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conto Confiança repartida Nâo existe quem seja inteiro Júlia Gaspar* Não existe quem seja inteiro. Todos têm pedaços espalhados por aí. Eu conheci uma menina que era dividida por três. Janaína era o nome dela. No tempo em que era inteira, costumava imitar um menino e cuidar de uma menininha. O menino era Igor. Ele costumava brigar com Janaína quando a casa estava vazia, mas era só para convencê-la de que não estavam sozinhos. Ele fazia desenhos feios e bonitos que contavam histórias ruins e boas, mas eram sempre histórias do mundo deles. Às vezes ele fingia que era monstro para assustar Janaína, que adorava vê-lo com os olhos daquele jeito engraçado, mas nunca conseguiu fazer igual. A menininha era Amanda. Ela gostava de chupeta e de bonecas. Chorava quando os adultos saíam, mas gostava do Igor e da Janaína. Igor fingia ser personagens para ela, que ria alto, enquanto Janaína preparava sua cama, sua comida, seu banho. Ela não gostava de shampoo, mas confiava que Janaína não deixaria cair espuma em seus olhos. Os três eram um. Igor brincava de armadilhas com Janaína, mas sempre a segurava quando iria cair. Janaína adorava aquele abraço de quem foi salva de um abismo de almofadas por seu herói. Amanda ansiava pelas brincadeiras agitadas com Igor, que contava para ela histórias incríveis de personagens impossíveis. Mas era para Janaína que Amanda perguntava sobre o Papai Noel e pedia proteção contra o sapo que a esperava no quintal. Igor e Janaína caçavam gafanhotos juntos. A missão era levá-los para a cidade grande para torná-los mais selvagens. Um dia, estavam na cozinha, fazendo furinhos no pote de gafanhotos, para que eles respirassem, quando estourou a panela de pressão. Mas Igor, o herói, estava na frente de Janaína, protegendo-a de todo aquele feijão fervente como escudo. Numa noite, Igor foi embora com malas grandes. Janaína e Amanda o abraçaram e nunca esqueceram daquele perfume de herói perdido. Para cada uma ele deixou uma foto com um bilhete. Para elas, é como se o tempo tivesse parado e ele não tivesse envelhecido. Janaína deu a ele uma foto deles de quando eram bem pequenos, mas acredita que ele a tenha perdido, como se perdem as coisas que se pedem para esquecer. Ele partiu, como se parte uma corrente, como se quebra um diamante, como se rasga um diário. Igor foi o primeiro despedaço. Dizem que ele não volta mais, como quando se revela um segredo importante. Mas Janaína não acredita que ele tenha se desmanchado do resto do pedaço, como se desmancham os segredos depois de contados. Ela ainda o espera. Ela ainda o procura. Embora tenha crescido, não aceita a dificuldade de colar um pedaço quebrado. O resto do pedaço continuou forte, apesar de sangrado e diminuído. Janaína e Amanda até inventaram um dia para celebrar o pedaço inteiro de três partes. Janaína brincava de mágica com Amanda para o cotidiano parecer mais interessante e cuidava para que ela não ficasse sozinha em casa e se sentisse desprotegida. Mas era chegada a hora de mais um despedaço. Janaína partiu. Como Amanda se sentiu só ela saberia e nunca contaria. Amanda não é dessas que falam de si, prefere máscaras mais divertidas e sorridentes, como as que Igor usava para brincar com ela de Emília e Juca Limão, esquecendo as dores e retalhos que a vida trás. Dizem que Amanda virou mulher. Mas Janaína só a enxerga como uma menininha que precisa de proteção. Dizem que Janaína tomou o próprio rumo, mas ainda encontra-se perdida, sem saber onde seus passos vão chegar. Talvez numa floresta com cheiro de verde que acolhe. Talvez numa cachoeira fria, que arrepia e limpa a pele. Mas, por enquanto, Janaína é como um tronco de árvore num mar agitado. Vai pra lá e pra cá. Por vezes é porto seguro de quem precisa de ajuda entre ondas bravias, outras vezes é apenas um toco solitário, num oceano imprevisível. Mas será sempre 1/3 de um pedaço robusto, repartido e sangrado, que faz parte de uma história, que começou há anos atrás. *Jornalista e escritora. E-mail: gaspar.julia@gmail.com |