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poesia O motivo do diferente Queremos o que é outro Por Júlia Gaspar*
Porque você é gordo e eu não sou magra. Mas no espelho me vejo flácida, com curvas, rugas e quelóides de cicatrizes. E nesses caminhos que se fazem com o tempo os suores do cansaço e do medo dançam um tchá-tchá-tchá, debochando da minha carcaça. Na missão de ser diferente de ti, perco-me. Porque você é preto, mas desbota sob olhares desconhecidos. E na tentativa de ser branca me igualo a ti pelos olhares alheios. Então me mostro preta e não identifico minhas raízes. Procuro uma cor para tornar-me. Nessa busca, cá estou cinza. Mas não digo um cinza que puxe para o prata. Digo aquele cinza de quem queimou e doeu. Ou de quem quis apagar um segredo e tocou fogo. Ou ainda de quem tentou a purificação na fogueira e acinzentou-se. Aproveito que ainda estou em brasa para tomar satisfação do motivo das cores. Se nem todos os olhos têm cores que brilham, qual o motivo dos que não as têm? Buscar uma nova cor para sê-la ou procurar um brilho que tempere a visão? O que é ser uma cor se o cheiro é o que revela? Revela o puro, o puto, o doce, o amargo, o acabado e o mal amado. Mas a cor mente o que há e rotula o bom e o ruim. Porque você não é preto, nem é branco. Porque eu não sou branca, nem sou preta. Porque nós somos pele, carne, osso e sangue. E o nosso cheiro faz lembrar um ao outro. Então nos negamos. Porque não nos queremos. Sim, queremos o que é outro. E que nem parece ser pele, carne, osso e sangue. Porque parece não doer. O outro não grita, canta. O outro não chora, lava. O outro sequer tem prantos, ele planta e espera. Mas eu e você temos cores. Isso nos torna brancos, pretos, cinzas, doentes e cegos. Enquanto o outro é brilho. *Jornalista e escritora. E-mail: gaspar.julia@gmail.com |