Edição 105 - Aracaju,  02 de setembro a 07 de outubro de 2007
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  poesia
O motivo do diferente
Queremos o que é outro

Por Júlia Gaspar*


Porque você é preto e eu não sou branca.

Porque você é gordo e eu não sou magra.

Mas no espelho me vejo flácida, com curvas, rugas e quelóides de cicatrizes.

E nesses caminhos que se fazem com o tempo os suores do cansaço e do medo dançam um tchá-tchá-tchá, debochando da minha carcaça.

Na missão de ser diferente de ti, perco-me.

Porque você é preto, mas desbota sob olhares desconhecidos.

E na tentativa de ser branca me igualo a ti pelos olhares alheios.

Então me mostro preta e não identifico minhas raízes.

Procuro uma cor para tornar-me.

Nessa busca, cá estou cinza.

Mas não digo um cinza que puxe para o prata.

Digo aquele cinza de quem queimou e doeu.

Ou de quem quis apagar um segredo e tocou fogo.

Ou ainda de quem tentou a purificação na fogueira e acinzentou-se.

Aproveito que ainda estou em brasa para tomar satisfação do motivo das cores.

Se nem todos os olhos têm cores que brilham, qual o motivo dos que não as têm?

Buscar uma nova cor para sê-la ou procurar um brilho que tempere a visão?

O que é ser uma cor se o cheiro é o que revela?

Revela o puro, o puto, o doce, o amargo, o acabado e o mal amado.

Mas a cor mente o que há e rotula o bom e o ruim.

Porque você não é preto, nem é branco.

Porque eu não sou branca, nem sou preta.

Porque nós somos pele, carne, osso e sangue.

E o nosso cheiro faz lembrar um ao outro.

Então nos negamos.  Porque não nos queremos.

Sim, queremos o que é outro.

E que nem parece ser pele, carne, osso e sangue.

Porque parece não doer.

O outro não grita, canta.

O outro não chora, lava.

O outro sequer tem prantos, ele planta e espera.

Mas eu e você temos cores.

Isso nos torna brancos, pretos, cinzas, doentes e cegos.

Enquanto o outro é brilho.

*Jornalista e escritora. E-mail: gaspar.julia@gmail.com