Webjornal - Mensal  - Edição 91 - Aracaju,  09 de julho a 13 de agosto  de 2006
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Jornalismo

"A gente escreve para o público"

João Paulo Cunha, editor do caderno "EM Cultura", do Estado de Minas, fala sobre literatura, intelectuais, música e, claro, jornalismo

Por Leandro Lopes*

Impaciente para falar de si mesmo, mas desenvolto ao defender suas idéias acerca da profissão que decidiu seguir. Teve seus dias de professor e certamente faz falta nos corredores acadêmicos. Diz ter abandonado a lousa por conta do mal da modernidade: falta de tempo. Atualmente suas aulas são na versão impressa, publicadas diariamente no contexto do caderno "EM Cultura",  do jornal Estado de Minas, onde é editor.

 

Atrás da imagem jovial que vocês, meus amigos, não terão porque ‘fotografia é uma besteira’, esconde conhecimentos de um homem triplamente graduado. Formado em filosofia, psicologia e comunicação social, João Paulo Cunha não se considera um intelectual, mas esqueceu de avisar aos concorrentes, colegas de trabalho e amigos. Das seis pessoas que conversei antes de papear com o editor, todos lhe adjetivaram como tal. Para eles, um recado: ‘Sou jornalista, trabalho com informação da área cultural’.

 

Os olhos de João Paulo brilham quando o assunto é música, na mesma velocidade em que se ofuscam quando a entrevista se aproxima de algo pessoal, do tipo: quem é você? Aparentemente tímido, ele diz ler e escrever sobre tudo (“quanto mais se estuda, mais a gente sabe o quanto a gente tem o que aprender”), embora seus textos revelem uma aproximação mais prazerosa com o jazz. Enquanto lhe pesa o título de intelectual, vejo em João Paulo um homem que fala por gramas e escreve por toneladas.

 

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BN - O conceito de cultura ligado ao erudito é uma definição distorcida?

João Paulo Cunha - O conceito de cultura tem muito essa marca de ser algo erudito, tradicional, sim. Hoje a gente sabe que temos alguns elementos a mais, como a questão de mercado e da indústria cultural. Então os cadernos culturais tratam hoje um pouco disso tudo, e não apenas voltado para a questão da produção cultural como foi muito tempo, com publicação de poemas, ensaios. Hoje é voltado para o jornalismo cultural, para produção de notícia e para o acompanhamento do que acontece nessa área. Hoje os cadernos são feitos com um pensamento mais popular.

BN - Esse pensamento popular seria as agendas? Alguns estudiosos colocam a cobertura diária dos acontecimentos, o chamado ‘agendões’, como um dos maiores malefícios do jornalismo cultural nos últimos anos. O senhor concorda?

J.P.C. - Não concordo porque acho que a sociedade também mudou. A gente tem um número maior de leitores do que existia antes. Quando as pessoas defendem os cadernos feitos por gente como o Antonio Candido (de Mello e Souza, escritor, ensaísta e crítico literário), eles esquecem que era uma publicação feita uma vez por semana. Hoje existe uma demanda de informação muito maior. A gente escreve para o público e não para a gente, né? A função do caderno de cultura é informar e, nesse papel, passar tudo que acontece na área cultural, como os projetos dos artistas, as gravações, os livros que estão sendo escritos, os espetáculos. Então existe uma mudança de visão do leitor, o jornal tenta colocar coisas novas, mas precisa atender a essa demanda. Por isso não acho que é um malefício, é uma contingência de uma sociedade mais ampla, onde o saber é mais democratizado, muito menos do que deveria ser, é verdade.

BN - Os cadernos culturais surgiram por meio dos folhetins que publicavam críticas e poemas. Gêneros cada vez mais raros hoje. Por quê?

J.P.C. - A questão da crítica é relativa. A musical, por exemplo, tem em quase todos os jornais. Talvez por fazer parte da cultura brasileira, afinal, todo mundo gosta de algum tipo de música. No âmbito da literária é verdade, cada vez menos. Isso se dá pela demanda que é cada vez maior. Eu recebo 200 livros por semana aqui, por exemplo. Não tem jeito de dar vazão com críticas aprofundadas desse jeito. Com relação ao poema, o que a gente percebe é que o leitor procura uma produção desvinculada da notícia, um lugar para descansar do peso das matérias de Cidades e Geral. O que fazemos é colocar crônicas.

BN - No prefácio que fez para o livro ‘Entre BH e Texas’, de Carlos Herculano Lopes, o senhor afirmou que a crônica é o mais brasileiro dos gêneros, concordando, portanto, com o Rubem Braga. Por quê?

J.P.C. - É justamente por isso, um lugar onde se possa descansar, ver um texto mais trabalhado que saia um pouco dessa linguagem mais tecnicista do jornalismo. A crônica traz notícias que não faz parte do dia-a-dia de um jornal, mas faz parte do dia-a-dia de todo mundo.

BN - Quando falamos de linguagem jornalística, logo pensamos em objetividade e clareza. O senhor tem uma preocupação em construir apenas funções referenciais no seu caderno ou permite textos com características que vão além de informar, como opinar, por exemplo?

J.P.C. - O caderno de cultura dá um espaço para irmos além das questões técnicas. Aqui é muito cobrada a qualidade do texto e temos um manual que padroniza um pouco os estilos, porque jornal também não é para cada um escrever da forma que achar melhor. Mas é claro que cada área desenrola seu vocabulário específico e até uma certa dose de emoção, de alguma maneira, está presente no texto. No caderno de cultura, isso é mais fácil de ser aceito pelo leitor, até pelo tipo de objeto que a gente trabalha.

BN - Nos últimos anos, o jornalismo está sempre sendo veiculado com a palavra 'crise'. Para alguns estudiosos, crise financeira, para outros, ideológica. A segmentação cultural pega carona em tal conceito?

J.P.C. - Não vejo jornalismo com crise. A gente vê o jornal com uma série de competidores no sentido de levar notícias para as pessoas interessadas. Houve época em que era muito claro qual era o papel da TV, qual era o papel do jornal, qual era o papel da revista. As coisas foram mudando. A televisão melhorou muito na capacidade de fazer jornalismo e hoje tem um imediatismo excelente junto ao fator da imagem. Isso fez o jornal repensar a forma de trazer as informações e buscar aprofundar de uma forma maior do que a TV fez, horas antes. Então não sei se é uma crise, é uma mudança.

BN - Existe uma preocupação do João Paulo Cunha, enquanto editor, de ler críticas a respeito do "EM Cultura"?

J.P.C. - Claro, claro. A gente lida com um produto que está todo dia na rua e isso nos leva à preocupação de saber como ele está chegando para o leitor. Queremos, sim, saber se está chegando bem, se atinge às expectativas. Os retornos são muito importantes e temos recebido uma boa quantidade deles por meio dos e-mails. Além disso, os repórteres através das fontes sempre ficam sabendo do que é comentado na área cultural.

BN - O senhor transmite por meio dos seus textos uma relação mais prazerosa com o jazz do que com outros gêneros culturais. Estou errado?

J.P.C. - Está certo. Gosto muito. Gosto de música clássica, de jazz, de música popular brasileira. Mas escrever é indiferente, e como o volume de informação é muito grande e a equipe tem uma certa limitação, a gente tem que estar pronto para tudo. Gosto, de fato, de música e literatura, o que não significa que só quero escrever sobre eles. Escrevo sobre tudo.

BN - Uma pergunta difícil: quais são seus livros de cabeceira?

J.P.C. - É difícil mesmo. Tenho uma biblioteca razoável. Mas gosto muito de filosofia e estudo todo dia. Isso é até uma coisa que gosto muito de falar com os repórteres: nessa profissão a gente começa a estudar e não pára nunca mais. Estudar faz parte da atividade diária do jornalismo. Então, quando você sai daqui da redação, ainda tem muita coisa pra fazer. É uma coisa que dá prazer, é claro, e prepara as pessoas profissionalmente. O repórter que chega aqui e acha que seu trabalho termina na hora que sai, acaba ficando um jornalista burocrático, né?

BN - O senhor se considera um intelectual? O que é ser intelectual?

J.P.C. - Não, não. Eu sou jornalista, trabalho com informação da área cultural. Eu acho que o trabalho de jornalismo é um trabalho intelectual, porque não é um trabalho de manufatura. Afinal, a gente trabalha com idéia, com conceitos, com linguagem. O conceito de intelectual que foi plasmado na história da cultura ocidental é a do especialista, da pessoa que trabalha com muita questão teórica e que tenha uma preocupação muito grande com o saber. Isso está voltado para as universidades.

Originalmente publicado em http://mascandocliche.zip.net

*Jornalista da TV Rede Minas

                                 

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