Webjornal - Mensal  - Edição 86 - Aracaju, 15 de janeiro a 19 de fevereiro de 2006
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Literatura

A palavra nua e crua

Provocar maravilhamento e espanto, eis o ideal literário da jornalista e escritora Márcia Guimarães. "Escrevo e reescrevo um texto dezenas de vezes, até que a minha pele fique arrepiada".

Por Carla Jamille*

A jornalista Márcia Guimarães acaba de ter seu romance, A conspiração dos imortais, lançado em Lisboa, pela Editora Livros do Brasil. Trata-se do primeiro livro de ficção científica brasileira publicado na Coleção Argonauta, uma das mais antigas e importantes do mundo, com uma carteira de autores composta por Isaac Asimov, Phlilip K. Dick, Arthur C. Clark e Ray Bradbury, cujas obras vêm sendo adaptadas para o cinema em mega-sucessos de bilheteria como Blade Runner, Minority Report, Matrix, Eu Robô e 2001, Uma Odisséia no Espaço.

Há cinqüenta anos a Argonauta não publica autores de Língua Portuguesa. Márcia Guimarães iniciou no jornalismo em 1969, na redação de O Globo, passando pelo Correio da Manhã, Última Hora, Jornal do Comércio, Tribuna da Imprensa e Estado de São Paulo, entre outros. Na entrevista abaixo, ela falou sobre jornalismo e literatura.

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BN - Você atuou bastante como jornalista. Quando, porém, você olhou para um texto e disse "quero fazer isso, vou ser escritora"?

Márcia Guimarães - A literatura veio antes do jornalismo. Na verdade, uma das razões que me levou às redações de jornal foi a intimidade com o texto. Creio que a consciência de ser uma escritora nasceu quando li Bliss, de Katherine Mansfield, aos 14 anos de idade. Clarice Lispector teve a mesma reação diante do mesmo livro (descobri isso mais de 30 anos depois). Comecei a ler aos 6 anos de idade: Monteiro Lobato, os Irmãos Grimm, Andersen, Histórias da Moura Torta do folclore brasileiro, contos árabes, clássicos de fadas franceses. Tudo isso foi construindo um universo em que o texto representava a porta de entrada do encantamento. Cresci lendo tudo que me caía nas mãos. Sem preconceito. Foi a melhor coisa que me aconteceu na vida - não ter censura, não me sentir obrigada a gostar de qualquer cânone que me empurrem goela abaixo. Odeio imposições de qualquer tipo. Jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócia. Odeio guetos, grupinhos, patotas literárias. Lia desde a série proibida por meu pai - Conselheiro XX, de Humberto de Campos - até Wells em O Grande Ditador, passando pelos russos, de Tchecov a Dostoievsky. Lia almanaque Tico-Tico, Hendrick Van Loon, gibis, Eça de Queiroz, Terror Negro, Bocage, Machado de Assis, Mandrake, Balzac, Dickens, Tolstoi, Stendhal, Flash Gordon, Saroyan, Malba Tahan, Gogol, Borges, Luluzinha e Bolinha, Cortazar, Flaubert, Juan Rulfo, Pato Donald, Ciro Alegria, M. Delhi, Vida de Santos, Cervantes, Santa Teresa D'Ávila, literalmente tudo. Meu cânone literário é enorme. Inclui desde Gargantua e Pantagruel, de Rabelais, até O som e a fúria, de Faulkner. Mas ao ler Bliss, encontrei Katherine Mansfield, escritora neo-zelandesa que morreu aos 33 anos de idade, tuberculosa, em um castelo nos arredores de Paris. Katherine foi e é uma obsessão. Ao encontrá-la descobri que eu era uma escritora. Não importava se eu era uma boa, ou uma má escritora. O prazer de transformar sensação, sentimento, pensamento e reflexão em texto, e expressar o mundo através da palavra escrita é o que faz de mim, essencialmente, uma escritora.

BN - Você já lançou livros premiados como O rabo do presidente, A grande marcha do Coronel Baldomero Sampaio, e Academias & Companhias. Além disso, diversos contos. Elege algum deles como o seu preferido?

M.G. - Não. Mas “Piano, Pianíssimo”, conto que pertence ao livro A grande marcha do Coronel Baldomero, é o que mais se aproxima de mim. Tenho, por ele, uma ternura enorme. A Grande Marcha é um épico, e faz a passagem entre o conto e o romance que eu escreveria a seguir, A conspiração dos imortais. A grande marcha já tem alguns elementos do romance: pluralidade de personagens, tensão dramática, encadeamento, ação narrativa no tempo e espaço. É inspirado em um personagem real, o coronel Jefferson Cardim Osório, um velho revolucionário que ficou anos exilado em Paris, onde o conheci, nos anos 80. Era uma figura marcante, barbaramente torturada em prisões diversas da América Latina. Seu plano de invadir o Brasil pelo Rio Grande do Sul - o que realizou - em um caminhão velho com cinqüenta recrutas dentro, foi o estopim para que eu escrevesse A grande marcha. Quando, ao ser preso, o torturador lhe perguntou: “Confessa. Você queria ser presidente do Brasil?” O Coronel respondeu: “Não. Eu queria ser general de um exército popular.” Com um personagem desse calibre, eu tinha que criar um conto à altura.

BN - Exista algum ideal de escrita que você persiga?

M.G.  - Não. Persigo a palavra exata para exprimir a reflexão e o sentimento do mundo. Quero que seja crua e nua, mas capaz de provocar sensações de maravilhamento e espanto. Como a que eu sinto diante dos grandes textos. Um sentimento de estar suspensa da vida real e, ao mesmo tempo, mergulhada nela. Para isso, escrevo e reescrevo um texto dezenas de vezes, até que a minha pele fique arrepiada.

BN - Um pout-pouri digressivo: seus hobbies?

M.G. - Brincar com gatos.

BN - Filmes e livros prediletos?

M.G. - Filmes: Morangos Silvestres de I. Bergman; Morte em Veneza e O Leopardo, de Lucchino Visconti; Humberto D, de Vitório de Sica; Shane, de George Stevens; Era uma Vez na América, de Sergio de Leone; Noites de Cabíria, de Fellini; Blade Runner de Ridley Scott; A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra; Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, Onibaba, de Kaneto Shindô, e A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, E O vento Levou... de Victor Fleming, Cabeças Cortadas e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha Carandiru, de Babenco, As Férias de Monsieur Hulot e Mon Oncle, de Jacques Tati. Entre centenas de outros.

Livros: D. Quixote, de Cervantes, Os Irmãos Karamasov e Os Possessos, de Dostoiewisky, Almas Mortas, de Gogol, Guerra e Paz de Tolstoi, Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe, Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, Morte à Crédito, de Louis-Ferdinand Céline, O Som e a Fúria, de Faulkner, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Memorial de Aires de Machado de Assis, Memórias de Um Sargento de Milícias, de Joaquim Manoel de Macedo, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Os Maias, de Eça de Queiroz, Felicidade e Cartas, de Katherine Mansfield, Grande e Estranho é o Mundo, de Ciro Alegria, O Senhor Presidente, de Miguel Angel Astúrias, El Aleph, de Jorge Luis Borges, e por aí vai.

BN - Um sonho?

M.G. - Viver em paz, no meu canto. Lendo.

BN - Um pesadelo?

M.G. - O ser humano. Nunca sei quando vai atacar.

BN - livro que gostaria de escrever?

M.G. - São dezenas. Mas a criação de Sancho Pança e D. Quixote bastaria para justificar uma vida.

BN - Outro que gostaria de esquecer (que leu ou escreveu)?

M.G. - Não tenho. Quando não gosto de um livro, interrompo a leitura. Esqueço.

BN - Como acontece seu momento de criação?

M.G. - Uma explosão inconsciente. Você não sabe que acontece. Está lá. De repente, começa a incomodar. É uma idéia recorrente, uma sensação física, um alheamento às coisas vivas. No período da ruminação, fico desatenta a tudo que está a minha volta. Não ouço a fala do outro. Não escuto o barulho do mundo. Nada me toca.

BN - E a velocidade com a qual se constrói um livro, desde a idéia até o produto final?

M.G.  - Pode demorar um ano.

BN - Se pudesse dedicar o conjunto de sua obra a alguém, quem seria?

M.G.- A Inácio de Loiola Alencar Filho, meu companheiro.

BN - Fale um pouco a respeito do seu último romance A conspiração dos
imortais
. O que motivou a sua criação? Onde ele pode ser comprado?

M.G. - Queria escrever uma história que me encantasse e divertisse. Queria escrever sem a cobrança interior de perfeição formal ou densidade de tema. Queria ficar solta das patas, como diz um bom amigo gaúcho. Mergulhei de cabeça na construção desse romance, que é a resposta para uma única indagação que me incomodou sempre: como nós, cá do lado de baixo do Equador, chegaremos ao terceiro milênio? O que eu quero saber é como nós vamos nos inserir num tempo e num espaço que já está sendo construído pelo imaginário do Primeiro Mundo. Que diabo é isso? Cadê a nossa própria criação, nossa construção mental, nossa fabulação, nossa perspectiva de tempo, nosso saber do passado que necessariamente nos leva ao saber do futuro? Que raio de futuro é esse? Seremos reféns do imaginário anglo-europeu? Seremos a escória do terceiro milênio? Ou alguém aqui acredita que teremos acesso à tecnologia de Minority Report ou Matrix? Ou que guerreiros africanos possam lidar com uma tecnologia de ponta, gentilmente posta à disposição das tribos por uma benevolente sociedade igualitária? A Conspiração dos Imortais é uma reflexão sobre esta exclusão. É uma fábula política e social onde em um mundo abandonado, com tecnologia à disposição da minoria, um plano é descoberto para executar, enfim, a tão sonhada eliminação definitiva dos miseráveis.

BN - Quais seriam suas palavras para os escritores que estão começando?

M.G. - Vivam. Metam-se, encharquem-se, arrebentem-se na vida. Amem e odeiem com força. Não façam nada sem paixão. Sintam dentro de si mesmos, sem medo ou vergonha, todas as emoções humanas, da ternura à inveja, da preguiça à loucura. Não escutem conselhos. Não tenham medo das contradições. Não sejam coerentes. Não acreditem nos textos da internet assinados por Carlos Drummond de Andrade. Ele jamais escreveria aquelas baboseiras. Leiam o que quiserem. Mas leiam. Leiam. Leiam. Façam o que quiserem. E escrevam. Simplesmente, escrevam.

* Estudante de Jornalismo da FACHA - RJ

                                 

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