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London London
Para inglês ler
Os londrinos consomem
bastante jornais, mas lá a qualidade do jornalismo nem sempre traz o
padrão que se imagina
Por
Roberto Ettinger*

Como típico brasileiro, cresci e me acostumei ao jornalismo da TV
Globo. Enquanto a vinheta do Plantão da Globo causava medo e apreensão
pelos acordes em stacatto, a vinheta do Jornal Nacional era quase que
convidativa para um resumo diário das notícias do Brasil e do mundo - a
hora sagrada -, em que qualquer conversa interromperia o mais atento dos
curiosos.
Hoje, moro na maior capital da Europa, Londres. Com seus sete milhões de
habitantes que correm freneticamente contra o relógio para vencer atrasos,
desvios e outros problemas relativos aos transportes de qualquer cidade
grande do mundo, Londres é uma cidade que lê. É impressionante a
quantidade de pessoas carregando jornais escritos (que ganharam novo
formato para serem mais portáteis e fáceis de ler em público), lendo em
metrôs, ônibus, bancos de praças, parques ou entre o corrido lunch break.
Diz-se que aqui é o lugar da Europa onde mais circulam jornais escritos.
Não duvido.
Quando folheio os jornais disponíveis, que são muitos, alguns de graça,
outros caros, a depender do público, percebo como as notícias aqui são
tratadas de uma forma diferente. Antes de embarcar em solo inglês, achava
que a imprensa aqui era referencial para qualquer lugar do mundo, o
quartel general da BBC, competindo ou talvez perdendo apenas para Nova
York.
Engano o meu. As matérias são de um desinteresse ímpar e não ficaria
surpreso se me fossem apresentadas como escritas por alunos do primeiro
semestre de uma faculdade de questionável qualidade. Estou me referindo ao
campo do jornalismo de uma maneira geral: as reportagens de cunho político
são geralmente bem elaboradas e fazem jus aos rótulos que a cada jornal é
atribuído.
Outro dia, folheando a segunda página do The Independent, fiquei
boquiaberto ao ler uma notícia que "roubava" meia página do jornal com uma
matéria sobre um aluno que foi suspenso da escola pelo diretor por ter
chegado na aula com um corte diferente no cabelo. "Havia um buraco no
cabelo do garoto, pensei que era uma tentativa de trazer uma nova moda
para nossa instituição", dizia o conservador headmaster da escola. O que
ele não sabia, no entanto, era que o buraco no cabelo foi o resultado de
uma tesourada mal dada pela mãe, que tentava às pressas melhorar a
aparência do filho. E ponto final. Acabei de ler a matéria e pensei comigo
mesmo que raios de artigo era aquele: se o propósito era falar sobre
preconceito, conservadorismo ou discriminação, suponho que haviam outros
meios, cabendo à história apenas um papel de mero exemplo.
Bate então aquela saudade do jornalismo brasileiro em bom e claro
português e tento então pelo meu computador acessar o site da Globo, que
maravilhosamente nos proporciona (por algumas libras mensais, claro)
assistir a vídeos da programação pela Internet. Clico no Jornal Nacional e
escuto a voz da Fátima Bernardes e o William Bonner anunciando as notícias
da pauta: corrupção, pobreza, fome, chantagem, desastres, sobe-e-desce da
economia e, claro, a dose diária de violência do país do futebol e do
samba. Por exemplo, o caso de um grupo de bandidos que fuzilaram todas as pessoas
dentro de uma farmácia em São Paulo por vingança ao segurança da mesma.
Resultado: vários feridos e um morto, um garoto de quatro anos, que tinha
ido com a irmã e a avó perguntar o preço de um comprimido. Não quis ver o
resto. Se para alguém que mora no Brasil essa notícia é triste, mas não
menos corriqueira, para mim soou como as altas badaladas dos sinos da
igreja de Saint Martins que espantam os milhares de pombos da Trafalgar
Square.
Acho que vou preferir os desinteressantes jornais ingleses, porque a
vinheta do Jornal Nacional ... Esta já não soa mais como outrora.
*Estudante
brasileiro em Londres
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