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Política Nenhum eleitor minimamente atento
ao cenário político seria ingênuo a ponto de acreditar em renovação do Congresso,
e o resultado das eleições para a presidência do Senado e da Câmara não
desapontou os céticos. Afinal, lá estavam, entre mensaleiros e sanguessugas
“absolvidos” pelo voto popular, velhos conhecidos como o ex-prefeito que já
esteve preso na Polícia Federal, dizendo para quem quisesse ouvir que não
necessita de imunidade parlamentar; o ex-ministro, bisbilhotador de um
humilde caseiro, denunciado à Justiça, e muitos outros. Na
Câmara e no Senado, o Parlamento se repete na atitude de irreverência aos que
elegeram seus membros representantes
da vontade popular, refunda-se na grande festa para poucos, diuturnamente bancada por quase 190 milhões
de brasileiros. A 53ª
legislatura da Câmara dos Deputados se
inicia com a escolha do pior, porém o mais conveniente para que tudo
permaneça, no mínimo, como dantes, com boas chances de superar a anterior no
que se refere aos maus costumes políticos, e por que não dizer, no
desrespeito aos mais comezinhos princípios que regem a conduta das pessoas de
bem. Bem pensadas
as coisas, não poderia mesmo ter sido diferente, quando se elegem ou reelegem
parlamentares porque são artistas, ou “pastores”, “bispos” ou nem isso,
apenas celebridades vazias, que o tempo se encarregará de reduzir à
insignificância. O
resultado das eleições para a presidência das duas casas é um tributo ao
passado, o augúrio de um Brasil órfão, que se reinventa na mesmice da
infindável ambição de uma maioria – porque se assim não fosse, as coisas
seriam diferentes, para melhor – parlamentar movida a fisiologismo e
interesses tão pequenos quanto seus caráteres. Existem
os bons, e não são tão poucos assim, mas, por serem minoria, falam para
ouvidos moucos, tornam-se utópicos defensores de uma moralização que não
chega nunca; sabem, deveriam fazer a hora, como diz a velha canção de Geraldo
Vandré, mas não conseguem fazer as coisas acontecer. O
desalento é grande, mesmo para quem a esperança era apenas um subterfúgio
para aguentar a barra, mas lutar por um mundo melhor, ainda que tão cedo não
se vejam os resultados, é obrigação, compromisso que se deve ter por um
futuro mais risonho para os descendentes. Pensando bem, não é pouca coisa, é
motivo suficiente para se persistir no infindável combate aos desmandos da
política. Levará
muito tempo para a Nação se curar
dessa febre terçã, desse vaivém entre esperança e desilusão, desse
mal-entendido que é essa democracia tão pouco representativa dos grandes
interesses nacionais. Renovar
o espírito, respirar fundo e seguir em frente é o que se pode e deve fazer,
lutar, apesar do Congresso e dos governos, do peso escorchante dos impostos
que sustentam os beneficiários da troca de favores e interesses dessa gente,
lembrando que nem tudo foi em vão, que houve, apesar da derrota, uma
tentativa de se melhorar as coisas. Com o perdão da obviedade, perder faz
parte do jogo, e isso é dito aqui não para o leitor, mas, sim, como um recado
àqueles que acreditam que poderão eternamente subjugar os interesses da
maioria. O mau
exemplo só contamina os que já têm o caráter deformado; da mesma forma, a
lição dos bons só é absorvida pelos que têm bons princípios. Observar
a ação dos grandes homens e mulheres, anônimos ou famosos, pode ser um
alento, nomes não faltam: Sérgio Vieira de Mello, diplomata; José Bonifácio
de Andrada e Silva, patriarca da Independência; José Maria da Silva Paranhos
Júnior, o Barão do Rio Branco; policiais, bombeiros, médicos; o brasileiro
que vive com um salário mínimo, ou menos. Muitos deles mudaram a face do
país, fizeram e fazem a diferença. Seguir em frente, mais que lutar pela
vida, é homenageá-los. *Articulista, São Paulo |
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