Edição 112 - Aracaju, 13 de abril a 11 de maio  de 2008
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  conto
Os dentes perdidos
A vida que se esvai

Por Júlia Gaspar* 

Conheci uma criatura confusa. Ela chora pra dentro enquanto sorri pra fora, sem mostrar os dentes. Aprendeu até poemas bonitos para dizer com o olhar, mas a vida a fez perder os dentes e secar a fala. Ela não diz mais as palavras como conhecemos, sabe apenas balbuciar os sentimentos com os olhos a derramarem-se e escorrerem-se de todos os sentidos.

Eu me lembro do primeiro dente que perdeu. Ela estava distraída e não reparara um menino adormecido em seu caminho. Tropeçou. A primeira reação do menino foi segurá-la, mas quando reparou o seu estranhamento, largou-a. Ela doeu nos lábios que racharam na queda e rasgou um dente bem na raiz. O dente ficou fraco, amoleceu e caiu, como terminam as coisas de raízes fracas e curtas.

Ela achou que poderia ser criança novamente e colocou seu dente na janela. Dizem que esperava uma fada de verdade, mas ninguém apareceu. Então ela fez um cordão e enviou para o seu amigo distante. Não se sabe se ele ainda o tem no pescoço, se o guarda consigo ou se perdeu em mudanças. Mas a criatura ainda tem a nota do correio e observa os números de vez em quando, como quem desvenda a reação do seu amigo ao receber o presente enviado há tempos.

O segundo dente que perdeu já nascera defeituoso. A criatura nunca gostou dele mesmo, mas sofreu com a perda. Ainda hoje ela não sabe se doía mais ter ele lhe causando problemas e dores ou a falta que lhe faz. De vez em quando ela passa a língua por ali e o vazio traz algumas lembranças, raramente são boas, mas são lembranças que ficaram.

Este dente a criatura pediu para arrancarem-lhe, sem anestesia. O tirador de dentes explicou que jamais nasceria outro, que talvez fosse melhor reconsiderar, mas ela estava decidida. Abriu a boca bem grande e ordenou a cirurgia. A vontade de ver-se livre do dente defeituoso era maior do que a dor do corte. Este dente a criatura enterrou, mas não levou flores, apesar de ter deixado rolar uma lágrima.

O terceiro dente que a criatura perdeu. Ah, esse doeu no peito! Ela gostava tanto de tê-lo em si, que sua falta doeu por tempos. Dizem que vez ou outra ela ainda tem dor de saudades e até o procura em antigos hábitos. Mas ele sumiu, ela sequer pôde despedir-se, quando notou, não estava mais lá. Não se sabe se comendo maçã ou aipim frito, mas há quem diga que ela o engoliu de tanto que o queria. Então ele não poderia mais ser ele mesmo, aparentava apenas ela e ficava escondido em algum lugar do estômago. Até o dia em que ela perguntou por ele e ninguém respondeu. Foi aí que ela notou que estava sozinha e perdera seu dente preferido.

Sim, ela o procura em si. Mas a natureza o pôs para fora, para que ele pudesse ser ele. E quando isso aconteceu a criatura nem notou e o dente preferido correu dela, não quis despedir-se. Dizem que ele até gostava dela, mas preferia estar longe, não queria ser querido, gostava mais de imaginar que uma fada viria buscá-lo e levá-lo para um mundo encantado, sem saber do poder que tinha para encantar a criatura, que nunca mais pode sorrir. Diz ela que não gosta de mostrar que está banguela, mas, no fundo, acho que a saudade aperta tão fundo que ela não tem vontade de mostrar os buracos dos dentes que perdeu. Especialmente o terceiro, para o qual ela teria um lugar bem na frente reservado e agora esse vazio que a faz expressar-se com os olhos e esconder a boca, antes que pessoas levianas reparem suas perdas.

*Jornalista e poetisa.  E-mail: gaspar.julia@gmail.com