Edição 101 - Aracaju, 13 de maio a 10 de junho de 2007
_______________________________________________________________________________________________________________


 

  Sedução à margem
Maria Alice, seus filhos, seus clientes e o boto

Júlia Gaspar*

É noite. Maria Alice se enfeita com pó de arroz e batom. Aumenta os cílios e aperta as bochechas até ficarem rosadas. Com um soutien de arame, arma os seios. De saia rodada, passeia pelas ruas, ensaiando gargalhadas extrovertidas.

Ela sorri para os carros que passam, como se estivesse desenhado um semblante bonito. Parou o primeiro, só queria assoviar de perto. Parou o segundo, não quis mostrar dinheiro. O terceiro mandou que entrasse no carro sem olhar nos olhos, mas é assim que ela prefere, foi com o terceiro.

Terminou o serviço ainda era madrugada. Teve um quarto. Um quinto teve a ousadia de olhá-la nos olhos e suplicar amor, rejeitou. O sexto quis pagar bem e ela aceitou.  Terminou o serviço já era de manhã. Foi pra casa.

Sete filhos a esperavam. Para o mais novo, ainda leite materno. Enquanto embalava o pequeno, os outros seis se viravam para ganhar a vida. Depois que largar o peito, o caçula também terá a mesma sorte.

A noite cai. Maria Alice se apronta. Maquiagem, soutien de arame e saia rodada. Desta vez, terminou o serviço antes da meia-noite. Tentou outros ganhos, mas foi negada várias vezes. Não costuma se envolver em serviço, mas, naquela noite, se sentiu abandonada. Já fora desprezada outras vezes, mas desta vez a dor latejava diferente.

Não quis ir para casa acalentar os filhos que choram. Foi trocar lágrimas na beira de um rio. Chorou com tanta força, que parecia esvaziar por dentro. Suas lágrimas fizeram o rio vazar. No auge do pranto tanta água passou pela margem, que uma enorme onda se fez. Onda de rio não deixa espuma, mas quando estoura arde como surra.

Maria Alice se agarrou ao primeiro vulto que passara por ela. Esse encontro foi tão aconchegante, que adormeceu. Acordou sozinha, mas sua pele tinha cheiro de boto e seu corpo estava nu e solitário. Ela não lembrava de mais nada, apenas dos olhos que brilhavam feito raio de sol e de um sorriso moleque.

Abandonou tudo. Casa, filhos e clientes. Passava as noites à margem do rio, mas seu amado só aparecia quando ela chorava de saudades. Seus soluços pareciam cantiga de roda e ele aparecia dançando feito menino faceiro. Antes do primeiro raiar do sol, virava boto outra vez.

Mas esse encantamento era apenas na lua cheia. Na lua nova e na crescente não saía da água. O que Maria Alice não esperava era do acontecimento na lua minguante: o boto vira beija-flor e sobe aos céus. Ela não gostou. Teve medo e fugiu.

Correu tanto que voou. Foi aos céus, furou nuvens e procurou Deus. Estava brava. Chamou, gritou, esbravejou. Ninguém apareceu. Urrou até perder a voz. Não se sabe se ela, de fato, perdeu a voz, ou desistiu de falar.

Maria Alice emudeceu e não tentava emitir sons. Contemplava o silêncio e andava sem fazer barulho. Se quer espirrava ou tossia.

Deitou numa nuvem e ficou imóvel como quem morre, mas, no fundo do peito, esperava por alguém. Talvez por Deus, talvez por alguém que tocasse sua alma até sentir vontade de falar novamente, talvez pelo seu boto, que virara beija-flor, por quem largou tudo e de quem fugiu com tanto desespero até mudar a si.

Maria Alice sentiu saudades do seu peixe-ave. Tocou o rosto, estava triste. Passou as mãos nos lábios, quis beijar. Lembrou. Sorriu com leveza, como não fazia desde a infância, apertou os dedos e quis voltar a terra.

Caiu num tombo grosseiro, como quem leva uma rasteira do tempo de tirar a inocência das ilusões.

Ainda era noite de lua minguante. Avistou seu beija-flor. Ele se aproximou, cheirou as rosas, sem indagar, sem trazer nada e partiu sem despedidas. Deixou cair o pólen, como quem não dá importância. Não, ele não fazia questão do que foi dado pela rosa num encontro rápido e sem churumelas.

Maria Alice se sentiu enganada, esperava mais. Mas não foi o seu amado quem a enganou. Afinal, ele era como ela, não dizia. E, no encontro, estava tão cheia de encantamento que não reparou na expressão do seu bem querer, que foi embora pra sempre.

Nunca mais voltou, virou lembrança, virou saudade, virou suspiro, virou soluço.

Quando cansou de esperar na margem do rio e recomeçou a andar, o corpo pesava, os seios cresciam, o útero esticava, um coração em seu ventre batia. E batia tão rápido que Maria Alice não entendia se o que havia dentro de si era pedaço de gente, mergulhos de peixe ou asas de beija-flor, que, agitadas, estremeciam.

*Jornalista e escritora. E-mail: gaspar.julia@gmail.com