|
|
|
|
|
Verso e reverso A perda do estatuto da sabedoria na velhice Margarida Ribeiro* A idade traz muitas coisas consigo. No tempo em que eu nasci e me fiz criança, a idade significava sabedoria e experiência. As únicas coisas que as minhas bisavós não dominavam melhor do que todos nas suas casas, eram o telefone e o quadro dos fusíveis da luz eléctrica. Tudo o resto, exceptuando as torneiras que foram fáceis de aprender a usar, existiam, imutáveis, desde que tinham nascido. Setenta anos a ver fazer e a fazer as mesmas coisas, da mesma maneira, com os mesmos instrumentos, tinham-lhes dado uma sabedoria que servia a todos os mais novos para a própria aprendizagem. Eram reverenciadas pela atenção e respeito de quem aprendia com elas segredos de chás medicinais, a forma certa de bater os bolos com a colher, a maneira de limpar com areia o fundo das garrafas (que sempre eram usadas de novo), a maneira certa de tirar cada tipo de nódoa. Nos tempos de hoje, são os filhos e netos que nos ensinam a nós, os avós, tantas são as novidades que em cada ano nos chegam. Deixámos de ter o estatuto de gente sábia da família. Por outro lado podemos gabar-nos de ter assistido a mudanças tão extremas que nos deixariam assustados se as tivéssemos previsto. E, ou apanhamos a onda aprendendo a usar as novidades, ou passamos a seres de outras eras, tratados com a condescendência com que se tratam as pessoas menos inteligentes. Mas há um encanto que possuímos – o de podermos comparar, divertidos e sem nostalgia, certas dificuldades do passado com as facilidade de agora. Hoje lembrei-me das longas viagens dos anos 50. Eram todas longas, aliás. As estradas eram estreitas, os automóveis lentos, as subidas arrastadas, as médias de 50 km por hora – se em terreno plano. De Coimbra a Lisboa, 200 km que hoje se fazem em 1’ e 40 ‘’ (sem ultrapassar o limite de velocidade), levávamos naquele tempo mais de 5 horas bem contadas. E quando íamos ao estrangeiro, tirando quem se metia num comboio e dormia em carruagens-cama para chegar mais longe, eram todas para Espanha, o único país ao nosso lado. Fiz algumas dessas viagens com os meus pais e os meus tios. Havia na época um costume que, com tantas outras distracções, desapareceu completamente nas famílias: ao serão jogavam-se cartas a feijões (literalmente a feijões). E um dos objectos que sempre se trazia de Espanha eram novos baralhos de cartas, cada um mais bonito do que o outro, de uma qualidade e a um preço que – calculo agora – não se encontravam em Portugal. Mas era contrabando. Antes de passar a fronteira onde os guardas portugueses revistariam o automóvel, parávamos à beira da estrada e os adultos tratavam de descobrir os lugares mais improváveis para esconder os novos baralhos. Recordo-me de ser sempre eu a mais angustiada de todos quando chegávamos à alfândega, embora, que me lembre, nunca tenhamos sido “apanhados”. Essas revistas fronteiriças duraram muitos anos. Já eu era mãe de filhos pequenos quando, na passagem de Espanha para França, os forros das portas do nosso carro foram completamente desmanchados pelos guardas aduaneiros que procuravam alguma coisa para a qual teriam sido alertados. Quando agora, neste Espaço de Schengen europeu, dou comigo a atravessar fronteiras sem diminuir a velocidade e sem pensar no que levo comigo, sinto sempre um alívio agradável, uma alegria de paz, aos quais nenhum jovem tem direito. E mais coisas que os jovens têm como naturais são olhadas por mim como miraculosas, desde o telemóvel à batedeira eléctrica de massa de bolos, desde os directos em televisão até às roupas prontas a vestir. Todo o verso tem reverso. O reverso da perda de estatuto é a sensação de maravilha a que temos direito.
*Professora
portuguesa, reside
|