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Vida Corporativa A vida nos impõe sempre várias
cobranças, e as profissionais costumam ser constantes. Esse tensionamento a que são submetidos tantos trabalhadores, especialmente
em tempos de globalização, já levou ao suicídio três executivos da empresa
francesa Renault, segundo o jornal The Guardian de 22 de fevereiro. É possível, no caso de funcionários
cujo trabalho pode ser realizado também fora da empresa, que a sobrecarga se
dê de maneira sutil, progressiva. Uns com
prazos absurdos a cumprir, enquanto a outras categorias de trabalhadores são
impostas metas crescentes de desempenho, nem sempre guardando relação com a
capacidade individual, bastante variável, de suportar exigências
cada vez maiores, advindas não só da infindável competição entre as
empresas, mas também da “portabilidade” dos postos de trabalho, que, hoje, podem
transferidos para qualquer ponto do globo, fisica
ou virtualmente. A busca
pela eficiência está se transformando num paradoxo: de um lado, permite a
fabricação de produtos cada vez mais baratos e acessíveis; de outro, submete
trabalhadores à concorrência de pessoas que aceitam salários baixíssimos,
praticamente sem quaisquer direitos, gente que não tinha nada e agora passou
a ter um pouco, mão-de-obra barata, traduzida em produtos de preços igualmente
irrisórios. A China,
tentando implantar uma legislação trabalhista mais humana, sofre boicote e
ameaças das grandes corporações estrangeiras, que se recusam a pagar um pouco
mais e dar maiores direitos a seus empregados, o que talvez seja apenas blefe,
já que até as griffes
francesas estão levando sua produção para a Ásia sem, no entanto, reduzir os
preços de seus artigos. Buscam tão-somente aumentar seus ganhos, quer dizer,
sua eficiência. Um trabalhador
de nível superior passa quase vinte anos se preparando, estudando; depois,
restam-lhe, até a aposentadoria, cuja idade mínima é cada vez mais alta - 67
anos em alguns países -, na melhor das hipóteses 47 anos de vida útil, se
tiver saúde e a grande sorte de permanecer empregado todo o tempo, durante o
qual terá de criar e educar os filhos, comprar uma casa, investir na
reciclagem profissional, fazer uma poupança para cobrir eventualidades e
complementar a pensão. Na prática, poucos conseguem uma nova vaga após
atingir a idade da “obsolescência”, a partir dos 40 ou 50 anos. Mas o
fato é que sempre haverá gente disposta a fazer mais por menos, e a Índia tem
quase quatrocentos milhões de pessoas vivendo na mais absoluta pobreza, potenciais
trabalhadores prontos para substituir os chineses numa eventual e ainda
remota subida dos custos da mão-de-obra. Os ventos
sopram cada vez mais a favor do capital, as empresas aumentam seus lucros enquanto
os ganhos do trabalho, quando muito, permanecem estagnados, ao contrário das infinitamente
crescentes pressões por melhores resultados. Os salários, transformados em
simples mercadorias, commodities, seguem
a Lei da Oferta e Procura. Trabalhadores têm família, sonhos, envelhecem, mas
tudo isso soa piegas quando exposto à lógica diabólica imposta pela ditadura
do capital. Nada a ver com devaneios ideológicos, mas apenas ganância, a
natureza humana em um de seus piores aspectos. Mas não
é este mesmo o modo como fomos ensinados, a essência de nossa cultura, e no
final das contas, o modus operandi da
própria natureza, a eterna competição que redunda na evolução das espécies? E
quem aproveita a lição; quantos não encaram o fato de ser vencido numa
modalidade qualquer de esporte como uma derrota, uma ofensa pessoal? Quem ousa
ter a elegância e a generosidade de cumprimentar o adversário, seja quando
este perde ou quando vence? Estamos
longe de vislumbrar uma alternativa a esta competição feroz cujos
inversos são a cooperação, a generosidade, a solidariedade, a paciência,
virtudes que não combinam com a urgência com que buscamos, sempre em vão, a
felicidade atráves da satisfação imediata de nossos
desejos. Nesta ininterrupta azáfama nos afastamos da prática da reflexão, do pensamento filosófico, que representam o sentido maior da vida. *Analista, São Paulo |
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