se esconde numa camisa de botão sempre azul.  Talvez ele goste dessa cor, talvez ele queira me transmitir os possíveis fluidos azuis, como tranqüilidade, paz e serenidade, mas eu acho que ele prefere não se mostrar em outras cores.  O que ele não imagina é que seus olhos (apesar de pequenos) falam no silêncio.  E o desconhecido torna-se temeroso por refletir a feiúra que há em mim. Eu, que tenho o péssimo hábito de me mostrar apenas bela, sinto o feio transbordar pelos meus poros.  E sou obrigada a admitir e implorar “sim eu sou feia, mas não conta pra ninguém, tenho medo de não ser amada”.

Saio de perto dele e volto à minha moldura de mulher bela e serena, expondo o sorriso que aprendi.  E aí, tenho que me dizer falsa.  Dentro de mim há um turbilhão de feiúra disfarçada.  Mas o homem da camisa de botão sempre azul também me esconde seu verdadeiro interior, isso faz com que eu não me sinta sozinha, o que não diminui o meu pecado.  Mas o que é pecado?  O disfarce não pode ser pecado, quando a verdade incomoda.

Somos seguidores de padrões estabelecidos.  E o homem da camisa de botão sempre azul talvez queira me encaixar nesses moldes. E eu lhe pergunto: por que ir ao cinema em grupo?  Por que sorrir fechando os olhos? Por que beijar sem fazer barulho? Por que chorar pede um copo d´água com açúcar? Por que as pessoas precisam de um nome, se têm tantas denominações?

Ele não responde.  Continua com o olhar de espelho, que me mostra feia.  Mas quando discordei dele, ouvi um estalar de dedos.  Ele poderia estar dizendo: “eureca”, mas acho que, na verdade, ele não queria ser contrariado.  Afinal, ninguém quer.  Eu só disse a ele que, apesar de diferente e fora dos padrões, eu posso ser bela também.

Por favor, homem da camisa de botão sempre azul, não me encaixe em modelos e estatísticas!  Para toda regra há exceção, se existe a exceção da regra, não há regra.  O que chama belo pode ser feio, o que chama feio pode ser esconderijo de tristeza, o que chama triste pode ser saudade, o que chama saudade pode ser solidão, que para mim é tranqüilidade, mas o homem da camisa de botão sempre azul não acha.  Ele quer me convencer que o isolamento é um erro.  Talvez por isso, nas nossas conversas tenham sempre duas cadeiras a mais, uma para colocar as bolsas e a outra para um eventual convidado.  Eu não concordo com a presença de outras pessoas, mas ele só me quer com essas cadeiras que parecem esperar alguém.  Então, eu cedo às suas imposições.  Ele tarda e me manda embora.  Eu pago e levanto do divã.  Será que minha feiúra tem cura?

*Jornalista e poetisa 

                                 

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