Edição 102 - Aracaju, 10 de junho a 08 de julho de 2007
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  crônica
Os médicos e a pessoa
Quando a particularidade de cada um valia

Margarida Ribeiro*

No tempo em que fui mãe, o médico que assistiu o crescimento dos meus filhos já tinha sido meu médico assistente desde que eu era criança. Conhecia os meus pais e não raro lhes resolveu problemas de saúde, atendia os meus irmãos. Ao fim de anos era o nosso amigo, o nosso confidente de mágoas e de alegrias. Conhecia-nos, inteiros, como pessoas.

Quando um dos meus filhos apresentava determinados sintomas, ele ligava-os aos que conhecia em mim, aos que vira nos meus pais e irmãos, aos problemas físicos ou espirituais que a família vivia e – sendo cada um de nós uma pessoa diferente – entendia e reconhecia as particularidades de cada um. Era capaz de ligar uma dor de cabeça minha a um problema familiar. Evitava medicação ao máximo. Foi com ele que aprendi a dar comprimidos de pão amassado às minhas crianças, o perfeito placebo para despistar as queixas física que lhes nasciam só da alma, e a curá-las com atenção e carinho.     

Mais tarde começaram a nascer os médicos especialistas de tal modo especializados que eram incapazes de ligar uma dor muscular a um qualquer terror psicológico, uma reacção física estranha a uma alergia igual à de um familiar e – pior do que isso – tão seguros se sentiam do seu saber que se recusavam, irritados, a ouvir as minhas tímidas sugestões sobre a possibilidade dessas ligações, como se eu estivesse a querer “ensinar o padre-nosso ao vigário”.

Nessa altura aquele meu velho médico da família era a minha salvação. Ele começava por me aconselhar o especialista e depois, perante o diagnóstico recebido, ditava-me o tratamento suplementar do outro mal que o especialista não levara em conta. E muitas vezes esse suplemento nem era para o doente.

Lembro-me bem da voz dele.

- Esta receita é para o teu filho, e esta para ti.

- Mas eu não estou doente!!!! – reclamava eu.

- Pois não estás, mas conheço-te, e vais ficar doente com o esforço e preocupação de tratar a tua criança. E a primeira condição da saúde dele é a tua saúde.

O meu médico-“pai”-amigo, um dia envelheceu e não pôde mais trabalhar. E eu passei a sofrer a angústia de tentar saber a que especialista ir – porque precisamos de um curso de medicina para saber que médico devemos escolher perante sintomas aos quais não somos capazes de atribuir uma causa óbvia.

Agora leio nos jornais sobre o nascimento da medicina pós-genómica (uma vez que o genoma humano está descodificado), que pode fabricar medicamentos à medida de um doente. Dará lugar, pensa-se, a terapias personalizadas e, por isso, mais eficientes porque poderão ser adaptadas à especificidade do doente, com base no conhecimento das suas particularidades genéticas. (Diário de Notícias, 08/06/07)

São boas notícias. Os meus filhos e netos tornarão a ser tratadas como pessoas únicas. Deixarão de, como agora, dar consigo a ser apenas uma coluna vertebral, uma depressão ou um ouvido, uma sistema sanguíneo ou uma vesícula, sempre isoladamente.

Vai-lhes faltar o olhar amigo e o estender da mão para afagar o seu ombro. Vai-lhes faltar aquela certeza antiga de amor humano e da intimidade misturados com os comprimidos. Mas serão de novo pessoas tratadas cada uma delas como uma pessoa diferente e apenas igual a si mesma. Esperemos que sim.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal.  E-Mail: mariamares@sapo.pt Blog: http://encostada.blogspot.com/