Webjornal - Mensal  - Edição 85 - Aracaju, 11 de dezembro de 2005 a 15 de janeiro de 2006
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Conto

Uma luz que cegava

Por Alvaro Giesta*

- À saudosa memória do meu pai, protagonista do conto

“Mas também não queria morrer de repente,
 sem ter tempo para um último adeus à vida.
Porque não queria morrer de modo nenhum.”

(José Manuel Fajardo
, “Os Demónios à Minha Porta”)

Noite de 11 para 12 de Dezembro de 1949.

Noite de breu por terras de ninguém. Embrulhado num novo e grosso "cobertor de papa", alvo de neve – na cor da origem e agora reforçada pelo acumular dos farfalhos espessos da neve que caía – incutia ânimo ao "carriço" – nome do corpulento macho – que a sogra Ana lhe emprestara para a viagem de mais de 60 quilómetros, na ida e no regresso. Ânimo ao animal e a ele próprio, também, tolhido de frio e de medo naquela noite que fora feita para temer Deus.

Há muito que passara  pelas Mós e deixara Seixas para trás. Andaria, a julgar pelo tempo dispendido desde que saíra de Freixo de Numão, da casa do Doutor Beirão depois de lhe dar notícia de como correra o parto da mulher, por alturas do Poço Escuro. Local de temer, este! Assim se designava aquele sítio, no monte do Fojo, quase no desaguar da ribeira que dá vida ao Vale da Teja – temível até de dia, naquele tempo, por ser coito de temíveis lobos, quanto mais numa noite como aquela. Onde até, diziam, as bruxas da vizinha aldeia de Seixas faziam danças macabras. Se as suas contas não falhassem, estava aqui estava na dobra do caminho, entre os túneis, a dois palmos da sua aldeia.

De repente um uivo aterrador. Mesmo ali ao lado. Relinchou o macho que se empinou nos quartos dianteiros quase o atirando ao chão, e uivou, do lado oposto, outra besta. Os lobos! Eriçaram-se-lhe os cabelos agasalhados sob a espessa lã de ovelha da manta que o cobria. Ergueu-se, novamente, nas dianteiras o nobre animal e recusou-se a andar.

Anda machinho, anda..." – animou o afoito Zé “Proença”. E, com a frágil vergasta de giesta verde, fustigou-o uma e outra vez. E nada. Nem a força dos calcanhares das botas nas ilhargas faziam avançar o animal.

Com as mãos geladas e gretadas pelo frio e labor árduo do campo, nos seus afazeres diários, procurou no fundo do bolso falso da samarra o isqueiro que aí escondia para certas ocasiões – ali bem oculto, não fosse a Guarda Republicana descobri-lo e autuá-lo por desrespeitar a tão injusta lei imposta por Salazar. Encontrou-o. Com dificuldade começou a fazer chispas para tentar afugentar as bestas – agora pelo menos quatro – que seguiam, ladeando, o velho macho. Mas a torcida do isqueiro em breve ficaria húmida com a neve que caía.

"Vamos machinho, vamos. Estamos quase em casa. Não há cabrão de lobo nem puta de bruxa que nos faça frente!"

Aflitivamente apercebia-se que nunca mais chegava à dobra do caminho, entre túneis, de onde podia visionar, se de noite de lua cheia se tratasse, o fumo a escoar-se pelas aberturas da telha vã, levantadas em "V" a servir de chaminé. Contudo, o nobre animal continuava a andar, num passo nervoso e acelerado.

"Raios. Enganei-me nos cálculos que fiz. Ainda devo estar muito longe da Quinta de Porto de Bois. Parece bruxedo..." – dizia para o seu companheiro de viagem, o macho, numa voz que pretendia confortá-lo a ele mesmo.

E andou, perdido no tempo, por tempo sem fim, naquela noite em que lhe nasceu o filho mais velho. Não saiu do hospital enquanto as "irmãzinhas" – as freiras enfermeiras – lhe não disseram que era um latagão e tinha sido tirado a ferros.

"Ias matando a tua mãe..." – dizia-lhe o velhote, muitos anos mais tarde, sempre que vinha à baila aquela noite gelada de 11 de Dezembro de 1949.

Só depois, já noite dentro saltou para o lombo do macho e deixou que o instinto animal fizesse o percurso de 30 quilómetros de regresso a casa. Mas agora aquele dilema. Jamais chegava. E, pior que o não chegar, era não saber onde estava.

Abrandou a neve. Pareceu-lhe ver que o dia ia aclarar. Custava-lhe a crer que tal fosse verdade. Por mais que espreitasse o relógio de bolso, não conseguia ver as horas. E, para mal dos seus pecados, já nem o isqueiro dava faísca. Os lobos desapareceram como por milagre – sinal evidente de que estaria próximo de lugar habitado. Sinal disso foi a mudança de som do bater dos cascos das patas do animal no terreno. Era dedutível que pisava o empedrado de uma rua.

Na escuridão total nem conseguia vislumbrar as casas – parecia mesmo que nem as havia. Perscrutava, de um e outro lado daquilo que pensava ser uma rua empedrada, e nada. De casas, nem sombras.

"Será Seixas?! Mas… a ser Seixas, só se tivesse voltado para trás!" – pensou.

De repente o animal estacou. À sua frente, agora bem visível, uma porta entreaberta naquela que parecia ser a última casa da povoação. Incentivou o quadrúpede a seguir viagem, mas ele continuou estático de orelhas espetadas  – mais espetadas do que quando lhe apareceram os lobos.

Era efectivamente uma casa. A confirmá-lo franqueou-se, como por milagre, uma porta entreaberta e extravasou um jorro de luz para o exterior. Uma luz que cegava naquela noite de breu. Do interior, o som de uma música que nunca ouvira antes, misturada com risos e coros femininos. Uma figura alta e esguia, vestida com uma túnica vermelha até aos pés, de cabelos negros, soltos e espalhados pelos ombros, convidou-o a desmontar e entrar para a festa.

"Mas que festa? – interrogou. "E onde estou?" – perguntou também.

"A festa da noite das bruxas cá da terra. Não disseste tu, há horas atrás, já perto da tua aldeia, que nem lobo nem puta de bruxa te fazia frente?" – respondeu-lhe, rispidamente, a figura de vermelho.

De imediato, numa prece a Deus, de quem era fervoroso, levou a mão ao peito e agarrou a cruz do terço que naquele dia pendurara ao pescoço. E o feitiço, de imediato, se quebrou.

Do livro em preparação "A Voz do Tempo" – contos
* Policial reformado e fotógrafo amador por opção e convicção, residente em Portugal
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http://www.pbase.com/alvarogiesta

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