|
|
|
|
|
entrevista O Brasil e o grande irmão do Norte Livro analisa o desenvolvimento dos dois países e faz um paralelo de suas diferenças
Por
Paulo Lima Por que os Estados Unidos se transformaram na maior potência do planeta enquanto o Brasil ainda luta para superar problemas seculares? Por que admiramos o american way of life, subestimamos os nossos valores e mantemos uma auto-imagem depreciativa de nós, brasileiros? O que nos fez ficar para trás? Não faltam hipóteses e teorias para explicar e justificar o grande hiato de riqueza que se estabeleceu entre os dois países. Muitas dessas idéias creditam a fatores deterministas – como religião, raça e geografia – as razões das diferenças. Culpados por nosso atraso seriam os portugueses, o catolicismo e o clima quente dos trópicos.
Segundo o jornalista Ricardo Lessa, "esses fatores influenciaram, sim, nossa formação, mas não foram determinantes. Determinantes foram as razões econômicas e históricas". São essas razões que ele analisa no livro Brasil e Estados Unidos: o que fez a diferença (Editora Civilização Brasileira), que ele acaba de lançar e no qual traça um paralelo entre as trajetórias dos dois países. Respaldado em vasta bibliografia e informações estatísticas, Ricardo Lessa retrocede ao grau zero da colonização das duas nações para explicar como ocorreu cada processo, desfazendo mitos e questionando interpretações estabelecidas. É por meio da comparação entre uma realidade histórica e outra que as diferenças saltam aos olhos. Se nos Estados Unidos os primeiros pioneiros que chegaram no Mayflower, em 1620, já traziam o ímpeto exploratório e de investimento na nova terra, no Brasil o processo seguia um caminho inverso. O objetivo era pilhar a colônia e retornar com toda a riqueza para Portugal. Se no Brasil o processo de ocupação do território se deu através de cessões de terras para os favorecidos da monarquia, nos Estados Unidos a lei da terra (o Homestead Act) assegurava títulos de propriedade a negros e brancos, criando o embrião da livre iniciativa. Enquanto nos Estados Unidos o protestantismo, que surgira como resultado da rejeição ao catolicismo na Europa, inculcava a importância do lucro, do acúmulo de riqueza e estimulava a livre associação dos cidadãos – fato que constituiria os alicerces da democracia americana –, no Brasil a atividade econômica girava em torno dos interesses do rei, dos seus favorecidos e da Igreja católica, com sua condenação à usura e ao dinheiro. A própria República começa tardiamente no Brasil, com mais de cem anos atrás dos Estados Unidos. Com o diferencial desfavorável de que, no Brasil, a República foi proclamada através de um movimento militar. Nos Estados Unidos, ela foi conquistada por meio de um longo processo de insubordinação civil. Porém nada foi mais danoso para distanciar os dois países do que a manutenção da escravidão no Brasil. "O determinante foi o escravismo generalizado, prolongado até o final do século 19, pela última monarquia do hemisfério ocidental", escreve Ricardo Lessa. As conseqüências podem ser vistas nas desigualdades sociais que ainda se mantêm em nosso país. Autor de Amazônia – as raízes da destruição (Atual Editora, 1991) e co-autor de Meu Brasil brasileiro (Ibep Nacional, 2006), Ricardo Lessa, jornalista da Globonews, falou sobre seu novo livro na entrevista que se segue, concedida por e-mail. *** BN - Como surgiu a idéia do livro? Ricardo Lessa – Sempre me irritou muito ouvir piadinhas pejorativas sobre o Brasil. A pior para mim é aquela que alguém reclama com Deus por que o Brasil não tem terremotos, desertos, furacões e Deus responde: "Espera pra ver o povinho que vou botar lá." Ouvi uma vez essa piadinha contada por um brasileiro nos Estados Unidos, quando morava lá, e achei o cúmulo da falta de auto-estima. A melhor manifestação do complexo de vira-lata. Além disso, sempre ouvi milhões de teses sobre o atraso brasileiro e o desenvolvimento americano que nunca me satisfizeram.
De volta ao Brasil, li o
livro de Viana Moog, Bandeirantes e Pioneiros, que atribui à
diferença religiosa, calvinismo lá, catolicismo aqui, o distanciamento
econômico entre os dois países, o que tampouco me satisfez. É só olhar para
nossos vizinhos, Argentina, Uruguai e Chile, que eram católicos, e já
estiveram entre os países mais ricos e prósperos do mundo. Acho isso
suficiente para derrubar a tese do Viana Moog, embora o catolicismo aqui no
Brasil de fato tenha sido um fator a mais, embora não decisivo, para
contribuir com nosso atraso. Mas era o catolicismo aliado à monarquia, que
preservou o direito absolutista de também mandar na igreja. BN - Por que é tão importante passar a limpo as diferenças entre os dois países? R.L. – Como diz um amigo americano, que escreve na contracapa, o jornalista Mike Kepp, "comparar duas culturas permite que se vejam as duas mais claramente e seja possível enxergar melhor a si mesmo". Além disso, a comparação é um método científico corriqueiro, desde a Geologia, a Química... Por que não a História? Faz parte também do comportamento humano toda hora se comparar com o outro. Sobre Brasil e Estados Unidos, parece um assunto recorrente em conversas de bar, entre amigos, ou referência habitual. Todos ou quase todos os autores que pensaram a história do Brasil em um determinado momento fazem referência às diferenças entre nós e eles: de Caio Prado a Fernando Novais. Mas só mesmo o Viana Moog se arriscou a focar unicamente no "paralelo entre duas culturas" (acho que "divergência" caberia melhor).
Acho que a história
oficial do Brasil mistifica o papel da monarquia por aqui. Como exaltar Dom
João VI e Tiradentes ao mesmo tempo, se o primeiro mandou enforcar o
segundo? Como exaltar o conservador absolutista Dom Pedro I? Isso confunde a
cabeça dos brasileiros. Uma sociedade precisa ver mais claramente sua
história para se entender melhor, para ser mais íntegra e para ver melhor
suas capacidades, problemas e seguir adiante. Creio que é importante
ressaltar o papel da República no princípio e na base do desenvolvimento
americano e como isso fez falta para estimular o crescimento e a
distribuição de renda por aqui. Mostrar as diferenças do escravismo lá e cá
também é fundamental para ressaltar o peso que isso teve e tem no nosso
desenvolvimento. BN - Por que admiramos tanto o grande irmão do Norte? Afinal, de lá vêm também exemplos pouco edificantes, como racismo, nacionalismo, conservadorismo wasp, cultura da guerra, competição extrema etc. R.L. – A admiração é sempre do que vemos de positivo: a prosperidade e seus derivados, como organização, educação, limpeza etc. A organização social que fundou os Estados Unidos, com base na livre iniciativa, na competição, foi excelente para o desenvolvimento econômico, mas isso não implica dizer que foi excelente para as relações interpessoais. No meu livro, evito fazer julgamentos de valor e tento me prender apenas ao desenvolvimento econômico, que pode ser medido claramente.
Refiro-me à questão
racial porque falo do escravismo negro, como um elemento fundamental da
diferenciação dos dois países. Aqui, o escravismo amplo e mais duradouro, e
lá, restrito ao Sul do país, derrotado militarmente como modelo de
organização econômica na Guerra de Secessão. É claro que o desenvolvimento
econômico não resolve todos os problemas de uma sociedade e os Estados
Unidos apresentam aspectos extremamente odiosos do ponto de vista humano. BN - Seu livro aponta muitas razões históricas e econômicas como determinantes para a superioridade dos Estados Unidos sobre o Brasil. Alguma dessas razões seria a mais preponderante?
R.L.
– Eu falo de superioridade econômica, que é inegável, e busco as razões
históricas para isso. A razão preponderante para ela foi o escravismo,
estimulado e potencializado pela monarquia que se estabeleceu aqui em 1808;
fortaleceu os laços com a elite escravista no Brasil; prorrogou poderes
absolutistas até o final do século; adiou mudanças sociais. Enquanto Estados
Unidos e Europa viviam o boom da revolução técnico-científica. BN - Você conclui que a principal raiz da desigualdade existente no Brasil do século 21 está em nosso passado escravagista. Esse é o reflexo mais duradouro dos efeitos negativos da nossa colonização?
R.L.
– Sem dúvida. Portugal já tinha escravos negros em 1500, quando Cabral
passou pelo Brasil. E mesmo com todo o desenvolvimento ocorrido nos Estados
Unidos, podemos ver os efeitos da escravidão ainda nos dias de hoje nos
estados do Sul. Quem não viu os efeitos do furacão Katrina em New Orleans,
nas áreas inundadas? Os estados do chamado deep south [Alabama,
Geórgia, Louisiana, Mississipi e Carolina do Sul] continuam sendo os mais
atrasados, menos educados, mais corruptos e mais violentos dos EUA. Um
retrato não muito diferente do que vemos no Brasil. BN - Você também analisa as influências do clima, da geografia e da religião, mas não considera nenhum desses fatores como determinantes para justificar a superioridade americana. As diferenças religiosas não foram, de fato, um aspecto relevante? R.L. – O protestantismo surge na Europa no momento de contestação do poder da Igreja católica, estreitamente ligada ao feudalismo. Surge ligado ao movimento de nascimento do capitalismo e da livre iniciativa. O protestantismo que vai para os Estados Unidos carrega esse espírito. As igrejas protestantes eram também assembléias comunitárias. Os pastores freqüentemente eram escolhidos pelos grupos. As cisões eram constantes e motivaram a criação de novas igrejas, novas assembléias e novas cidades e novos estados americanos.
Enquanto no catolicismo,
a igreja trazida para o Brasil, ligada ao Estado absolutista, tinha e
continua tendo uma hierarquia rígida, de Roma até a paróquia, que enquadra o
fiel católico sem muita liberdade para que ele opine ou discuta as decisões
do clero. Então, o catolicismo foi, sim, ligado à monarquia, como estava, um
dos motivos para amarrar a organização social brasileira, desestimular a
livre-iniciativa e até o lucro, considerado ganância e usura pela Igreja
católica. BN - Responsabilizar os Estados Unidos pelo atraso do continente latino-americano era uma posição defendida pelas esquerdas nos anos 60/70. Lideranças como Chávez e Evo Morales voltaram a bater nessa tecla. Ainda faz sentido falar em imperialismo, essas são idéias apenas políticas, ou elas ainda fazem algum sentido?
R.L.
– É sempre mais fácil atribuir a um bode expiatório, mesmo que seja um
grande bode, nossos problemas. É evidente que um país com a riqueza
petroleira da Venezuela, com um cliente cativo como os Estados Unidos,
poderia ter menos pobreza e melhor distribuição de renda, mais educação etc.
A demonização dos americanos parece uma tática de cortina de fumaça, para
disfarçar outros problemas. Não há dúvida que os Estados Unidos contribuíram
para a formação de uma elite extremamente corrupta e autocentrada na
Venezuela, o que complica a formação social e o conflito de interesses no
país, mas não são o único vilão da história. O Equador tem um problema
indígena sério, como o da Bolívia, e dificuldades para enfrentar o problema.
Com os problemas atuais dos Estados Unidos, falar de imperialismo me parece
mesmo anacronismo. BN - O centenário da chegada da corte portuguesa ao Brasil foi celebrado festivamente pela imprensa este ano, mas no livro você mostra que os benefícios da presença dos reis foram nulos para o país. Esse também não seria um momento propício para uma revisão? R.L. – Neste ano deveríamos comemorar um feliz desaniversário do bicentenário da chegada da corte no Rio, como o Chapeleiro Maluco, de Alice no País das Maravilhas. Na minha opinião, a corte portuguesa plantou no Brasil a maior parte dos problemas que o Brasil tem hoje: elitismo, excesso de centralização, exagero de impostos, empreguismo, burocratismo. Napoleão varreu o absolutismo da Europa e ele veio se refugiar aqui nos trópicos, do outro lado do Atlântico, com todos seus vícios e seu conservadorismo. A corte portuguesa reforçou os laços com a elite brasileira de traficante de "viventes" e com os proprietários de terras e de escravos. E quando Dom João VI voltou para a Europa, deixou aqui seu filho para prolongar poderes tipicamente absolutistas numa Constituição que durou 65 anos, até quase o final do século. Isso amarrou o país durante todo o século 19. Nossa renda per capita estacionou em 700 dólares durante 100 anos, enquanto a dos americanos subia para 5.000 dólares no mesmo período. O saldo do analfabetismo no final do império era 85% da população brasileira.
Nossos vizinhos
argentinos, que de repente ficaram sem rei porque Napoleão prendeu o monarca
espanhol de plantão, lucraram bastante com isso. Tiveram República antes de
nós, construíram uma sociedade mais igualitária, mais educada e chegaram a
figurar entre os mais ricos do mundo. E mesmo depois de décadas de crise,
ainda têm o IDH de país desenvolvido, bem à frente do nosso. BN - O livro menciona o caso do barão de Mauá, pioneiro da iniciativa capitalista no Brasil. Esse é o nosso único e melhor exemplo histórico?
R.L.
– Mauá foi nosso exemplo mais significativo, sufocado ainda na monarquia. A
alma de Mauá partiu junto com a corte portuguesa. Mauá tentou conciliar o
inconciliável – o capitalismo dentro de uma monarquia escravista. Queria
títulos de nobreza, queria ser aceito pelo rei e adotar modelos bancários
ingleses e fábricas com assalariados. Pregou no deserto. Outros capitães de
indústria, mais tarde, estabelecidos em São Paulo, sofreram ainda o cerco
dos fazendeiros do café, da pecuária e da cana-de-açúcar (herdeiros da
monarquia e do escravismo) estabelecidos no Rio de Janeiro, que dominaram o
poder nas primeiras décadas da República. Roberto Simonsen, por exemplo,
sentiu traídos seus ideais e esperanças capitalistas logo depois da chegada
de Getúlio ao poder, ainda na década de 30, por causa das alianças feitas
pelo gaúcho com as elites rurais e os coronéis do passado. BN - Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos nascem impulsionados para o capitalismo, o lucro e a democracia. A crise atual pode representar um golpe definitivo em sua hegemonia?
R.L.
– O principal para mim é que o impulso inicial da formação dos EUA foi da
livre iniciativa. Isso perdura mesmo hoje. Mas para entender a crise atual,
o melhor é a tese do Paul Kennedy, no clássico Ascensão e queda das
grandes potências. Ele afirma que duas características estão presentes
na decadência dos grandes impérios. Guerras fora das fronteiras e
endividamento. Estes dois itens estão mais do que presentes na crise atual
dos EUA. BN - Você morou um ano nos Estados Unidos, entre 1997 e 1998. Que impacto teve esse convívio sobre sua visão da sociedade americana?
R.L.
– Eu tinha muitos preconceitos antes de morar nos EUA. Viver lá
desmistificou muitas coisas e me mostrou outras. Tinha uma cortina
ideológica anti-americana, antiimperialista na minha frente que não me
permitia enxergar a história dos EUA e estudar as bases do progresso daquele
país. BN - Alguns livros sobre História do Brasil, escritos por jornalistas, têm-se tornado sucessos editoriais. Isso é apenas um fenômeno passageiro, ou representa um sinal de que, ao contrário do que se imagina, nos interessamos pelo nosso passado? R.L. – Os historiadores não são obrigados a escrever direito. O foco deles é outro, é o aprofundamento, detalhamento de momentos ou períodos do passado. Embora muitos historiadores tenham o talento de escrever bem, nós, jornalistas, temos essa obrigação por ofício. A labuta cotidiana nos liga ao público mais diretamente e creio que podemos levar a história de maneira mais acessível ao público. Nós, jornalistas, garimpamos nos estudos dos historiadores, ou mesmo em arquivos, os fatos e detalhes para depois tentar entregar para o público um conjunto histórico talvez mais compreensível e agradável de ler.
Acho que os livros
recentes de jornalistas sobre história despertaram mais, sim, o interesse do
público pela história do país e creio que cada vez mais veremos jornalistas
escrevendo sobre episódios da história. BN - No placar político e sócio-econômico entre Brasil e Estados Unidos, perdemos de goleada. Existe algum gol de honra que podemos contabilizar em nosso favor? R.L. – No plano econômico, que é o que examino no meu livro, levamos de goleada. Mas o fato de uma sociedade ser organizada de forma mais eficiente para o lucro e a produção não significa que as relações interpessoais sejam maravilhosas. A competição e o individualismo estimulados como ideal da sociedade podem gerar muito sofrimento individual. Eu tento, no livro, não entrar em juízos de valor e me ater ao aspecto econômico e outros mensuráveis ou observáveis, mas podemos considerar algumas bolas divididas. No Brasil, o casamento inter-racial é muito mais aceito que nos EUA: 30% por aqui, cerca de 1% por lá, índice próximo da África do Sul do apartheid. A mestiçagem é mais aceita aqui e até cultuada, muitas vezes. Isso faz a tensão racial aqui ser muito menor que nos EUA. O racismo existe aqui, e eu mostro isso com dados, na discriminação no trabalho, na educação etc. Mas é exercido de forma velada. Enquanto nos EUA, até 1964, a discriminação era legal e aceita institucionalmente, especialmente no sul. E isso não é pouca coisa. Esse gol brasileiro, não creio que possa ser atribuído a alguma política intencional, mas acho que é resultado da nossa formação histórica. Em vez das famílias fechadas, o Brasil recebeu portugueses solteiros no início da colonização, o que gerou uma miscigenação espontânea. Lá também não houve nenhum marechal Rondon para defender minimamente os direitos indígenas. Lá, o herói cultuado foi mesmo o general Custer, exterminador de tribos. |