
Webjornal - Quinzenal - Edição 60 - Aracaju,
18 de julho a 01 de agosto de 2004
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Literatura Michel
Laub lança seu segundo romance e se afirma como um dos bons nomes de uma
nova geração de escritores no Brasil
O cenário inicial é a pequena Albatroz, no Rio Grande do Sul. O tempo, o da infância já na ante-sala da adolescência. Laura namorava Jaime, que também namorava outras garotas. Ele tinha um amigo que ainda não namorava ninguém. Jaime morreu afogado, o amigo cresceu e mudou-se para São Paulo. Laura, que não ficou para titia, reencontra, já na fase adulta, o amigo de Jaime. Mais uma - quase - típica quadrilha drumondiana? "Nada pode ser tão banal, mas não é bem disso que estamos falando", assim começa Longe da água, o novo romance de Michel Laub publicado pela Cia. das Letras. É a partir de uma aparente banalidade, de um enredo comum, que Laub constrói uma narrativa com uma dicção própria, pautada pelo ritmo, pelas frases curtas e exaustivamente trabalhadas, em que a "história se sobressai mais do que a forma". O resultado é um livro pequeno, de 115 páginas, porém denso em que o narrador tenta passar a limpo, trinta anos depois, uma tragédia da infância, revelando um embate psicológico que envolve culpa, medo, expiação e crescimento. Atualmente trabalhando como editor-chefe da revista Bravo!, função que passou a exercer em 1997, com apenas 24 anos, Michel Laub, um ex-advogado que também estudou Jornalismo mas sem concluir o curso, estreou na literatura com o volume de contos Não depois do que aconteceu (1998), tendo escrito em seguida Música anterior (2001), seu primeiro romance. Por e-mail, ele conversou com o Balaio de Notícias sobre seu novo livro e outros assuntos ligados à literatura. Por
Paulo Lima BN – Quanto tempo você levou para pôr um ponto final no livro? Michel Laub - Três anos, mas com interrupções. Na verdade, ponto final a gente nunca dá - sempre acho que o livro ainda pode ser melhorado. Se ele não tivesse saído, ainda estaria mexendo no texto. BN – Até que ponto Longe da água funcionou como uma catarse, um meio para que você analisasse um trauma da infância? ML - É difícil saber. A história tem aspectos autobiográficos, como todo livro, mas em sua maior parte é fictícia. O escritor trabalha com emoções genuínas, mas também com muita técnica - para transmitir as sensações do livro, é necessário ter frieza e autocontrole na arquitetura narrativa. É uma contradição típica da literatura, o que a diferencia da mera confissão, da "catarse", enfim. BN – “Nada pode ser tão banal”, assim você começa o livro, e acaba por transformar a história de Jaime e Laura, que poderia ser comum, num belo enredo. Poderia ser este ainda o grande trunfo da literatura – doar sentido ao que soaria comum e até sem sentido? ML - Sim, acho que é o grande desafio. Pelo menos para um autor como eu, que não tem muito talento para as histórias fantásticas e cheias de peripécias. BN – O livro também trata de uma culpa – da culpa por você não ter conseguido salvar da morte um amigo da infância. O recurso recorrente ao uso da segunda pessoa seria uma tentativa de distribuir o fardo dessa culpa, ou você tenta tornar cúmplice o leitor? ML - Talvez seja, se essa for sua interpretação de leitor. Afinal, o autor não tem controle sobre como o público entenderá o texto, o que é uma das graças da literatura. De minha parte, acho que a segunda pessoa é mais uma maneira de amarrar alguns parágrafos e situações - de dar pausas, refrescos no ritmo -, enfim, mais uma questão técnica formal do que de conteúdo. BN – Que outras preocupações o nortearam no processo? ML - Escrever algo forte, não me esconder atrás de truques baratos, deixar o ritmo e a clareza do texto o mais adequado possível ao drama descrito. Eu queria que a história se sobressaísse mais do que a forma. BN – Você acha que é possível delimitar gerações de escritores, separando-as no tempo ou conforme os estilos, ou o que existe no fundo é boa ou má literatura? ML - Possível é, mas certamente se fará uma generalização descabida. O que existe é boa e má literatura, claro. BN – Há quem postule que todos os livros escritos por um autor não são senão derivações de uma única e mesma história. Você acredita nisso? ML - Pode até ser. Meus dois romances tratam de culpa, morte e relações amorosas. Aliás, tirando sexo, morte, poder, amizade e espiritualidade, que outros temas há? BN – Você acha que, em termos de literatura, ainda são válidas as velhas discussões sobre conteúdo e forma? Ou o que há ainda é uma boa história para se contar? ML - São válidas, mas não se faz uma coisa sem a outra. Se você fizer, não será literatura, e sim um exercício estéril (caso da forma) ou uma confissão (caso do conteúdo). BN – Voltando aos seus livros, que ensinamento lhe deu o seu primeiro romance Música anterior (2001) que você possa ter utilizado no livro atual? ML - Acho que depurei a linguagem, primeiramente. Gosto do Música, mas às vezes acho que ele fica um pouco "denso" demais. As emoções do Longe da Água, embora falem de adolescentes, também me parecem descritas de maneira mais adulta. E a arquitetura da história agora é mais "fechada", o que não é bom nem ruim, a princípio. BN – Você costuma reler seus próprios livros? E essa releitura lhe revelaria mais deficiências ou acertos? ML - Leio uma só vez o livro todo, quando este fica pronto. Nessa época, estou ainda muito envolvido com o processo para ter o senso crítico apropriado. Mais tarde, posso reler um ou outro trecho, mas prefiro não fazê-lo. O que está feito, está feito. BN – Você tem um processo de criação, uma disciplina? ML - Tento ter, mas é difícil dada a profissão que escolhi e a vida que levo. Por isso, talvez, os livros que escrevi tenham demorado tanto para ficar prontos. Em geral, escrevo mesmo nos finais de semana. Durante a semana faço revisões, pequenas alterações, acréscimos aqui e ali. BN – Você chegou a editor da revista Bravo! em 1997, com apenas 24 anos, e hoje é um dos seus editores-chefes. Esse foi um processo natural para você, ou isso lhe impôs muita responsabilidade? ML - Fui aprendendo com o tempo. No início eu provavelmente não estava preparado, nunca havia trabalhado numa redação. Foi uma aposta do Wagner Carelli, diretor de redação à época, pela qual sou muito grato. Hoje lido com o trabalho na Bravo! sem problemas. BN – Em entrevista concedida a Bravo! deste mês, o escritor inglês Martin Amis afirma acreditar que, no futuro, o romance, como no início, será voltado para um público mais seleto. Você concorda com ele? ML - No caso brasileiro, já é. Com raríssimas exceções, ninguém chega perto da repercussão internacional e dos rendimentos de um autor como ele. Isso não é só uma questão de talento, mas representa a pouca importância que a língua portuguesa tem no mundo. BN – E para você, qual será o futuro do romance e da própria literatura? ML - Acho que é mais ou menos o que ele [Amis] disse: algo para meia dúzia, como aliás sempre foi por aqui. Mas, para essa meia dúzia, a coisa mais importante do mundo. |
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