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conto O mistério do não dito No gesto final de Carolina, uma surpresa Júlia Gaspar* Carolina arruma os óculos, abre seu baú e procura sua história repartida e sufocada. Ao lado do baú está toda segunda-feira um moço calmo que escuta. A cada segunda-feira um sentimento é remexido, enquanto o moço calmo que escuta repara os olhos de Carolina, que os protege com os óculos e continua procurando em seu baú. Certa segunda-feira, ela achou um guarda-chuva de papel. O moço calmo que escuta a ouviu dizer que era útil em dias de tempestade e calou com olhar firme. Carolina explicou que o papel molhado fica mais forte depois que seca e comprovou sua utilidade. Outra segunda-feira, Carolina encarou os olhos miúdos do moço calmo que escuta para tentar descobrir algum segredo. E ele deixou escapar um brilho de sorriso, desses que acontecem quando os olhos ficam mais puxadinhos, depois de uma felicidade. Carolina pegou esse brilho de sorriso sem que ele percebesse e guardou em seu baú, num cantinho que ele não pudesse ver que, em seu mundo, havia um pedacinho dele. Teve uma segunda-feira que Carolina quis abraçar o moço calmo que escuta, mas teve receio. Afinal, ele estava ao lado do seu baú apenas para escutá-la, por isso seu nome era “moço calmo que escuta”. Depois desse dia, Carolina quis mudar o nome dele algumas vezes. Fez pesquisas de nomes mais recíprocos, que pudessem falar de si também. Mas o moço calmo que escuta não os aceitou, parecia conformado com sua predestinação. Numa segunda-feira, Carolina tirou um batom e um perfume do seu baú. Fez-se bela e cheirosa para o moço calmo que escuta. Nessa segunda-feira, Carolina percebeu que o moço calmo que escuta era cego e algemado. Nunca a enxergaria ou tocaria, estava ali apenas para escutá-la. Carolina pensou em nunca mais abrir o seu baú às segundas-feiras, mas na semana seguinte, estava ela com o seu baú aberto novamente. As outras segundas-feiras sucederam normalmente, ora o moço calmo que escuta pergunta sobre algo do baú, ora Carolina escolhe o que mostrar. Houve segundas-feiras em que o baú ficou trancado. Carolina apertava as chaves do baú com força e se negava a abri-lo, enquanto tentava descobrir os anseios do moço calmo que escuta. Não conseguia, o baú dele era escondido demais, Carolina nunca conseguiu encontrar. Desistiu, mas passou a tentar tirar-lhe as algemas e curar-lhe da cegueira. Tentou as chaves mais bonitas e sofisticadas e os colírios mais caros e famosos. Nada funcionou. Um dia que não era segunda-feira, portanto o moço calmo que escuta não estava por perto, Carolina abriu o baú. Achou uma nuvem de algodão, desses de passar remédio e curar ferida. Dentro dela havia uma chave de espessura parecida com a fechadura das algemas do moço calmo que escuta. Num cantinho do baú, Carolina reparou que o brilho de sorriso que havia escapado dos olhos do moço calmo que escuta permanecia iluminado dentro de um suspiro de açúcar, desses que a gente leva ao forno pra ganhar consistência. Carolina tinha, talvez, a solução para o moço calmo que escuta tocá-la e olhá-la. Mas não teve coragem de arriscar se aquela chave abriria as algemas e se o brilho de sorriso lhe devolveria a visão. As outras segundas-feiras tiveram um ar de mistério. Carolina disfarçando as chaves e o brilho de sorriso que tirara do baú e guardara no bolso. E o moço calmo que escuta, fingindo ser cego, sem saber que a fechadura de suas algemas nunca esteve trancada. *Jornalista e escritora. E-mail: gaspar.julia@gmail.com |