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economia Uma crise do capitalismo? Os fatores que levaram ao estouro da bolha Por Marcelo Pessoa*
De tempos em tempos, em todas as economias, sempre haverá crises, sempre ocorrerão flutuações econômicas indesejadas. Encontrar a fórmula do crescimento perpétuo seria como decretar a paz eterna na Terra: dadas as restrições materiais e da própria natureza humana, um sonho impossível. Há, porém, formas de se minimizar os efeitos de uma crise. No entanto, isso requer acertar seu diagnóstico. Acerca da crise atual, podemos dizer o seguinte: não se trata de uma crise causada pelo capitalismo de livre mercado; e a solução encontrada pelo governo americano não é socialista. O primeiro ponto, o diagnóstico, requer explicação detalhada. Muitas vezes, uma crise tem causas externas: um choque de oferta do petróleo; um furacão categoria 5; um atentado terrorista. Outras vezes, porém, sua origem encontra-se na forma como o próprio governo conduz a economia. Por exemplo, a coletivização forçada da agricultura ucraniana, na antiga União Soviética, causou diretamente 8 milhões de mortes por inanição. No caso atual, a crise também não se origina no mercado, mas no governo. A crise atual foi causada pela má gestão e pela péssima regulamentação de duas instituições financeiras conhecidas como Fannie Mae e Freddie Mac. Essas empresas público-privadas eram responsáveis por fazer empréstimos ao setor financeiro atuante no mercado imobiliário e por dar garantias a financiamentos feitos por bancos a quem comprava casas. Juntas, controlam mais da metade das hipotecas – propriedades de imóveis dadas como garantias de empréstimos - do mercado. Em 1992, o Congresso Americano determinou que Fannie e Freddie aumentassem as compras de hipotecas de pessoas de baixa renda e de minorias raciais. Durante o governo Clinton, o “Ministro do Desenvolvimento Urbano”, Andrew Cuomo, investigou Fannie Mae por discriminação racial e propôs que 50% da carteira das duas instituições fosse composta por empréstimos a pessoas de baixa renda até o ano 2001. Ao invés de prestar atenção ao risco de crédito de quem estava tomando o empréstimo, os bancos eram estimulados a emprestar com base em critérios políticos. Por exemplo, o Banco Central determinou que as instituições tratassem seguro-desemprego como fonte de renda válida do tomador do empréstimo. Avaliações “politicamente corretas” impostas ao mercado de crédito imobiliário sobrepujaram a teoria financeira básica posta à prova por anos de prática. Enquanto a mídia louvava o fato de que latinos e negros pobres finalmente teriam direito à casa própria, economistas alertavam que os empréstimos forçados segundo critérios não-financeiros e os subsídios governamentais ao mercado imobiliário iriam levar a uma crise no momento em que esse mercado esfriasse e os tomadores dos empréstimos não conseguissem mais quitar seus débitos vendendo suas casas. Ora, como podemos notar, essa bolha, muito bem detectada, de fato, estourou. O adágio “de boas intenções estão pavimentado o caminho para o inferno” tornou-se real. Alguém pode se perguntar: se já existia o alerta, por que não fizeram nada a tempo? A resposta passa por interesses políticos e ideológicos. Fannie e Freddie contribuíam nas campanhas de políticos de ambos os partidos, com um peso maior para os democratas. A relação entre seus diretores e Washington era notória. Frank Reynes, um dos diretores que enriqueceram levando Fannie Mae à crise, hoje é assessor de Barak Hussein Obama. Sobre a solução, o plano aprovado nesta semana dá ao governo até US$ 700 bilhões a serem gastos na compra de ativos financeiros desvalorizados de bancos e de companhias de seguros. Ao fazer essa capitalização, o governo espera restaurar a confiança no sistema financeiro, evitando corridas bancárias que levariam essas instituições à falência. Recuperados, os bancos voltariam a emprestar recursos aos investidores, gerando crescimento econômico. O preço desses ativos a serem comprados está vinculado ao mercado imobiliário, hoje em crise devido a uma queda no preço das casas. Como ninguém sabe o valor exato desses ativos, há uma chance, ainda que remota, de que o governo esteja fazendo um negócio razoável: comprar na baixa para vender na alta. Além disso, o governo terá participação acionária nas instituições socorridas. Assim, caso o plano dê certo e o valor dessas ações suba, o contribuinte americano ainda pode se beneficiar. Além dessa repartição do risco pela sociedade, não há, portanto, nada semelhante a uma solução socialista, qual seja, a estatização. Ora, o governo não será proprietário dos bancos; não indicará os dirigentes do banco; não determinará como o banco deve operar; não indicará a que indústria o banco deverá emprestar. Melhor que seja assim. O resultado da solução esquerdista já foi conferido quando a Cortina de Ferro finalmente caiu, revelando um mundo de pobreza e de infelicidade na Europa Oriental e na Rússia. Não é à toa que, hoje, uma vez democratizados, estes países fogem desse tipo de condução econômica. A forma de aprovação do Plano também foi uma lição de democracia, algo impensável numa economia socialista. Não foi feito por medida provisória nem por decreto ditatorial, mas precisou ser aprovado pelo Congresso, o conjunto dos legítimos representantes do povo. Este, através de seus congressistas, mostrou entender que o Governo, além de responsável por sua segurança física, também é responsável pela segurança do sistema financeiro, do qual todos participam. Uma crise em Wall Street representa um desastre para Main Street: empresas deixam de investir; a economia entra em recessão; o desemprego aumenta; fundos de aposentadoria se desvalorizam; etc. Por fim, sobre a solução dessa crise, ouvimos uma reclamação freqüente: os americanos erraram e o resto do mundo pagará a conta. Ora, o resto do mundo se beneficiou nas últimas duas décadas do crescimento americano. Muito se fala do crescimento chinês, mas o PIB da China, o valor de todos os bens finais produzidos num determinado ano, é de apenas US$ 3,251 trilhões contra US$ 13,84 trilhões dos EUA. A China, portanto, tem um peso consideravelmente menor na economia mundial. Enquanto as demais economias desenvolvidas – Europa Ocidental e Japão – patinavam, o crescimento americano, impulsionado pelo elevado consumo financiado pelo boom imobiliário; e pelo aumento de produtividade vindo de avanços tecnológicos como a internet criada por eles, sustentou o mundo nas costas. *Economista do Ipea. E-mail: marcelo.dspessoa@gmail.com |