Edição 102 - Aracaju, 10 de junho a 08 de julho de 2007
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  crônica
Tempestades passageiras
Muitas resultam da nossa imaginação

Margarida Ribeiro*

Faz já muito tempo, li esta história algures, escrita por autor que não sei dizer quem. Mais coisa, menos coisa, era assim…

Um certo homem sonhava ter um pequeno barco de recreio, que estava dentro das suas posses adquirir. A mulher dele, porém, considerava essa despesa uma loucura inútil e não queria nem ouvir falar em tal.

Numa certa sexta-feira à noite, o marido chegou a casa e declarou:
- Desta vez não resisti. Comprei o barco. Entregam-mo segunda-feira.
Tal como ele esperava, a mulher perdeu a cabeça. Disse-lhe as últimas, recusou-se a terminar o jantar, gritou, insultou-o. E ele dormiu essa noite no sofá da sala.

Durante todo o sábado, não se falaram até ao serão. Nessa altura, já sem gritos mas com uma reserva de argumentos e acusações que mentalmente coleccionara durante o dia, a mulher fez-lhe o maior sermão que ele já ouvira.

Ele não ripostou. Admitiu ter sido precipitado. Ela desabafara e nessa noite ele arriscou voltar à cama de casal; deparou-se com uma mulher ainda amuada, de costas voltadas, mas que não o expulsou.

O domingo foi mais tranquilo. Perante o “está feito, feito está”, a esposa deu consigo a assumir aquela decisão do marido como um facto passado. Durante a tarde a conversa normal entre ambos recomeçou e o sono nocturno chegou com ambos abraçados.

Então, no dia seguinte, segunda-feira, o homem levantou-se, saiu - e calmamente foi comprar um barco.

***

Uma vez por outra convém verificarmos se, sim ou não, o céu cai em cima da nossa cabeça se tomarmos uma certa decisão. Deixamos de tomar muitas decisões, algumas importantes, com medo de pequenas tempestades que fazemos questão de imaginar destruidoras e, na verdade, são passageiras e inofensivas.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal.  E-Mail: mariamares@sapo.pt Blog: http://encostada.blogspot.com/