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Lingüística
Português
sem preconceito
O professor de lingüística Marcos Bagno
crítica a discriminação que grande parte da população brasileira
sofre por não usar corretamente o idioma e mostra o que há por trás
desse preconceito.

Erros
de português não existem. O que há são variações lingüísticas,
formas de falar que vão se constituindo de acordo com o uso das palavras,
ao longo do tempo. Do mesmo modo, não podemos falar em erro comum ao
empregarmos determinadas construções gramaticais que parecem soar em
desacordo com as normas oficiais do idioma. Ora, se muitas pessoas cometem
os mesmos erros, então não se trata de erro comum, e sim de acerto
comum. Idéias polêmicas, difíceis de aceitar? Pois é assim que pensa
Marcos Bagno (foto),
professor de lingüística da Universidade de Brasília (UnB), um
dos mais ferrenhos críticos do preconceito amplamente difundido de que o
brasileiro fala e escreve mal o próprio idioma. Essa visão atinge
principalmente as camadas pobres da sociedade, por estarem distanciadas do
padrão ensinado na escola. O preconceito lingüístico, porém, revela um
outro preconceito: o social.
“A língua, a maneira de falar, é apenas uma desculpa que as
outras pessoas usam para discriminar, para excluir”, afirma Bagno.
Mineiro de Cataguases,
ele é autor de vários livros que desfazem mitos em torno do
português falado e escrito no Brasil, como A Língua de Eulália
(1997), Preconceito lingüístico – o que é, como se faz (1999),
Português ou Brasileiro? (2002) e A norma oculta (2003).
Marcos Bagno esteve em Aracaju no dia 26 de março para realizar a
palestra
“O preconceito lingüístico e o seu tratamento em sala de
aula”.
Em seguida, a entrevista que ele
concedeu instantes antes de se dirigir à platéia que lotou o auditório
do hotel Parque dos Coqueiros.
Por Paulo Lima
Fotos: Paulo Lima e Mônica Hardman
BN - A crítica ao preconceito lingüístico no Brasil
está presente na maioria dos
seus livros. Como surge o seu interesse por este assunto?
Marcos Bagno
- Desde o início dos estudos lingüísticos a gente tem percebido que a
linguagem pode ser usada como meio de discriminação social, de exclusão
social. O meu interesse sempre foi descobrir quais são esses mecanismos
que levam as pessoas a discriminarem outras por sua maneira de falar. Então,
a idéia foi desde sempre tentar associar as questões lingüísticas com
as questões sociais e descobrir quais são essas relações, fazer as
pessoas se conscientizarem disso, de que existe esse preconceito, e
encontrar maneira de combatê-lo.
BN - Esse tipo de preconceito
é somente lingüístico?
MB
- Na verdade, eu costumo dizer que o preconceito lingüístico não
existe. O que existe de fato é o preconceito social. Então, a língua, a
maneira de falar da pessoa é apenas uma desculpa que as outras pessoas
usam para discriminar, para excluir. Então, o verdadeiro preconceito é
social.
BN - O senhor também distingue o uso do português padrão
do não padrão. O que significa um e outro?
MB
- O português padrão é aquele modelo de língua idealizado que as
pessoas aprendem na escola, que vem codificado nas gramáticas. E, como
ninguém fala exatamente esse padrão, todas as formas que realmente existem na sociedade são consideras não padrão.
Então, é um confronto que a gente faz entre o modelo de língua, uma língua
idealizada, e a realidade dos brasileiros.
BN - Existe alguma
superioridade lingüística de um padrão sobre o outro?
MB
- Não, não existe. Concretamente, não. Do ponto de vista lingüístico,
todas as maneiras de falar se equivalem, todas as formas de falar atendem
as necessidades dos falantes. A superioridade é apenas uma construção
cultural e social. As pessoas acham que uma determinada maneira de falar,
por ser falada ou por ser empregada pelas classes privilegiadas da sociedade, é superior. Então, essa superioridade só
existe do ponto de vista da hierarquia social. O modo de falar das pessoas
que estão, digamos assim, no
poder é que acaba se constituindo na forma mais prestigiada da sociedade.
Mas do ponto de vista lingüístico todas as maneiras de falar se
equivalem.

BN - Sabemos que no Brasil não falamos somente um único
português, mas vários falares. Que fatores explicam o uso tão
diferenciado que vemos nas diversas regiões?
MB - Olhe, isso ocorre em qualquer
língua do mundo. Todas as línguas do mundo apresentam o que a gente
chama de variação. Nenhuma língua é falada do mesmo modo em todo o lugar
pelas pessoas. Até mesmo cada indivíduo na hora de usar a língua faz
diferenças de uso, de acordo com o contexto, com a situação, com a
familiaridade, com a pessoa com quem está interagindo. Então, a explicação
para a variação lingüística é simplesmente esta: ela faz parte da
natureza da própria linguagem. E, no caso do Brasil, as variedades que existem no país se
explicam pela história de cada região, pela história das pessoas que
falam essas variedades. Há vários fatores históricos, sociais e
culturais que explicam essa diversidade.
BN - O que os professores podem fazer em sala de aula
para lidar com o preconceito lingüístico?
MB
- Antes de mais nada, eu acredito que os professores precisam se
conscientizar da existência do preconceito lingüístico. Isso eles vão
conseguir fazer se dedicando a um estudo mais sério, mais detalhado da
questão da variação lingüística. Então é necessário que, antes de
mais nada, eles tenham uma boa formação na parte que a gente chama de
sociolingüística. A partir desse conhecimento, desses estudos é que
eles vão poder traçar algumas estratégias para trabalhar com isso em
sala de aula.
BN - E quais seriam essas
estratégias?
MB
- O reconhecimento da variação é importante, e o que o professor pode
fazer é não se deixar levar pelas idéias preconcebidas que existem na
sociedade. Então, reconhecer
a importância da língua padrão, mas também reconhecer o direito que as
pessoas têm de falar do jeito que falam, de usar as suas variedades
locais, regionais e sociais. É uma questão de ter sensibilidade para
lidar com isso. Não existem táticas muito concretas para isso.
BN - Os novos parâmetros curriculares nacionais têm
contribuído para diminuir esse preconceito?
MB
- De certa maneira, sim, porque eles tocam no assunto. A partir do momento
em que o assunto é tratado, e as pessoas são obrigadas a refletir sobre
isso, então eles realmente contribuem.

BN - Até que ponto
métodos de ensino transplantados de outras realidades, como os
baseados em Piaget, Montessori, Waldorf, Vigotsky, dentre outros, servem
à realidade dos nossos alunos?
MB
- Todos esses pensadores refletiram sobre a questão educacional e
propuseram algumas estratégias. É claro que a gente nunca, em nenhum
momento, adota uma teoria, uma filosofia educacional na íntegra. A gente
sempre aproveita o que elas têm de melhor e faz uma adaptação para as
realidades. Então, eles contribuem basicamente com a reflexão sobre os
temas. É aquela velha história da teoria e a prática. A gente confronta
a teoria com o que tem na realidade e vai fazendo
as adaptações, as críticas da própria teoria. Você pode se
apoderar de uma teoria educacional e, mesmo gostando muito dela, sentir
que é obrigado a fazer algumas críticas, algumas reformulações. É
assim que a ciência avança.
BN - Por que o brasileiro aparentemente tem tanta
dificuldade em utilizar as regras do português padrão?
MB
- Olhe, há várias coisas envolvidas aí. Primeiro,
porque o português padrão está muito distante da realidade lingüística
dos brasileiros. Mas a gente
também não pode misturar as coisas. Existem
questões aí que são relativas
ao aprendizado da ortografia, ao aprendizado da língua escrita. Nós
temos que separar essas coisas, aquilo que vem da variação lingüística
e da mudança lingüística também, e aquele que diz respeito
especificamente às regras de ortografia. Acho que a escola não tem se
concentrado, do jeito que deveria, na prática da escrita, que é uma das
principais funções da escola, que é levar as pessoas a escrever bem e
também a saber ler. Mas tradicionalmente nosso ensino fica muito preso a
regras, a decoreba de nomes, a separação silábica, a análise sintática.
Então, a pessoa sai da escola sem saber o que é uma oração subordinada
substantiva objetiva direta, apesar de passar 11 anos estudando isso, e
também sai sem conseguir produzir um texto minimamente coeso e coerente.
Então, tem a ver realmente com as práticas de ensino de língua que têm
sido utilizadas na nossa tradição.
BN - Atingir os padrões da língua culta é então o
que pode haver de melhor para o aluno, para quem fala e escreve o nosso
idioma?
MB
- Sem dúvida. É missão da escola levar os alunos a se apoderar das
formas prestigiadas de falar e de escrever. Agora, isso tem que ser feito
sem discriminar a fala original, sem fazer qualquer tipo de atitude
preconceituosa com a variedade lingüística que o aluno já traz para a
escola. Trata-se de acrescentar a bagagem cultural dele, aumentar o seu
repertório lingüístico, e não de substituir uma forma considerada
errada por uma forma supostamente certa. Como eu já tinha dito, todas as
formas de falar são igualmente válidas, e a função da escola é
apresentar para o aluno aquilo que ele não sabe, ou seja, as formas de
prestígio, e essas se transmitem basicamente pela prática da leitura e
da escrita.
BN - A defesa do uso correto do português virou uma
febre, particularmente estimulada pelos meios de comunicação. Como o
senhor vê essas propostas, especialmente a do professor Pasquale?
MB
- Eu critico bastante porque essas pessoas que estão fazendo esse tipo de
trabalho na mídia não estão integradas ao estudo efetivo, ao estudo
científico da realidade lingüística no Brasil. Ao invés de se debruçar
sobre a realidade do brasileiro, procurar compreender em que estado nós
estamos hoje em termos lingüísticos, qual é a situação da língua
portuguesa falada no Brasil, eles tentam transmitir uma língua
padronizada extremamente formalizada e muito antiquada, até defendendo
regras que os próprios gramáticos profissionais já reconhecem que estão
obsoletas. Então, a minha grande crítica a eles é justamente essa, a
falta de conhecimento mesmo, eles não têm conhecimento para falar o que
falam, e a tentativa de impor formas muito obsoletas e antiquadas de língua.
BN - Um de seus argumentos é que, se o uso de
determinada palavra considerada errada é falada persistentemente pela
população, então não haveria erro. Poderia nos explicar?
MB
- Essas pessoas que defendem um português padrão mais formalizado falam
muito do erro comum. Dizem “ah, é erro comum no Brasil usar tal
coisa”. Ora, se todo mundo usa, se é um uso que está sendo feito em
todas as classes sociais, de Norte a Sul do país, então não é erro, é
acerto comum. As pessoas estão percebendo que aquela forma lingüística
já não atende às necessidades de comunicação e expressão delas e estão
modificando essa forma lingüística, o que é natural em qualquer língua
do mundo. As línguas passam por mudança. Então, não existe esse tal de
erro comum, existe o acerto comum. Significa que as pessoas estão
adotando formas novas de falar.
BN - O aprendizado de línguas estrangeiras em idade
cada vez mais precoce tem sido muito seguido pela classe média no Brasil.
O senhor acha que essa é de fato uma prioridade? É algo necessário?
MB
- É importante. O conhecimento de línguas estrangeiras é importante, é
interessante. Se a pessoa pode ter acesso a isso cedo, já na infância,
é interessante, desde que não seja uma coisa forçada, obrigada. Os pais
podem tentar conscientizar os filhos sobre a importância do domínio das
línguas estrangeiras, mas não impor isso de maneira muito autoritária.
BN - Algumas projeções apontam que muitas línguas
faladas hoje estarão extintas daqui a trezentos anos, incluindo o nosso
português. Qual a veracidade dessas afirmações?
MB
- A língua portuguesa pode se transformar, pode não, ela vai se
transformar, como todas as línguas se transformam, mudam com o tempo, mas
a gente só pode dizer que uma língua se extingue se os seus falantes se
extinguirem. Então, se vier alguém e matar todos os brasileiros, a língua
portuguesa vai deixar de ser falada no Brasil.
BN - Como o senhor analisa os projetos de regulamentação
do uso de estrangeirismos na língua portuguesa, como o do deputado
federal Aldo Rabelo?
MB
- A questão dos estrangeirismos tem que ser vista sob duas perspectivas.
Do ponto de vista lingüístico, da estrutura da língua, o uso de algumas
palavras de origem estrangeira, basicamente inglesa, como é agora, isso não
vai afetar a estrutura da língua portuguesa. Então a língua não está
ameaçada por causa deste uso. Agora, do ponto de vista cultural e social
é que as pessoas acham que essa presença muito grande das palavras de
origem inglesa representa uma ameaça à identidade cultural do
brasileiro, e que isso também representa a ponta de uma coisa muito maior
que é a dominação cultural, a imposição de um modo de ver, uma visão
de mundo que é a que vem dos Estados Unidos. E aí, sim, elas têm todo o
direito de se rebelar.
BN - E quanto ao papel que a linguagem jornalística
ocupa hoje na sociedade, como um padrão a ser seguido?
MB
- Isso é uma coisa interessante na pesquisa lingüística que tem sido
feita, de que maneira a língua usada nos jornais, nos meios de comunicação
escritos, principalmente nos grandes jornais, nas grandes revistas, já
constitui um certo padrão. Até pouco tempo atrás, as pessoas usavam
como padrão muito a literatura. Mas a língua literária não pode servir
de modelo, porque ela é muito experimental, o escritor tem que ter
liberdade de usar o que quer. Então, não é a língua literária que tem
de servir de padrão. O que as pessoas estão percebendo é que o padrão
hoje se forma muito mais na escrita jornalística, na escrita acadêmica,
nos textos científicos. Então, um padrão de língua escrita deve ser
buscado aí.
BN - Alguns teóricos acreditam que a linguagem passa
por um processo de encolhimento. Lemos textos cada vez menores nos
jornais, os escritores usam menos palavras,
e o e-mail passa a ser a mensagem. O senhor também vê esse fenômeno
em andamento?
MB
- Não sei se o encolhimento da linguagem. Talvez seja uma questão mesmo
da pressa da vida cotidiana e do imediatismo dos meios de comunicação,
que tentam ser rápidos e dar respostas rápidas. Então, há de fato um
certo abandono da leitura mais profunda, mais reflexiva, do texto mais
elaborado, mais trabalhado. A gente vê isso mesmo nos jornais. Nos
jornais, pelo menos os jornais de São Paulo, do Rio, o espaço entre as
linhas está cada vez maior, o texto está cada vez mais rarefeito, mais
superficial. Isso é um problema porque não convida o leitor a refletir
mais, a investigar um pouco
mais o que está sendo escrito, o que está sendo tratado ali. Então, é
uma questão de rarefação da linguagem por causa dessa pressa da vida
cotidiana.
BN - De que forma
as modernas teorias da sociolingüística podem contribuir para combater o
preconceito lingüístico?
MB
- Elas oferecem basicamente o que eu chamo da conscientização e a
sensibilização na escola. Eu acho que a escola é o grande instrumento
para modificar isso, porque assim como a escola, durante séculos,
transmitiu a ideologia do certo e do errado, a partir de agora, com uma
visão mais científica do ensino de línguas, a gente pode começar a
desconstruir essa ideologia e pensar em coisas mais democráticas.
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