Edição 122 - Aracaju, 22 de fevereiro a 22 de março  de 2008
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  economia
Crise e mudança de visão
Uma oportunidade para reciclar conceitos

Por Luiz Leitão*

Crises como a que atualmente assola a economia mundial costumam trazer em seu bojo boas oportunidades de se reciclar conceitos e promover mudanças.

A busca de lucros crescentes e ilimitados nas atividades empresariais tem levado à crescente concentração quando companhias se fundem ou adquirem o controle de outras, demitindo e buscando sempre mão de obra cada vez mais barata, anulando conquistas trabalhistas, frutos de vários anos de reivindicação. É o que está para acontecer nos Estados Unidos, onde as empresas automotivas não mais conseguem competir com suas congêneres asiáticas e terão de reduzir salários e custos de assistência médica na tentativa de sobreviver.

Esse modelo de negócios não talvez não seja lá muito diferente daquele que levou Wall Street e o restante da economia mundial ao colapso. Na década passada, outrora sólidas companhias do Velho Mundo, desde as fabricantes de cimento às operadoras de telefonia, entregaram-se a uma farra de empréstimos sem precedentes, endividando-se até o pescoço. A dívida corporativa da zona do euro já ultrapassa os onze trilhões de dólares e equivale a 95% da economia da região, ante 50% nos EUA.

Um endividamento irresponsável, ao estilo subprime, baseado na ganância e busca por níveis de rentabilidade sempre crescentes, que nunca satisfazem plenamente aos acionistas.

Muito antes de os radares dos economistas farejarem os primeiros indícios desta crise econômica, o quase centenário escritor argentino Ernesto Sábato comentava em seu livro “A resistência” a decadência e inviabilidade dos atuais padrões éticos e de consumo, e o individualismo que pauta o comportamento de boa parte das pessoas e empresas.

Andrew Witty, presidente da gigante farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK), anunciou uma mudança radical nas suas práticas comerciais em benefício dos países pobres e outros de economia intermediária, como o Brasil. A empresa deverá cortar substancialmente os preços de todos os seus medicamentos vendidos nessas nações e devolver parte dos lucros, para serem gastos em hospitais e clínicas e, melhor ainda, partilhar o conhecimento a respeito de drogas potenciais atualmente protegidas por patentes.

Na visão dele, as empresas farmacêuticas tem obrigação de ajudar os pobres a obter tratamento para suas doenças.

Serão cortados os preços nos 50 países menos desenvolvidos para o nível 25% dos praticados no Reino Unido e nos Estados Unidos, ou menos, se possível, e tornados os remédios mais acessíveis a países de renda intermediária como Brasil e Índia. 

Substâncias ou processos dos quais detém a propriedade intelectual formarão uma espécie de pool de patentes, de modo que possam ser explorados por outros pesquisadores, e 20% de todos os lucros serão reinvestidos em hospitais, clínicas e trabalhadores do setor de saúde dos países menos desenvolvidos.

A iniciativa, que não haverá de estar a salvo de críticas e da acusação de dumping (prática de preços baixos para destruir a concorrência), é louvável; é ver, nas palavras de Witty, o mundo não pela perspectiva dos lucros de curto prazo, mas de uma ótica mais equilibrada, humanista.

Não será, então, o caso de se repensar o atual modelo de negócios, levando em conta a solidariedade, sem a qual o grau de desumanização da sociedade tenderá a aumentar sempre?

Investindo diretamente no bem-estar da comunidade em geral, na saúde, educação e outros setores, as empresas, mesmo sem isenção de impostos, poderiam se beneficiar de uma boa imagem com a qual haverão de angariar a simpatia do público, inclusive e especialmente dos que costumam comprar seus produtos e serviços.

A qualidade, constância e alcance dos serviços públicos estão sempre subordinados ao padrão ético e à competência dos governantes, e uma maneira de começar a resolver esta intrincada equação pode ser o patrocínio – efetivo, vale frisar – da combalida rede de apoio social do País. Algo assim como arregaçar as mangas já que o ritmo das soluções políticas,  nunca é o das necessidades da sociedade.

Embora o altruísmo deva excluir a jactância, as empresas não devem se furtar de divulgar, inclusive e especialmente em seus balanços, o quantum de suas contribuições e a que instituições se destinaram. É válida, até para disseminação da prática, a divulgação do nome das companhias pelas instituições beneficiadas.

O exemplo está aí para quem souber aproveitar a crise e mudar sua visão de mundo, negócios e o futuro da humanidade.

*Administrador de empresas. E-mail: luizmleitao@gmail.com