Edição 110 - Aracaju, 17 de fevereiro a 16 de março de 2008
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  saúde
Envelhecimento e mudança
Benefícios do amadurecimento

Por Júlia Gaspar*
Ilustração Agência Notisa

 

Depois de tantos anos para conseguir ter rugas, muitas pessoas desprezam as marcas que o tempo mostra no corpo. Apesar de envelhecer ser inevitável, numa sociedade capitalista o novo é sempre melhor e a maturidade não é tão valorizada por não vir com a mesma firmeza na pele, o que parece uma contradição num país cuja expectativa de vida tem aumentado nos últimos anos.

Velhice significa experiência de vida, mas virou um tabu. Hoje a aparência é mais importante do que a sabedoria e até os jovens precisam de muito esforço para se encaixar nos padrões de beleza. Para os maduros, então, resta esconder a idade de tantas coisas vividas, procurar cirurgiões plásticos e cremes contra o envelhecimento. Justo contra o envelhecimento, que faz parte do ciclo natural da vida.

Quando a serenidade toma o lugar da insegurança

Maria Santos tem 52 anos e é psicanalista. Ela garante que é mais serena hoje do que aos 20 anos. “Depois dos 50 eu fiquei mais generosa comigo mesma, na juventude eu me preocupava em ser aceita e ficava insegura, hoje me conheço mais, faço mais companhia a mim mesma e estou mais sedimentada na minha história”. Maria afirma ainda estar satisfeita com sua aparência: “adoro as minhas rugas, elas são as marcas que o tempo colocou no meu corpo, cada uma delas têm uma história que respeito muito. Não tenho medo da morte, mas cuido da minha saúde para ter qualidade de vida. Não faria plástica e não escondo a minha idade, digo com prazer que tenho 52 anos”.

Ao contrário de Maria, sua sogra tem uma grande dificuldade em aceitar a própria idade. “Nem os filhos sabem a idade dela. Acho que pessoas assim tiveram poucos recursos de pensar sobre si mesmas, devido às formas de enfrentar as dificuldades da vida. Para mim, esconder a idade é não ter aceitado o seu percurso de vida”. Maria Santos desabafa: “eu não entendo as pessoas buscarem uma fonte da juventude como se fosse o mais importante, cada coisa tem a sua hora”.

Feliz Idade

Maria Mercedes Ayres Neves tem 75 anos, segundo ela, muito bem vividos. Maria Mercedes afirma que é com muita honra que assume sua idade e diz que gosta mesmo é de viver o presente: “claro que às vezes a gente se recorda, lembra de coisas boas e ruins, mas o que passou, passou, o que importa é o agora”. Mulher independente, Mercedes morou com um homem por 17 anos, mas hoje vive sozinha. Ela diz que nunca quis ter filhos: “eu não tinha os dons maternais, gostava de sair com os meus sobrinhos já grandes, de praia, baile, festas, mas quando via as minhas irmãs cuidando de crianças eu tinha certeza que não queria isso para mim. Deus foi bom comigo em não ter me dado filhos”.

Mercedes diz que hoje tem mais liberdade: “Minha mãe era muito exigente, foi durona na nossa educação e me reprimiu muito, eu era a mais destrambelhada. Mas evocar o passado é coisa de gente frustrada e infeliz. Eu sou feliz, tenho a presença de Deus, não tenho doenças, não sinto dores, vou à praia, vou dançar e faço hidroterapia”.

O asilo como lar

A nutricionista Margarida Neves trabalha há cinco anos no asilo Condomínio Para Idosos, no Centro de Niterói (RJ) e atende diretamente aos pacientes. “Antes de trabalhar num asilo eu tinha uma noção diferente, achava que asilo era sinônimo de abandono. Mas dependendo do lugar pode ser muito bom para o idoso, eles têm contato com pessoas da mesma idade, são atendidos por profissionais capacitados (psicólogos, fisioterapeutas, médicos e nutricionistas), têm diversas atividades, como música e dança, além de usufruírem de uma área arborizada e do contato com bichos. Em casa nem sempre esse suporte é possível”.

Margarida dá a dica: “quando uma família procura uma Instituição, é importante se preocupar com higiene, espaço arborizado e com a equipe técnica, luxo não é tudo”. A nutricionista garante que, no asilo onde trabalha, os idosos tem uma alimentação regrada e, tendo alguma patologia específica, há uma dieta individual.

“Eles precisam de carinho”

Margarida Neves enfatiza que é importante que os familiares não coloquem seus idosos em asilos e esqueçam deles: “o idoso só vai se sentir mal se for abandonado pela família, é preciso que eles tenham visitas periódicas”. Ela garante que os idosos que são visitados periodicamente são mais alegres e alguns ficam lá por opção. “Eles precisam de carinho, o importante para os idosos se sentirem bem é carinho, atenção e amor”. Margarida diz que 70 % dos idosos do Condomínio Para Idosos são visitados pela família.

A nutricionista diz que seus idosos comem muito bem: “eles gostam de comida colorida, se preocupam em ter uma boa alimentação, são exigentes em relação ao prato protéico”. A profissional afirma que uma boa alimentação pode ajudar a retardar o envelhecimento, mas Margarida diz que nunca reparou neles essa preocupação. “Eles são felizes”, afirma.

A psicóloga Norma Oliveira também trabalha no Condomínio Para Idosos. Ela completa a fala de Margarida e afirma que quem tem medo da velhice é a sociedade: “O idoso quando chega à Instituição já assumiu a velhice e não tem medo de envelhecer”, garante Norma.

A especialista explica que, apesar da expectativa de vida ter aumentado bastante, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que acima de 50 anos uma pessoa já é idosa. Enquanto a Vigilância Sanitária afirma que a terceira idade começa aos 60 anos.

Um outro olhar

Berenice Gouveia e o marido Carlos Antônio Akselrud de Gouveia decidiram por não colocar a mãe dele, Dona Annita, numa Instituição. Berenice acha que é difícil o atendimento personalizado num lugar que tem muitos idosos. “Acho que num asilo poderiam enchê-la de calmantes para ela dormir o dia todo”.  Berenice conta que sua sogra, hoje com 91anos, trabalhou até os 80 como taquigrafa e aos 81 começou a ficar doente. “Ela era super ativa e muito independente, lembro que ela trabalhou na Associação Comercial do Rio de Janeiro e também na Assembléia Legislativa. E também era uma super avó, passeava muito com os netos. Mas é muito triste, ela não fala mais, não anda, usa fraldas, cadeira de rodas e não lembra mais nem de pessoas queridas, paralelo a isso tudo, ela tem o organismo perfeito, um ótimo coração, seu exame de sangue é impecável e a pressão parece ser de uma mocinha”. Berenice diz que teve muita sorte em encontrar a enfermeira Lurdes para cuidar de Dona Annita. “A Lurdes gosta muito dela e só trata a Dona Annita com homeopatia”. Berenice lamenta o estado da sogra: “Eu não sei se vale à pena viver assim. Ver o que ela foi e o que ela é hoje é muito triste”.

O medo de envelhecer

Berenice Gouveia tem 54 anos, usa remédios no rosto para amenizar as marcas do tempo, faz ginástica e admite ter dificuldades em aceitar as mudanças no corpo: “eu tenho medo da morte, do meu corpo perder a vitalidade e aparecerem problemas de saúde. Também acho ruim ter rugas, a gente se olha no espelho e não se acha tão bonita, acho que isso é coisa da mulher brasileira, que se preocupa muito com a aparência, é cultural”.

Para Berenice a velhice tem duas coisas boas: o autoconhecimento e o amadurecimento. Mas ela se complica ao ser perguntada se estas qualidades valem as rugas no rosto.

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