Webjornal - Mensal  - Edição 85 - Aracaju, 11 de dezembro de 2005 a 15 de janeiro de 2006
_________________________________________________________________________________________

London London

Para inglês ler

Os londrinos consomem bastante jornais, mas lá a qualidade do jornalismo nem sempre traz o padrão que se imagina

Por Roberto Ettinger*

Como típico brasileiro, cresci e me acostumei ao jornalismo da TV Globo. Enquanto a vinheta do Plantão da Globo causava medo e apreensão pelos acordes em stacatto, a vinheta do Jornal Nacional era quase que convidativa para um resumo diário das notícias do Brasil e do mundo - a hora sagrada -, em que qualquer conversa interromperia o mais atento dos curiosos.

Hoje, moro na maior capital da Europa, Londres. Com seus sete milhões de habitantes que correm freneticamente contra o relógio para vencer atrasos, desvios e outros problemas relativos aos transportes de qualquer cidade grande do mundo, Londres é uma cidade que lê. É impressionante a quantidade de pessoas carregando jornais escritos (que ganharam novo formato para serem mais portáteis e fáceis de ler em público), lendo em metrôs, ônibus, bancos de praças, parques ou entre o corrido lunch break. Diz-se que aqui é o lugar da Europa onde mais circulam jornais escritos. Não duvido.

Quando folheio os jornais disponíveis, que são muitos, alguns de graça, outros caros, a depender do público, percebo como as notícias aqui são tratadas de uma forma diferente. Antes de embarcar em solo inglês, achava que a imprensa aqui era referencial para qualquer lugar do mundo, o quartel general da BBC, competindo ou talvez perdendo apenas para Nova York. Engano o meu. As matérias são de um desinteresse ímpar e não ficaria surpreso se me fossem apresentadas como escritas por alunos do primeiro semestre de uma faculdade de questionável qualidade. Estou me referindo ao campo do jornalismo de uma maneira geral: as reportagens de cunho político são geralmente bem elaboradas e fazem jus aos rótulos que a cada jornal é atribuído.

Outro dia, folheando a segunda página do The Independent, fiquei boquiaberto ao ler uma notícia que "roubava" meia página do jornal com uma matéria sobre um aluno que foi suspenso da escola pelo diretor por ter chegado na aula com um corte diferente no cabelo. "Havia um buraco no cabelo do garoto, pensei que era uma tentativa de trazer uma nova moda para nossa instituição", dizia o conservador headmaster da escola. O que ele não sabia, no entanto, era que o buraco no cabelo foi o resultado de uma tesourada mal dada pela mãe, que tentava às pressas melhorar a aparência do filho. E ponto final. Acabei de ler a matéria e pensei comigo mesmo que raios de artigo era aquele: se o propósito era falar sobre preconceito, conservadorismo ou discriminação, suponho que haviam outros meios, cabendo à história apenas um papel de mero exemplo.

Bate então aquela saudade do jornalismo brasileiro em bom e claro português e tento então pelo meu computador acessar o site da Globo, que maravilhosamente nos proporciona (por algumas libras mensais, claro) assistir a vídeos da programação pela Internet. Clico no Jornal Nacional e escuto a voz da Fátima Bernardes e o William Bonner anunciando as notícias da pauta: corrupção, pobreza, fome, chantagem, desastres, sobe-e-desce da economia e, claro, a dose diária de violência do país do futebol e do samba. Por exemplo, o caso de um grupo de bandidos que fuzilaram todas as pessoas dentro de uma farmácia em São Paulo por vingança ao segurança da mesma. Resultado: vários feridos e um morto, um garoto de quatro anos, que tinha ido com a irmã e a avó perguntar o preço de um comprimido. Não quis ver o resto. Se para alguém que mora no Brasil essa notícia é triste, mas não menos corriqueira, para mim soou como as altas badaladas dos sinos da igreja de Saint Martins que espantam os milhares de pombos da Trafalgar Square.

Acho que vou preferir os desinteressantes jornais ingleses, porque a vinheta do Jornal Nacional ... Esta já não soa mais como outrora.

*Estudante brasileiro em Londres

                                 

(c) Todos os Direitos Reservados