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crônica
Tempestades passageiras
Muitas resultam da nossa imaginação
Margarida Ribeiro*
Faz já muito
tempo, li esta história algures, escrita por autor que não sei dizer quem.
Mais coisa, menos coisa, era assim…
Um certo homem sonhava ter um pequeno barco de recreio, que estava dentro
das suas posses adquirir. A mulher dele, porém, considerava essa despesa uma
loucura inútil e não queria nem ouvir falar em tal.
Numa certa sexta-feira à noite, o marido chegou a casa e declarou:
- Desta vez não resisti. Comprei o barco. Entregam-mo segunda-feira.
Tal como ele esperava, a mulher perdeu a cabeça. Disse-lhe as últimas,
recusou-se a terminar o jantar, gritou, insultou-o. E ele dormiu essa noite
no sofá da sala.
Durante todo o sábado, não se falaram até ao serão. Nessa altura, já sem
gritos mas com uma reserva de argumentos e acusações que mentalmente
coleccionara durante o dia, a mulher fez-lhe o maior sermão que ele já
ouvira.
Ele não
ripostou. Admitiu ter sido precipitado. Ela desabafara e nessa noite ele
arriscou voltar à cama de casal; deparou-se com uma mulher ainda amuada, de
costas voltadas, mas que não o expulsou.
O domingo foi mais tranquilo. Perante o “está feito, feito está”, a esposa
deu consigo a assumir aquela decisão do marido como um facto passado.
Durante a tarde a conversa normal entre ambos recomeçou e o sono nocturno
chegou com ambos abraçados.
Então, no dia seguinte, segunda-feira, o homem levantou-se, saiu - e
calmamente foi comprar um barco.
***
Uma vez por
outra convém verificarmos se, sim ou não, o céu cai em cima da nossa cabeça
se tomarmos uma certa decisão. Deixamos de tomar muitas decisões, algumas
importantes, com medo de pequenas tempestades que fazemos questão de
imaginar destruidoras e, na verdade, são passageiras e inofensivas.
*Professora
portuguesa, reside
em
Castelo
Branco,
Portugal. E-Mail:
mariamares@sapo.pt.
Blog:
http://encostada.blogspot.com/
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